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Entrevista. "Foi muito bonito o público cantar a 'Grândola' de pé"
Luxemburgo 7 min. 08.05.2019 Do nosso arquivo online

Entrevista. "Foi muito bonito o público cantar a 'Grândola' de pé"

A cantora Luísa Vieira voltou ao Grão-Ducado para homenagear a revolução portuguesa.

Entrevista. "Foi muito bonito o público cantar a 'Grândola' de pé"

A cantora Luísa Vieira voltou ao Grão-Ducado para homenagear a revolução portuguesa.
Foto: Steve Eastwood
Luxemburgo 7 min. 08.05.2019 Do nosso arquivo online

Entrevista. "Foi muito bonito o público cantar a 'Grândola' de pé"

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Voltou ao Grão-Ducado para homenagear a revolução portuguesa e diz que, mesmo quando não entendem as letras, os luxemburgueses compreendem muito bem a música e o espetáculo.

Voltou ao Luxemburgo para homenagear o 25 de Abril no dia da revolução com o projeto Abri’Lux. Como foi? 

Foi o melhor espetáculo que demos! Estávamos muito bem em termos de comunicação e ligação entre nós, com casa cheia, público atento e emocionado que cantou a “Grândola Vila Morena” de pé! Foi muito bonito...

É difícil dominar as emoções quando se está num espetáculo com estas condições?

É, por vezes, difícil o equilíbrio, são decisões muito rápidas, deixamo-nos levar e descuramos algumas questões técnicas. Ou até esquecer os arranjos e ir por outro lado porque, entretanto, o texto nos puxa para aí... Mas, com oito pessoas em palco, há sempre alguém com uma coisa a dizer...

Foto: Steve Eastwood

Há um certo espírito de PREC, uma certa anarquia?

(Risos) Sim, como só nos reunimos três vezes por ano para concertos específicos, todos os anos temos a parte dos ensaios para tudo estar ali ’na batata’, como se diz, e isso é um bocado anárquico porque toda a gente dá sugestões. E aí entra a voz do chefe, do Marc, a dizer que temos de ser pragmáticos. Há sempre uma série de emoções, de personalidades e estilos a gerir, isso é certo, mas sempre no sentido de melhorar.

Como têm sido estas colaborações com músicos luxemburgueses desde o grupo Inuk ao Abri’Lux, passando pelo projeto “De Amália a Godinho”?

Tenho fortalecido laços com esta malta, estes amigos do Luxemburgo e isso torna mais fácil a comunicação musical... mas às vezes também mais difícil, porque, como estamos todos muito à vontade uns com os outros, apesar de o Marc [Demuth] ser o líder do projeto e de ter a última palavra, temos sempre coisas a apontar, a alterar nos arranjos, novas músicas a acrescentar, novos textos, uma nova visão sobre o que temos andado a fazer. Mas desde o trio até agora ao octeto tornou-se um projeto de cariz interventivo, mais associado à Revolução. Começou por ser mais ligado ao jazz e à música brasileira. No caso da primeira encomenda para a Philharmonie já integrava temas portugueses, embora não tanto sobre o 25 de Abril. No ano a seguir, quando os convido para irem a Portugal, e tenho a ideia de juntar o Zé Rui, porque já temos o projeto em comum lá e sei que a voz declamada dá outra força, criou-se o octeto. Comecei por ser eu, o Marc e o Jorge a fazer os arranjos para as músicas, eu trouxe quatro temas do Zé Mário Branco e do Fausto, o Marc trouxe outros do Sérgio Godinho, o Jorge também e, a partir daí, a banda também nos transformou. Com o Zé Rui foi preciso perceber como fazer casamentos entre a música e a poesia.

Foto: Steve Eastwood

Essa presença da palavra declamada traz uma componente quase encantatória ao espetáculo ou há outras componentes?

Traz esse lado e outro de mais perseverança, até pelo tom que o Zé Rui dá a alguns textos. Mesmo quem não entende a língua percebe que há ali um forte caráter de luta e de afirmação.

Nasceu dez anos depois do 25 de Abril: como é que avalia a Revolução e o efeito que exerceu no país?

Mesmo não tendo passado por isso, ouvi muitas histórias e fui-me informando. Acima de tudo, sou muito grata a quem travou toda essa luta e que me permite ter hoje a vida e a liberdade de expressão e os direitos que tenho, ainda mais sendo mulher com este sentimento de poder afirmar-me perante a injustiça. Claro que desvalorizamos no dia a dia, entramos na vida normal e não estamos sempre atentos, mas por isso temos estas datas e relembramos que não se trata de um dado adquirido e que teve enormes custos para muita gente lutar por isso.

Steve Eastwood

Nasceu no Porto, mas viveu em Braga até ir para a faculdade: que memórias guarda?

Estudei no Conservatório de Música em Braga e, depois, fui para a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), onde continuei os estudos da parte clássica. Durante o curso de flauta clássica, entre 2001 e 2005, foi a altura em que abriu um curso superior de jazz no Porto. Não sei porquê, comecei a dar-me mais com as pessoas do jazz, ia ouvir ’jam sessions’ e concertos. Acabei o curso de flauta clássica e tocava nas orquestras, mas percebi que aquele reportório não era tão aliciante como o do jazz. Então, mal acabei o curso de flauta, fiz provas e entrei no curso de canto de jazz, até porque comecei a cantar num coro de jazz na altura. Já tinha o conhecimento técnico da flauta e quis mais na área do canto. E aí estava muito focada a estudar ’bebop’ e a linguagem toda do jazz sobre a improvisação. Foi tirar as partituras da frente e entender toda a harmonia subjacente a uma música e conseguir delineá-la à minha maneira.

É isso que a atrai?

É essa liberdade de me darem uma paleta de cores e dizerem-me para as combinar à minha maneira. Gosto muito dessa possibilidade.

Graças a uma bolsa de estudo foi para Boston aprender com excelentes professores. Fale-me dessa experiência.

Foi muito importante porque me abriu as portas ao mundo de várias maneiras. Conheci pessoas de todas as nacionalidades com várias formas de estar, diferentes culturas e saberes. E conheci as músicas desses diferentes sítios, podendo escolher diferentes formações em cada semestre. Fiquei só um ano, mas foi uma fase de descoberta muito enriquecedora, pois fui buscar a música africana, a brasileira, a indiana, toquei com diferentes músicos e ainda mantenho contacto com alguns.

Agora ensina no curso de jazz do Conservatório de Coimbra, onde chegou ao mesmo tempo que começou o projeto com o Zé Rui em Tondela. Como foi esse momento?

Foi há cerca de seis anos. Em 2008 já tivera um contacto com o ACERT e o Zé Rui. Quando voltei de Boston, ele fez-me um convite para ir a Moçambique integrar uma peça de teatro e disse-lhe que talvez precisasse de música. Como tinha acabado de contactar em Boston com esse lado da música africana, ir para Tondela significou criar esse projeto com o Zé Rui e desde então temos vindo a fazê-lo em escolas, teatros, hospitais, cafés, bares, em vários contextos. É muito íntimo e valorizo-o muito.

Steve Eastwood

E como é a experiência de ensinar?

É passar palavra e partilha, isso é cíclico. O que fui beber lá fora agora estou a passar a jovens nesse curso. É intensivo e ajudamos a criar jovens com enorme talento e diferentes experiências no estrangeiro. E nós também aprendemos com eles, portanto, para mim é um grande complemento ao lado da performance. Faz-me crescer e estar sempre atualizada, porque eles são fantásticos e puxam muito por nós.

Guarda algum público com especial carinho?

(Pausa) Pois, nem sei bem... Estava aqui a pensar onde é que... Fomos já a tantos sítios, não sei... Se calhar, mesmo que pareça um cliché, aqui no Luxemburgo, mesmo que, por vezes, venham menos portugueses do que desejávamos, não sei se por não saberem muito bem ao que vêm, mas mesmo com o público luxemburguês, sem entenderem as palavras, percebem muito bem o espetáculo. Agora, o público mais caloroso? Não sei... Talvez em Portugal, quando vamos tocar àquelas aldeias e a lugares mais pequenos... Mas também depende do projeto e se é mais intimista. Com o Zé Rui às vezes gostamos de ir a sítios mais pequeninos, a recantos...

O que prefere: cantar ou tocar?

(Risos) O que apareceu primeiro, o ovo ou a galinha? (Mais risos) Olhe, não sei, não consigo escolher, é como perguntar qual é o filho de que gostas mais, não é possível responder...

Já alguma vez pensou no que seria a sua vida sem música?

(Pausa) Isso seria algo muito complicado... Aliás, às vezes, quando estou assim mais para baixo, penso: ’Eh pá, já não toco há muito tempo – vou tocar!”. (Risos) Não sei, é algo que faz parte de mim, do meu ADN, faz parte da minha vida.

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