Escolha as suas informações

Entrevista: “Festas, futebol e folclore são importantes para manter a ligação com Portugal”
O historiador luxemburguês Thierry Hinger assina uma tese sobre as políticas de emigração e as associações portuguesas no Luxemburgo.

Entrevista: “Festas, futebol e folclore são importantes para manter a ligação com Portugal”

Foto: Chris Karaba
O historiador luxemburguês Thierry Hinger assina uma tese sobre as políticas de emigração e as associações portuguesas no Luxemburgo.
Luxemburgo 9 min. 29.11.2017

Entrevista: “Festas, futebol e folclore são importantes para manter a ligação com Portugal”

O historiador luxemburguês Thierry Hinger passou quatro anos a vasculhar os arquivos das associações portuguesas no Luxemburgo e do Instituto Diplomático, em Lisboa, para escrever a tese de doutoramento. Um estudo que documenta a história das associações portuguesas no Luxemburgo e as políticas de emigração após a revolução de 1974.

Chama-se “História cruzada das associações portuguesas no Luxemburgo e da política de emigração de Portugal” (em alemão no original), mas o título pode vir a mudar quando for publicada para o ano, como espera. Para já, a tese ainda tem os ’post-it’ coloridos a marcar os capítulos, usados para facilitar a defesa perante o júri da Universidade do Luxemburgo, que lhe atribuiu a nota de “excelente”, em setembro. Já este mês, Thierry Hinger esteve no Canadá para falar sobre a tese, no congresso anual da “Social Science History Association”, confirmando que é um dos luxemburgueses na linha da frente dos estudos sobre a imigração portuguesa. Nesta conversa, o historiador, de 35 anos, aponta “o papel importante” das associações portuguesas no Grão-Ducado, que vai para além do folclore e do futebol.

Para fazer esta tese, teve de consultar documentos em português. Como é que aprendeu português?

Começou tudo por causa da minha tese de mestrado, na Universidade de Trier, que já era sobre as migrações portuguesas, sobre o discurso da imprensa portuguesa no Luxemburgo, de 1966 a 1991. Para o fazer, tive aulas de português durante um ano, em Trier, mas foi sobretudo a ler as fontes primárias, isto é, os jornais portugueses no Luxemburgo, que aprendi português. Pode dizer-se que aprendi português a ler o Contacto dos anos 70 e 80 [risos]. Mas também outros jornais da época, como A Nossa Voz, que era editado pela União, e jornais de esquerda, como A Verdade.

Isso faz-me lembrar uma historiadora indiana que entrevistei há uns anos, que fez o doutoramento sobre a influência dos portugueses na Índia. Ela leu manuscritos do séc. XVI na Torre do Tombo mas não se sentia confortável para falar português. O Thierry fala português [a entrevista foi feita em francês]?

Sim, mas não falo português do séc. XVI [risos]. Já há alguns anos que consigo ler português, mas só comecei a falar no início da minha tese. Estava em Lisboa e saí à noite para ir ao Bairro Alto. Depois de alguma cervejas dei por mim numa mesa com portugueses, a falar em português [risos]. Eles compreendiam-me e eu a eles e podia desenrascar-me. Foi assim que ultrapassei esta barreira e me lancei no português falado.

Quais são as principais conclusões da sua tese?

A ideia era ver qual era a relação entre as políticas do Estado português para a emigração e o papel das associações naquilo a que eu chamo a reconstrução do Estado Português após a revolução dos cravos, em 1974. A nação portuguesa existe há muito mais tempo, mas após 1974 os portugueses a viver no estrangeiro, designados geralmente por “comunidades portuguesas”, passaram a ter um lugar de destaque no imaginário nacional de Portugal. Isso reflete-se por exemplo com a reinstalação do 10 de junho como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a partir de 1978. E também quis perceber os processos de inclusão dos portugueses no estrangeiro, através de políticas como a criação do Conselho das Comunidades Portuguesas.

Essas políticas incluíam o ensino de português?

Sim, mas aqui é preciso recuar a antes de 1974. No Luxemburgo, o português passou a ser ensinado a partir do final dos anos 1960. Uma das motivações era manter os laços com Portugal das crianças portuguesas no estrangeiro, através da língua e da cultura. Na primeira revisão da Constituição, em 1982, acrescentou-se um artigo que previa que o Estado português organizasse cursos de português para os filhos de emigrantes. Ou seja, esta obrigação está inscrita no texto fundamental da República Portuguesa. Outro ponto importante, além da política e da cultura, é económico. O Estado português encorajou os emigrantes portugueses a enviarem remessas para Portugal, para poder pagar as suas dívidas, e aqui foram criadas contas bancárias com taxas de juro interessantes.

Foram até criadas agências bancárias no estrangeiro, como no Luxemburgo.

Sim, e empréstimos bancários para comprar casa, numa altura em que os emigrantes pensavam regressar a Portugal. Após a queda da ditadura, o Estado português e as associações portuguesas no Luxemburgo fizeram parte desta reconfiguração da nação portuguesa, que passa de uma nação imperial, pós-colonial, para uma nação em que as comunidades portuguesas ganham destaque. Este processo de inclusão leva a que a nação não se limite às fronteiras nacionais: no discurso do Estado português, engloba também os portugueses que vivem no estrangeiro.

E qual foi o papel das associações neste processo de configuração das políticas de emigração?

Há vários exemplos. Pouco depois da Revolução dos Cravos, nascia no Luxemburgo uma associação de defesa dos interesses dos alunos portugueses, que reivindicava a criação de cursos integrados de português. Foi uma reivindicação vanguardista, porque só foi efetivada anos mais tarde. E a associação Amizade Portugal-Luxemburgo, através do então presidente, Lucien Huss, fez diligências junto do Governo luxemburguês e português para que fosse concluído um acordo cultural entre os dois países. Noutras áreas, as associações tinham sobretudo um papel de divulgadores da comunicação. As decisões em matéria de política migratória eram tomadas em Lisboa e era preciso divulgá-las. No Luxemburgo, foi criada uma delegação do Secretariado de Estado para a emigração e as circulares eram distribuídas pelo Consulado às associações. Vemos bem as ligações estreitas entre as associações portuguesas e as políticas migratórias, com a criação nos anos 1980 do Conselho das Comunidades Portuguesas, por exemplo. E estes representantes tiveram um papel não negligenciável nas políticas de emigração.

As associações então não serviam só para o folclore e as sardinhadas?

Não, tinham também um papel institucional na transmissão da comunicação de Portugal aos imigrantes portugueses, servindo também como porta-voz da comunidade portuguesa no Luxemburgo. Claro que havia festas, futebol e folclore, o que também é importante para manter a ligação com Portugal. E aqui as associações tiveram um papel central, porque era através delas que se mantinha a cultura do país de origem, e o Estado português encorajava os imigrantes a manter essa ligação. Mas o papel institucional também era muito importante.

Esse papel das associações continua a ser importante?

Bem, a minha tese abarca um período que vai de 1974 a 1997, e nos últimos 20 anos houve muitos desenvolvimentos que não estudei, mas pelo que vi nos meus contactos, continuam a ser importantes. Ainda há muitas associações bem vivas, que organizam atividades, como há outras que vão menos bem, mas isso é normal, porque dependem de pessoas-chave e a sucessão é difícil. Mas continuam a interessar as pessoas e, de maneira geral, a ser importantes para a convivialidade e sobretudo para as atividades de tempos livres. Com o aparecimento da internet, o papel de divulgador da comunicação passa por outras vias que nos anos 1960/70. Já não é a carta escrita à máquina e enviada pelo correio. E a posição de Portugal também mudou. Depois de um período em que a emigração perdeu importância, porque Portugal passou a ser também um destino de imigração, tenho a impressão que voltou a mudar. Com a crise financeira, os portugueses voltaram a emigrar, e enquanto a emigração continuar – o que continua a ser o caso – as associações continuarão a ter importância, como o CASA (Centro de Apoio Social e Associativo), a CCPL (Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo), ou a Amizade Portugal-Luxemburgo, para a convivialidade e a organização de atividades.

Foto: Chris Karaba

O tema da sua tese é a história recente (1974-1997). Foi difícil ter acesso a documentos?

Sim, foi complicado, levei algum tempo até ter acesso aos arquivos do Instituto Diplomático, em Lisboa. Foi graças à ajuda do antigo embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, e de Manuela Aguiar, ex-secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, que pude aceder aos arquivos do Instituto Diplomático. E havia outras dificuldades a ultrapassar, porque eu fui o primeiro a pedir para consultar os arquivos da Embaixada e do Consulado de Portugal no Luxemburgo. Como o Instituto Diplomático não tinha espaço para armazenar todos os documentos, os do Luxemburgo estavam numa empresa privada em Mafra. E não havia inventário. Mas foram tão generosos que me fizeram um inventário, e até me prestaram o gentil serviço de fazer vir os documentos em que eu estava interessado para Lisboa, para eu não ter de me deslocar a Mafra. E estes arquivos foram realmente um achado, porque há documentos muito interessantes, que completam a falta, nos anos 1970, dos arquivos da associação Amizade Portugal-Luxemburgo (APL), que foram deitados fora, e de muitas outras associações.

Há vários luxemburgueses a fazer estudos sobre a imigração portuguesa, como a geógrafa Aline Schiltz. O Thierry organizou aliás o primeiro congresso sobre imigração portuguesa na Universidade do Luxemburgo, no ano passado, e já vai na segunda tese sobre este tema. A que se deve este interesse?

Já houve um interesse no final dos anos 1990, com os estudos da Delfina Beirão.

Mas agora a maioria dos investigadores são luxemburgueses, ao contrário do que acontece habitualmente na diáspora. Em França, por exemplo, o especialista da emigração portuguesa é o historiador Victor Pereira, da Universidade de Pau.

A imigração portuguesa no Luxemburgo também faz parte da sociedade luxemburguesa e da história nacional, e por isso é perfeitamente normal que também haja luxemburgueses interessados nestas questões e não seja um assunto reservado a lusodescendentes. Além de mim e da Aline Schilz, há outros luxemburgueses a trabalhar nesta área, como Jean Ketter, que publicou recentemente uma tese sobre a imigração e o futebol, que inclui o futebol português [ver artigo na pág. 18]. Acho que é um assunto importante para a sociedade luxemburguesa. Segundo o Statec, os portugueses representam 17% da população do Luxemburgo, e é absolutamente normal que os investigadores se interessem por este fenómeno migratório.

Paula Telo Alves

____________________________

As escolhas de Thierry Hinger

Um livro?

“A crítica da razão pura”, de Kant. Além de História, também estudei Filosofia, na Universidade de Trier, e é um livro fascinante.

Um disco?

Adoro vinis dos anos 1970 e 1980 e jazz. Se tivesse de escolher só um, seria o “Headhunters”, de Herbie Hancock.

Prato preferido?

Esparguete à bolonhesa.

A sua ideia de dia perfeito?

Café, cigarros e mar.

O melhor e o pior do Luxemburgo?

É muito bonito, mas é um país pequeno.

E de Portugal?

Também é um país pequeno, mas tem o mar.


Notícias relacionadas

Maioria de portugueses no Grão-Ducado nasceram em Portugal
Publicados no âmbito do 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, os dados do gabinete luxemburguês de estatísticas (Statec) revelam que sete em cada 10 portugueses residentes no Grão-Ducado nasceram em Portugal (69,4%).
A menina luxemburguesa que pediu para aprender português
Chama-se Maria e fala português desde menina, mas é luxemburguesa dos quatro costados. Maria Hoffmann aprendeu português em criança, em Larochette, nos anos 1970. A menina luxemburguesa pediu para frequentar um dos primeiros cursos de língua portuguesa organizados para imigrantes.
ITW Maria Hoffmann - Photo : Pierre Matgé
Editorial: Que idade tem a comunidade portuguesa?
O CONTACTO festeja este ano o seu 45° aniversário. O jornal foi fundado em Janeiro de 1970, para informar a comunidade portuguesa no Luxemburgo. Ao comemorarmos esta data, surgiu-nos uma questão natural. Em que ano exacto situar o início da emigração portuguesa para o Luxemburgo?
Em Junho de 1965 uma missa na catedral do Luxemburgo juntou meio milhar de portugueses para celebrar pela primeira vez o Dia de Portugal no Grão-Ducado.
Depois disso houve um almoço eu ma festa. Foi o primeiro evento organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado de que há registo