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Entrevista. "É impossível apagar esta canção"
Luxemburgo 1 9 min. 07.05.2019 Do nosso arquivo online

Entrevista. "É impossível apagar esta canção"

Entrevista. "É impossível apagar esta canção"

Fotos: Matic Zorman / Contacto
Luxemburgo 1 9 min. 07.05.2019 Do nosso arquivo online

Entrevista. "É impossível apagar esta canção"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O rapper luxemburguês Tun Tonnar, filho do conhecido músico Serge Tonnar, foi processado por ter, na linguagem normal do rap, mandado bugiar o racismo e os comportamentos xenófobos. Na dia 8 de maio saberá se é condenado.

O escritor Claude Frisoni disse numa peça que há 45 anos não eram admitidas pessoas divorciadas em receções na casa Grã-Ducal. Daqui a 45 anos é possível haver rappers?

MC na família grã-ducal? MC Henri? Não sei se é possível. Mas não creio que haja uma regra que proíba os membros da família real do Luxemburgo de cantar rap. Se alguém tiver vontade e talento, acho muito bem que o faça.

Normalmente, vê-se o rap como forte crítica social. É também assim no Luxemburgo?

Depende. Pode fazer-se um rap crítico ou não. Eu posso fazer um tema como “FCK LXB” (Féck Lëtzebuerg) [que se foda o Luxemburgo] e outros temas de conteúdo político, criticando a situação a que são sujeitos os imigrantes. Mas posso fazer uma canção sobre divertir-me, sem criticar nada. Hoje a tendência internacional do rap é sobretudo virada para o divertimento.

Mas isso não é uma espécie de apropriação cultural? O rap ao sair de uma certa marginalidade transforma-se em algo que não é?

É verdade, mas hoje em dia o rap não tem uma posição marginal. As tabelas de vendas nos EUA fazem uma estatística, todos os anos, para estabelecer a percentagem que têm os vários géneros musicais em cada ano. E até ao ano passado era sempre a pop, com cerca de 41%. O ano passado, pela primeira vez, foi o rap, com cerca de 60% do mercado.

Isso é uma boa ou má notícia?

Para mim é uma boa notícia, mas mostra que o rap de hoje já não é o rap marginal dos anos 80 e 90. Nessa altura, o rap era para dar a voz a pessoas que não tinham voz, às pessoas do gueto. Era o que faziam pessoas como Tupac [Shakur]. Para além de tudo, aqui no Luxemburgo não há verdadeiros guetos...

Não há nenhuma espécie de gueto?

Claro que há pessoas marginalizadas, mas não vejo aqui o rap como voz dessas pessoas. Não me coloco numa posição de falar em nome dessas pessoas. Mas por vezes há momentos em que quando se escreve uma canção se sente uma vontade de dizer algo. E foi isso que aconteceu quando escrevi “FCK LXB”, fazer algo contra esta tendência que se observa nos EUA, Brasil e Europa.


Rapper luxemburguês diz “foda-se” à extrema-direita e é processado
A música chama-se “FCK LXB” (Féck Lëtzebuerg), ou, em bom português, “que se foda o Luxemburgo”, e é uma crítica aos extremistas, populistas e xenófobos do país. Mas valeu uma queixa-crime ao seu autor. Um caso que testa os limites da liberdade de expressão no Luxemburgo.

Também no Luxemburgo?

Aqui manifesta-se sobretudo nas redes sociais e nos comentários nos sites da RTL, etc... Há aí uma tendência muito à direita e muito racista. Por que é que é assim? Não acho que o Luxemburgo seja um país racista ou de direita, como foi visível nas últimas eleições. Mas esta tendência nas redes sociais mostra que embora a maioria das pessoas seja contra o racismo, não se opõe aos comentários racistas. Sempre defendi que se por cada comentário racista no FB houvesse três a contestá-lo, seria um pouco mais equilibrado. Por isso fiz esta canção, e foi também por isso que escolhi uma linguagem mais dura para combater fogo com o fogo. Dar-lhes a provar o seu próprio remédio, como se diz.

Os partidos do Luxemburgo mais à direita não aparentam ser tão à direita como a extrema-direita dos outros países. Acha que há algo escondido na sua posição?

O campo institucional da extrema-direita política no Luxemburgo parece não existir. É tudo muito mais subtil. Utilizam-se coisas normais, com muita gente a poder concordar com a opinião deles. Por exemplo, esta história sobre as placas com os nomes das ruas. Partidos como o ADR e os Konservativ defendem que o luxemburguês deve estar em primeiro lugar em todas as placas das ruas. É um género de reivindicação com que muitos podem concordar, no sentido de valorizar o luxemburguês. É assim que essas forças atuam: fazem reivindicações aparentemente anódinas de forma a ganhar as pessoas.

Por falar em língua, ouve sobretudo rap norte-americano?

No meu meio escuta-se sobretudo americanos e alemães, mas eu oiço também música francesa e gosto do rap francês. Penso que hoje em dia a língua não é assim tão importante como era há dez anos. No Youtube, a música mais vista é o “Despacito”, que é em espanhol, e depois temos o “Gangnam Style” dos sul-coreanos. Portanto, há muitas músicas que quase ninguém compreende: não é o caso do espanhol, mas é certamente do coreano. Acho que a língua não é assim tão importante. Apesar de pensar que quando estamos no carro e ouvimos na rádio uma canção em luxemburguês, os luxemburgueses ouvem-na mais e de uma outra forma do que se fosse um tema em inglês ou francês.

O rapper luxemburguês é acusado de injúrias, um crime punido com dois meses de prisão.
O rapper luxemburguês é acusado de injúrias, um crime punido com dois meses de prisão.
Foto: Matic Zorman / Contacto

A língua condiciona a forma de fazer música?

De certa forma, sim. Há expressões que só há em luxemburguês. Mas eu, que ouço muitas músicas alemãs, francesas, americanas e, mesmo não compreendendo, rap islandês e holandês, deixo-me influenciar. Os islandeses são um belo exemplo, têm menos habitantes que o Luxemburgo mas a cultura e a música é mais valorizada que cá. Os rappers islandeses têm vídeos com mais de um milhão de visualizações. No Luxemburgo, com o dobro da população, isso não acontece. Têm orgulho na sua música e isso nota-se. Quando eu comecei a cantar, fi-lo num grupo de punk e em inglês, porque todo o mundo cantava em inglês. Quando comecei a fazer rap em luxemburguês, as pessoas perguntavam-me porque o fazia, e diziam-me que assim não conseguiria exportar a minha música. Na maior parte das entrevistas que dou, a primeira pergunta que me fazem é por que razão canto em luxemburguês. E porque não? É a minha língua materna. Direi, portanto, que a língua influencia a minha música, mas outras línguas também.

O seu pai também é músico. Usa igualmente o sentido de humor nas suas canções. Quais são os pontos de continuidade e as maiores diferenças entre os dois?

A maior diferença é o estilo. O meu pai faz sobretudo folk/rock. Apesar de haver canções em que ele rapa. Diz-me sempre que inventou o rap luxemburguês em 1993. É verdade que usou o rap nos anos 90, mas é óbvio que há uma diferença de estilo. Mas a maior diferença consiste em que para ele o texto é muito importante. O texto é superior à música. Para mim, a música é, pelo menos, tão importante como o texto. Mas aprendi muito com ele. Quando lhe mostro uma canção vê sempre o texto. E vai-me dizendo o que mudava nas palavras. Tenho uma imensa dívida para com ele. Mas para mim a música tem muita importância.

É interessante, porque no rap a palavra tem uma enorme importância.

Sim, mas o ’beat’ é o fundamental. Podemos ter o melhor rapper do mundo, que rapa fantasticamente, mas se rapa sobre um beat de merda não o consigo ouvir. Os dois são importantes, mas é mais fácil escutar uma canção bem feita, com uma grande melodia, mesmo que o rapper não seja perfeito, do que o inverso. Mesmo sendo as palavras muito importantes. Mas apesar disso, eu começo a maioria dos meus temas pela música e o instrumental, e o meu pai começa sempre pelos textos.

Como é que o seu pai vê o processo que enfrenta? Julgo que também foi processado por algumas dessas pessoas...

Houve uma queixa, mas ele nunca chegou a ser processado [a queixa foi arquivada]. O procurador podia ter feito isso no meu caso também. Não o fez, certamente porque acha que há mais razões para me processar. Como é que o meu pai vê este processo? Ele apoia-me.

Mas falam disso?

Evidentemente. Deve ser quase a única coisa de que falamos nos últimos meses. Apoia-me muito. Trabalhou muito no processo. Ajudou o meu advogado. Penso que está mesmo mais afetado que eu.

Acha que este processo não é fortuito e tem a intenção de balizar aquilo que pode ser criticado?

É uma boa questão. Espero que não. Mas acredito que se a canção não fosse de rap e se eu não tivesse este apelido, não teria havido nenhum processo. Acredito nisto a 100%. O problema é que no Luxemburgo esta cena do rap é muito nova. Mas está a desenvolver-se. No outro dia estive num concerto com 800 pessoas. Pude cantar a canção pela qual sou acusado, e disse às pessoas que se a cantassem comigo podiam ser processadas. Toda a gente cantou. Foi mesmo um grande momento.

Foto: Matic Zorman / Contacto

O que pensa que acontecerá no processo?

O meu advogado não está muito otimista.

Acha que terá pesado nisso a referência na letra à família grã-ducal?

Talvez, mas eu não estou a ser julgado por nenhuma referência à família grã-ducal, até porque ela não apresentou nenhuma queixa. Ou porque não escutaram a canção ou porque são bastante inteligentes para não processarem um autor de uma canção, como, aliás, fazem a maioria dos políticos que foram objeto de críticas em canções. Quantas pessoas acha que já disseram numa canção “nique” [foda-se] Marine Le Pen”? Nenhuma delas foi processada. Donald Trump tem milhares de pessoas que lhe dizem “Fuck Trump”, mas não processou ninguém. Estes políticos sabem que ao fazerem isso estão a amplificar a canção que os critica.

Um dos queixosos pede a retirada da canção. O que vai acontecer se ganhar?

Ele disse que queria 50 euros por dia se a canção estivesse disponível na Internet. Disse que não queria relações sexuais comigo, porque quando ouviu ’féck’ [foda-se] interpretou literalmente o que eu cantei. Mas creio que aquilo que o tribunal vai decidir e aquilo que os queixosos pedem são coisas diferentes. Mas se houver uma censura à canção, é preciso perceber que a Internet não esquece. Mesmo se alguém a suprimir, ela vai continuar por aí. É impossível apagar esta canção. Se isso acontecer, talvez eu faça uma versão censurada ou mude algumas palavras. Algumas das pessoas criticadas na canção não fizeram queixa. Por exemplo, Tom Weidig, que tinha o mesmo tratamento na canção, não o fez e justificou no FB que naturalmente não gostava da canção e que a condenava, mas que na sua opinião Tun Tonnar tinha o direito de dizer disparates. Para mim este processo é surreal. As questões que suscita vão para além da canção. Implicam censura e liberdade de expressão. É perigoso condenar um estudante porque mandou bugiar determinadas pessoas por razões políticas. Espero que se for condenado, isso mobilize as pessoas para não permitir este tipo de censuras.

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