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Entrevista: "Contamos com os jovens emigrantes para o futuro de Cabo Verde"
O antigo ministro da Educação de Cabo Verde apontou a importância da formação no futuro dos jovens cabo-verdianos no Luxemburgo

Entrevista: "Contamos com os jovens emigrantes para o futuro de Cabo Verde"

Foto: Vasco Santos
O antigo ministro da Educação de Cabo Verde apontou a importância da formação no futuro dos jovens cabo-verdianos no Luxemburgo
Luxemburgo 6 min. 06.07.2016

Entrevista: "Contamos com os jovens emigrantes para o futuro de Cabo Verde"

André Corsino Tolentino, antigo ministro da Educação de Cabo Verde e ex-embaixador do arquipélago em Portugal, está preocupação com o insucesso escolar dos jovens cabo-verdianos.

CONTACTO: Participou na gala de homenagem aos jovens cabo-verdianos que terminaram o secundário no Luxemburgo. Ver os seus compatriotas no estrangeiro serem reconhecidos por esse esforço intelectual é gratificante?

Corsino Tolentino: Apreciei a ideia de reunir esses jovens na Universidade do Luxemburgo. Foi um acto com muito peso, foi simbólico e com muito impacto. Passou a mensagem de que com perseverança e motivação tudo se alcança. Sabe, esperamos muitos desses jovens e contamos com eles para o futuro de Cabo Verde. Cada comunidade de cabo-verdianos no estrangeiro é uma janela do nosso país. Disse-o aos finalistas: sem educação e sem formação não se vai longe. É preciso acreditar nas nossas potencialidades, na persistência. Hoje, não tendo acesso ao conhecimento e às competências, também não se tem acesso ao profissionalismo.

Nesta sua visita ao país, participou também num debate em que se falou do insucesso escolar dos jovens cabo-verdianos. Esta siuação preocupa-o?

O relativo insucesso escolar da nossa comunidade aqui no Luxemburgo preocupa-me. Em cada 100 jovens de origem cabo-verdiana, seis abandonam a escola precocemente, antes de chegarem ao fim dos estudos. É uma taxa de 6%. Um número elevado e, provavelmente, a maior percentagem de insucesso escolar que o país regista dentro das comunidades estrangeiras que aqui residem.

Quais são as razões para essa taxa de insucesso escolar?

Penso que se deve sobretudo a uma certa incapacidade de adaptação das próprias famílias que chegam de Cabo Verde para trabalhar. Há também um fenómeno de migração que faz com que algum do insucesso escolar dos cabo-verdianos que chegam da Holanda, Bélgica, Portugal e França, por exemplo, continue a circular e venha eventualmente a ter algum peso aqui no Luxemburgo.

A questão das três línguas pode ser a origem do problema?

Vivi alguns anos na Bélgica e a percepção que tenho sobre a integração da comunidade cabo-verdiana nos países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) é de que é boa. Contudo, há e haverá sempre problemas de integração, nomeadamente na questão linguística. Dos três países do Benelux, parece-me que o Luxemburgo é onde há maior dificuldade de integração linguística. O cabo-verdiano é bilingue, fala o português e crioulo, e quando aqui chega é confrontado com mais três línguas oficiais que tem de aprender: francês, alemão e o luxemburguês, que é parte essencial para resolver um problema de identidade nacional do país que nos acolhe.

Qual é a solução para ultrapassar o problema e estimular os jovens e adultos a voltarem à escola?

Educar é, de certo modo, adaptar, fazer sacrifícios e, na realidade, as comunidades estão disponíveis para fazer um esforço mais do que racional. No plano global não é possível alcançar sucesso sem essa aprendizagem e sem a adequada formação escolar e profissional. Mas, felizmente, a comunidade cabo-verdiana está cada vez mais escolarizada e bem integrada no mercado de trabalho do Luxemburgo. Há muitos casos de sucesso. Já quanto aos mais jovens, é preciso que os pais e encarregados de educação se envolvam e se responsabilizem mais na educação dos filhos. A educação é o maior legado que podemos deixar aos filhos. E, no nosso caso, é promovendo o conhecimento em geral que criamos uma identidade própria do povo, da cabo-verdianidade e, ao mesmo tempo, zelamos pela imagem de Cabo Verde enquanto nação.

As relações de cooperação entre o Luxemburgo e Cabo Verde têm uma raiz sólida. Enquanto ex-combatente do PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde), acha que o novo governo, formado pelo Movimento para a Democracia (MpD), vai manter essas boas relações com o Grão-Ducado?

Esta relação saudável entre os dois países é muito importante. Penso que soubemos pegar na pequenez geográfica dos nossos países para nos compreendermos, fazer algo grande e vantajoso para ambas as partes. Temos um código e uma história comum. É uma cooperação muito eficaz. O Luxemburgo tem tido uma atitude para com Cabo Verde muito racional e razoável, no sentido de que não esperou a graduação de Cabo Verde para país de rendimento médio para o abandonar. Aguentou o 'take off' até Cabo Verde conseguir economicamente liderar-se a si próprio. Quanto ao novo Governo, está a tocar num ponto muito importante. O povo cabo-verdiano tem-se mostrado coerente no sentido de aceitar os resultados democráticos e não fazer depender as nossas relações exteriores com a cor ou partido que está no poder. Para nós, a cooperação vai continuar como até aqui e se calhar até mais reforçada no futuro. Creio que tanto o MpD, que está no Poder, como o PAICV, estão cientes disso e vão cooperar o melhor que puderem para valorizar Cabo Verde.

Espera que o Governo de Cabo Verde, liderado pelo primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva (Mdp), continue a fazer uma aposta forte na área da Educação e da Formação?

A Educação tem sido um dos pontos consensuais na ausência de uma estratégia de desenvolvimento integrado do país. Independentemente do Governo que lidera o país, Cabo Verde tem apostado cada vez mais na Educação do seu povo. Neste momento temos é que dar um salto qualitativo. A Educação que temos é satisfatória em termos de quantidade, mas está longe de nos satisfazer em termos qualitativos, para um mundo que é cada vez mais globalizado. Dificilmente teremos um papel relevante no mundo global se não tivermos um bom sistema de ensino, no sentido de dominarmos o conhecimento das tecnologias.

Como é que está a acompanhar a situação provocada pelo Brexit? Teme pelo futuro da comunidade cabo-verdiano no Reino Unido?

A relação de Cabo Verde com a Africa é idêntica à do Reino Unido com a União Europeia. O Brexit deixou-me preocupado, mas não creio que a situação provocada por este referendo traga problemas à nossa comunidade lá radicada. Não temo por eles. O Reino Unido tomou uma decisão que foi grave e, por isso, tem de ser capaz de encontrar as soluções exigidas para a saída da União Europeia (EU).

Estima-se que em Londres residam cerca de 4 a 5 mil cabo-verdianos…

A comunidade cabo-verdiana está relativamente bem integrada na Inglaterra, com uma boa capacidade profissional e, daí, penso que não terá problemas em conseguir desenrascar-se com facilidade naquele país. Não devemos ter muito a temer embora sejamos, agora, confrontados com uma nova realidade. Lamento que tenha havido o Brexit, pois preferia que o Reino Unido continuasse na União Europeia (EU), mesmo que criticando a instituição desde o interior.

E em relação a Cabo Verde, o Brexit pode trazer consequências comerciais?

O Brexit terá eventualmente implicação e impacto nas relações económicas que Cabo Verde tem com a UE, ao nível comercial, do turismo, mas acredito que será uma preocupação temporária. Penso que o Reino Unido e a UE encontrarão soluções válidas para os problemas e os desafios provocados pelo resultado do referendo.

Paulo Dâmaso


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