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Entrevista com Sven Clement. "Acabou o tempo dos partidos-supermercado"
Luxemburgo 1 10 min. 24.10.2018

Entrevista com Sven Clement. "Acabou o tempo dos partidos-supermercado"

Entrevista com Sven Clement. "Acabou o tempo dos partidos-supermercado"

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 1 10 min. 24.10.2018

Entrevista com Sven Clement. "Acabou o tempo dos partidos-supermercado"

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Chega ao local da entrevista a conversar em inglês com um casal de meia idade. “Não, não estou já a fazer campanha para as europeias – são norte-americanos, estavam perdidos e trouxe-os comigo porque vinham na mesma direção”, explica. Sven Clement, presidente do Partido Pirata, é várias vezes saudado ao longo da entrevista, mesmo à distância. E fala com entusiasmo da histórica conquista de dois lugares na Câmara dos Deputados onde planeia deixar marcas.

Como recorda o momento em que soube o resultado das eleições?

Nós tínhamos mesmo um plano [risos e a referência ao facto de estar a brincar com o slogan do CSV] que foi executado e não foi bem uma surpresa para nós, mas uma confirmação e um incentivo muito grande receber a confiança dos eleitores em função do trabalho desenvolvido. 

E que análise faz ao resultado geral?

As eleições mostraram algo bem claro: o tempo dos partidos-supermercado acabou. Esses partidos populares estão em crise e em queda livre e Sammy Wagner, do LSAP, fez a mesma análise que eu. As pessoas procuram lojas especializadas e, na política, escolhem temas e pessoas em quem confiem – ora, um grande partido não consegue oferecer coerência sobre todos os temas. Por isso os eleitores preferem um partido com perfil e reivindicações claros.

Os grandes partidos afastaram-se das pessoas?

Não será tanto isso, mas falharam a hipótese de convencer as pessoas. Grandes supermercados e grandes superfícies da democracia não são aquilo que um cliente individual, isto é, um eleitor procura. O eleitor não procura um plano ou um slogan, mas as reivindicações de que falava há pouco, uma nova visão concreta. No passado, com políticos como Pierre Werner ou Jacques Santer, estadistas que formularam visões a longo prazo, e Robert Schuman, neste caso a muito longo prazo, faria sentido falar assim.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Quem são os seus políticos de referência?

Gosto muito de Willy Brandt que definiu esta conceção sócio-liberal na Alemanha. Num plano de retórica e mais recente, apreciei muito Barack Obama, sobretudo tendo em conta aquilo que veio a seguir. No que diz respeito apenas a campanhas, não à sua conduta, sempre me inspirei em Oskar Lafontaine, muito próximo das pessoas e presente em todo o lado no Sarre. Gosto disso, de falar com as pessoas e não só estar num gabinete e criar um programa eleitoral que ninguém leia.

Como se define enquanto social-liberal?

Alguém que defende as liberdades individuais e fundamentais como a de expressão, de circulação, de fixação seja onde for, de nos expressarmos como, quando e onde pretendermos, liberdade de formar família sem que o Estado nos dite de que modo...

E com menos vigilância...

Muito menos vigilância, melhor proteção de dados, mas também uma Segurança Social capaz de garantir que ninguém fica para trás. Que toda a gente tenha direito a teto, viva com dignidade, possa fazer as suas escolhas sem estar sob tutela administrativa por questões económicas.

Tudo isso está em causa no Luxemburgo?

Sem dúvida! Basta ver o foyer Ulysse em que, para entrar, é preciso ficar sob tutela administrativa da Caritas. Ou os refugiados que vivem em certos centros de acolhimento e pagam 650 euros mensais por uma cama num quarto com quatro pessoas e casa de banho partilhada. Fiquei chocado! E há quem deixe pessoas mais idosas num quarto com a visita de quem as trate duas vezes por dia e é tudo. Nem sequer têm dinheiro para sair e ir às compras, porque esse desaparece no pagamento dos serviços básicos e ficam sem autonomia. E todos devem ter direito a uma vida digna, sejam desempregados ou aqueles que puderam chegar a mais velhos depois de terem construído este país.

O que pretendem os Piratas desta legislatura?

Queremos uma política moderna e equilibrada e isso fazia parte do nosso lema. O que esperamos da política governamental é um programa moderno e faremos uma oposição credível e construtiva, criticando ou aplaudindo de acordo com as nossas ideias.

Tem a ambição de obter resultados próximos dos do Partido Pirata checo [22 lugares no parlamento]?

Bem, eles têm um parlamento maior do que o nosso [risos], mas creio que andam entre os 17 e os 20% nos resultados. Sinto-me feliz por eles, temos conversado... Se fosse possível chegar a esse nível aqui ficaria muito satisfeito, mas estamos perto dos 7% e, nas europeias, se chegarmos aos 9,5%, conseguimos um deputado...

É o objetivo mínimo?

Não, mas ficaria muito feliz se o conseguíssemos.

Temos 47% de não-nacionais, a tendência é para que aqui vivam cada vez mais e é preciso integrá-los. (...) É preciso mostrar que nem todos os luxemburgueses são homens brancos com cabelos cinzentos. Temos cidadãos luxemburgueses de todas as idades, géneros, orientações sexuais e cores de pele.

Tem vários lusodescendentes no partido: como é a relação com eles?

O trabalho com os lusodescendentes é tão bom como com os restantes. Temos 47% de não-nacionais, a tendência é para que aqui vivam cada vez mais e é preciso integrá-los. Se não fossem os imigrantes não estaríamos onde estamos. Para nós era importante ilustrar a diversidade que existe no país e isso não se esgota no género. É preciso mostrar que nem todos os luxemburgueses são homens brancos com cabelos cinzentos. Temos cidadãos luxemburgueses de todas as idades, géneros, orientações sexuais e cores de pele.

É favorável ao direito de voto para os estrangeiros também nas legislativas?

Éramos a favor na altura do referendo. Depois do resultado de 80-20% contra, é muito difícil recuperar o tema na agenda política para já. Queremos mostrar aos luxemburgueses que autorizar o voto dos não-luxemburgueses não destrói o país, conforme vemos nas autarquias. E, por exemplo, que o Conselho Nacional dos Estrangeiros devia ser eleito de forma direta e não através de organizações para se tornar uma verdadeira segunda Câmara que pudesse responder sobre vários projetos e cuja opinião fosse considerada, como sucede com o Conselho de Estado. Isso pode fazer-se de modo mais rápido sem colocar em causa para já o direito ao voto e assim teríamos uma etapa suplementar.

Para integrar os não-luxemburgueses é precisa uma língua comum, mesmo que outras possam servir para clubes, associações, etc. Se a maioria do país não compreende aquilo que se diz no parlamento por questões linguísticas, isso é inaceitável, porque não se pode ter um discurso em quatro línguas ali.

Defende o reforço da língua luxemburguesa?

Não devemos atirar umas línguas contras as outras, mas, ao mesmo tempo, é preciso garantir a integração com base num aspeto e, para nós, trata-se da língua luxemburguesa, até porque é a que se usa nos debates políticos. Para integrar os não-luxemburgueses é precisa uma língua comum, mesmo que outras possam servir para clubes, associações, etc. Se a maioria do país não compreende aquilo que se diz no parlamento por questões linguísticas, isso é inaceitável, porque não se pode ter um discurso em quatro línguas ali. E temos 5.700 lugares para aprender e 30 mil pessoas a fazê-lo.

Durante a campanha falou em temas como participação cidadã, transparência da vida pública, mobilidade, fiscalidade, etc: pode dar exemplos de propostas vossas nesses casos?

Queremos que haja iniciativas cidadãs mais bem estruturadas e não apenas as petições; queremos abolir o imposto automóvel e criar uma vinheta que leve todos os utilizadores das estradas a pagarem do mesmo modo, ou seja, estará ligada à utilização do carro e não à sua posse; na fiscalidade queremos abolir as classes de impostos para termos a 2 dirigida a todos – é abominável aquilo que se faz agora aos divorciados e aos viúvos; quanto à transparência na vida pública, é preciso que os documentos tenham acesso mais simples. Votámos uma lei de não transparência antes das eleições, agora é preciso torná-la transparente e reabrir este dossier.

Também querem rever o sistema eleitoral: porquê?

Porque não é equitativo: o CSV perdeu 7,1% de votos no Este e não cedeu qualquer lugar – nós ganhámos 8% e não conseguimos esse lugar, o ADR obtém mais de 9% sem lugar. No Norte perdemos o lugar por cerca de 150 votos, no Sul o segundo ficou a 166.

Como deveria ser?

No plano matemático há outros sistemas de atribuição de lugares que são mais equitativos.

Fizeram campanha em sites como o Youporn e o Pornhub: porquê?

Porque é uma forma de chegar às pessoas onde elas estão, por que razão teríamos vergonha? São quatro milhões de visualizações, é um site legal, de uma sociedade que paga impostos no Luxemburgo como uma das maiores empresas aqui...

É também uma forma de liberdade de expressão para o partido...

Sim e com muitos visitantes, por que motivo deixaríamos de chegar a eles? Tivemos quase quatro milhões de visualizações, perto de 40 mil pessoas que clicaram [risos], tivemos ecos na imprensa sobre isso e sabe qual foi a diferença nos custos? Pagámos 350 dólares. Agora diga-me quanto teríamos de pagar se a publicidade fosse, por exemplo, na RTL e quantas visualizações teríamos? Foi uma escolha lógica, evidente e realista em termos matemáticos.

Em 2014, pagou uma multa de 500 euros depois de ir a tribunal devido ao caso Medicoleaks: considerou justo?

Devia ter saído do caso sem qualquer punição, porque não cometi qualquer infração. Detetei uma falha, comuniquei-a, duas semanas depois continuavam sem mudar a palavra-passe e fui condenado por verificar se a falha existia. Foi como se dissessem: ’ah, é preciso castigar de uma forma ou de outra, mas não podemos penalizá-lo muito porque não tinha más intenções, portanto, arranja-se aqui uma multa de 500 euros só para o caso de haver no futuro algo mais grave’. Mas isso não me impediu de participar na vida política, embora tenha sido mais um processo político do que penal.

O resultado das eleições já mudou a sua vida. Admite deixar a sua sociedade como consultor de comunicação digital?

Não, tratarei de impedir que haja conflitos e incompatibilidades. Todos os clientes que envolvam riscos serão tratados pelo meu sócio. Não tenho segredos: recebo o salário mínimo social qualificado; pago os meus impostos; sou casado; a minha mulher ganha muito mais do que eu... bem, isso agora vai mudar [risos], mas foi ela quem me permitiu participar na vida política.

A propósito da sua mulher, como analisa as reivindicações de mais presença feminina em lugares de decisão?

Se temos 50% de população feminina, é preciso que haja 50% de mulheres no parlamento e em todas as áreas da vida pública e privada [é interrompido por um cidadão que o cumprimenta] ... Só para concretizar, o que o Estado devia fazer era dar o exemplo, nomeando mais mulheres para empresas onde tem participação e controla os conselhos de administração.

Onde se vê dentro de dez anos?

Boa questão, mas não sei. Depende do trabalho que fizermos, do sucesso que os eleitores nos atribuírem, porque somos devedores da opinião pública, não a controlamos. Podemos até fazer bem o nosso trabalho, mas onde é que os eleitores nos veem dentro de dez anos? Talvez seja algo de diferente em relação ao que eu possa pensar. Assinei um CDD por cinco anos com a população luxemburguesa e trabalharei para representar no parlamento todos os residentes e mesmo os transfronteiriços. Tenho cinco anos para provar o meu valor e depois serão as pessoas a decidir se aceitam prolongar o meu CDD por mais cinco anos. Se esperava que respondesse que me via como primeiro-ministro ou outra coisa qualquer, a resposta é não. É preciso construir um projeto político por etapas e não forçar seja o que for porque assim se criam as crises.

Vídeo: Sibila Lind

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