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Entrevista com Natalie Silva, candidata a burgomestre em Larochette: "A integração faz-se todos os dias"
Natlis Silva tem 36 anos e é considerada a provável sucessora do burgomestre de Larochette, a localidade mais portuguesa do Luxemburgo.

Entrevista com Natalie Silva, candidata a burgomestre em Larochette: "A integração faz-se todos os dias"

Foto: Lex Kleren
Natlis Silva tem 36 anos e é considerada a provável sucessora do burgomestre de Larochette, a localidade mais portuguesa do Luxemburgo.
Luxemburgo 5 min. 30.08.2017

Entrevista com Natalie Silva, candidata a burgomestre em Larochette: "A integração faz-se todos os dias"

Natalie Silva é filha de imigrantes cabo-verdianos e pode vir a ser a próxima burgomestre de Larochette. Em 2011, foi a segunda mais votada, um resultado que lhe garantiu a nomeação para o lugar de primeira vereadora. A nível nacional, é também responsável pela organização de eventos do partido CSV.

Tem o cargo de primeira vereadora em Larochette.

Sim, e também sou a primeira mulher vereadora aqui.

E pode vir a ser também a primeira burgomestre. Acha que é possível?

Sou candidata às próximas eleições, e aí veremos o que os eleitores decidirão.

Mas teve um bom resultado nas últimas eleições, em 2011?

Sim, fui segunda.

Larochette é uma comuna pequena e as candidaturas não são partidárias, são em nome individual. Já há lista de candidatos?

Não, a lei prevê um prazo até 8 de setembro. Em todo o caso, o burgomestre e o senhor Weiler [vereador] já disseram que não se recandidatam.

O que distingue a sua candidatura?

A minha experiência de seis anos no Colégio de Vereadores. Quando fui eleita, em 2011, fui “atirada à água”, porque há 13 anos que trabalho na política, mas na política nacional. Éramos dois novos vereadores e o burgomestre explicou-nos tudo. Sei como funciona a administração e os vários serviços. Por outro lado, por causa do meu trabalho no CSV, conheço muita gente, e quando há um problema, estou bem conectada.

Quais são as suas prioridades?

Temos grandes projetos que gostaria de continuar, sobretudo a rede de água potável. O outro grande projeto é a ampliação da nossa escola, que não tem espaço para todos os alunos, mesmo no precoce. No resto do país, os alunos podem frequentá-lo o dia todo, mas aqui em Larochette, infelizmente, temos apenas duas turmas, uma de manhã e outra de tarde, por falta de espaço. E numa comuna como Larochette, onde as crianças têm muitas dificuldades linguísticas, é importante que possam frequentar o ensino precoce a tempo inteiro.

É a responsável pela pasta da educação?

Sim. É uma pasta que me foi delegada pelo burgomestre, porque eu já era ativa na associação de pais e sou a única a ter um filho em idade escolar, e conheço o assunto.

Um artigo no Land indicava que em Larochette só 10 a 20% dos alunos são orientados para o ensino clássico, contra 60 a 70% na localidade vizinha, Fischbach.

Sim, é possível. Mas eu também estudei no liceu técnico, e no final os alunos podem ir na mesma para a Universidade.

Que foi o que fez também: estudou Relações Públicas?

Sim, em Bruxelas.

Quantos estrangeiros estão recenseados em Larochette?

Temos 219 estrangeiros inscritos e 669 luxemburgueses, mas entre os luxemburgueses, há muitos que têm a dupla nacionalidade. Em termos percentuais, o número de estrangeiros inscritos é maior que a nível nacional.

Larochette elegeu um dos primeiros portugueses, o seu colega José dos Santos Mendes, em 2005, mas a nível nacional há poucos estrangeiros eleitos. Porquê?

Não me parece que a nacionalidade tenha um peso na decisão. Aqui em Larochette, o senhor José Mendes foi eleito conselheiro comunal pela população luxemburguesa, não foi só pelos portugueses.

Até porque o peso eleitoral dos portugueses é baixo...

Claro. Para mim, ser eleito está relacionado com o facto de o candidato estar integrado, viver na comunidade. Não me parece que as pessoas vão dizer: “ah, este candidato é português, por isso vou votar nele”. As pessoas votam em quem se envolve na vida da autarquia.

Até 2011 os estrangeiros não podiam assumir o cargo de burgomestre. Curiosamente, a explicação para esta barreira era sempre o “medo do burgomestre português de Larochette”.

Para quê fazer disto um problema? Eu sou de origem cabo-verdiana, tenho orgulho nas minhas origens, mas também sou luxemburguesa. Podemos ter origem portuguesa ou cabo-verdiana, e é uma coisa boa, mas por outro lado eu nasci aqui, o meu filho nasceu aqui, passei toda a minha vida aqui. Se amanhã eu decidisse ir viver para Cabo Verde, seria mais estrangeira lá do que aqui – e mesmo quando lá vou, com o meu sotaque, as pessoas dizem-me logo: “Tu não és daqui” [risos].

Como é que os seus pais chegaram ao Luxemburgo?

O meu pai estava em Portugal, depois de emigrar de Cabo Verde, e contava-me sempre que atravessou uma ribeira ilegalmente [para chegar ao Luxemburgo]. A minha mãe vivia em Itália, e eles decidiram casar. Casaram em Portugal e decidiram vir para o Luxemburgo, em 1971, para Echternach. Foram dos primeiros cabo-verdianos, dos primeiros negros, a viver lá. Depois mudaram-se para Ettelbruck, onde eu nasci e passei toda a minha infância.

Foi antes da independência das ex-colónias – os seus pais ainda tinham nacionalidade portuguesa?

Sim, mas rapidamente obtiveram a nacionalidade luxemburguesa. Eu já nasci luxemburguesa.

O “chumbo” das autarquias de Fischbach e Nommern no referendo sobre a fusão com Larochette, em 2014, foi um trauma para Larochette.

Sim. Nos dias a seguir ao referendo, o burgomestre disse que tinha sido “uma afronta” para a população portu...[corrige]… para a população de Larochette. As pessoas não o diziam abertamente, mas havia rumores de que haveria uma escola comum para as três comunas, e não era verdade. Tínhamos mesmo assinado uma convenção que previa que cada localidade iria manter a sua escola.

Mas acha que havia um medo latente em relação aos portugueses?

Como disse o burgomestre, não estamos na cabeça das pessoas, e é difícil para nós comentar o que se passou nas outras comunas. Nós, em Larochette, votámos a favor da fusão, porque considerámos que era uma mais-valia.

O que pensa fazer para melhorar a integração dos estrangeiros?

Temos muitos portugueses de segunda e terceira geração, e penso que para eles a integração está feita. São pessoas que, como eu, participam na associação de pais, votam ou têm a dupla nacionalidade. Para os que estão aqui há menos tempo, a escola é um dos locais em que as crianças são integradas e os pais também são convidados para participar. É verdade que nas ruelas onde só há portugueses é difícil encontrar luxemburgueses. Mas para mim a integração faz-se todos os dias, como na escola. E depois há os cursos de língua francesa e luxemburguesa. É preciso continuar a propor estes cursos e esperar que mais pessoas se inscrevam.

Há cursos de Português na escola?

Os cursos integrados acabaram pelo menos há 15 anos – agora, é da parte de tarde [paralelo]. Mas temos um projeto-piloto, os assistentes de língua portuguesa, que vêm ao ensino precoce falar em português com as crianças. Há estudos que mostram que se as crianças não conhecerem bem a língua materna, não podem aprender outras línguas, e é uma mais-valia.

Paula Telo Alves


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