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Entrevista ao embaixador do Luxemburgo em Lisboa: "Fiquei marcado pela gentileza dos portugueses"
Jean-Jacques Welfring é o embaixador do Luxemburgo em Lisboa deste setembro do ano passado.

Entrevista ao embaixador do Luxemburgo em Lisboa: "Fiquei marcado pela gentileza dos portugueses"

Foto: Maria Pires
Jean-Jacques Welfring é o embaixador do Luxemburgo em Lisboa deste setembro do ano passado.
Luxemburgo 7 min. 22.11.2017

Entrevista ao embaixador do Luxemburgo em Lisboa: "Fiquei marcado pela gentileza dos portugueses"

Desde setembro do ano passado como embaixador do Luxemburgo em Lisboa, Jean-Jacques Welfring confessa que não se sente a viver no estrangeiro, tal a forma como foi bem recebido. Considerando privilegiadas as relações entre as autoridades, lembra as bem sucedidas visitas de Estado, destaca a coragem do povo e sublinha a importância da comunidade portuguesa, sem esquecer a cooperação e a forte presença cabo-verdiana.

Como analisa a sua experiência em Portugal?

O meu trabalho aqui começou a 6 de Setembro do ano passado e sempre quis representar aqui o Luxemburgo. A experiência é muito positiva. Fiquei desde logo marcado pela gentileza dos portugueses na forma como me acolheram e digo muitas vezes aos meus amigos daqui que não tenho a impressão de estar no estrangeiro. Temos a sorte de, havendo uma comunidade muito importante de portugueses no Luxemburgo, os dois povos se conhecerem bem, algo que cria uma relação particular. Além disso, aprendi a apreciar a vida em Portugal, pois é muito agradável: a luz de Lisboa, bons vinhos, bons queijos, tudo o que qualquer luxemburguês começa, afinal, a descobrir, até porque, cada vez mais, os luxemburgueses passam cá as férias. Outra parte do meu trabalho é a ligação com as autoridades portuguesas e, sendo as relações excelentes, torna-se mais evidente como é muito boa a interligação.

E isso traduz-se também em várias visitas políticas...

Neste tempo que levo aqui houve a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Luxemburgo e foi um enorme sucesso; também tivemos a visita oficial do primeiro-ministro, António Costa, e há presenças regulares de ministros e secretários de Estado, além de também ter existido aqui duas visitas do primeiro-ministro Xavier Bettel, do ministro Romain Schneider, bem como de outros ministros. As relações bilaterais funcionam com eficácia porque nos conhecemos bem e trabalhamos muito bem juntos.

E tem havido reforço também nas trocas comerciais?

Sim, é um domínio que está em constante evolução. A presença do primeiro-ministro do Luxemburgo aqui pela segunda vez na Web Summit mostra duas coisas: primeiro, trata-se de um domínio em que as coisas que se passam estão a acontecer em Portugal, uma vez que foi a segunda vez que um evento tão importante aqui foi organizado com grande sucesso; segundo, uma vez que o primeiro-ministro também tutela a pasta das Comunicações e dos Media, acompanha estas questões de muito perto. Houve, pois, troca de sugestões a este nível, com ideias partilhadas e ajuda sobre coisas que podemos fazer juntos.

Em que medida as suas experiências anteriores, designadamente na Bélgica e junto da NATO, o ajudam aqui?

Quando estava na NATO tinha muitos portugueses a trabalhar perto de mim e a vizinhança das delegações permitiu-me conhecer melhor as pessoas, mas o entendimento entre diplomatas dos dois países foi sempre bom de um modo natural. E, nesse domínio da defesa comum, partilhamos muitas ideias.

Que análise faz à evolução do país desde a sua chegada?

Quando cheguei, pude perceber que os portugueses são muito corajosos e vinham de anos muito difíceis. Há pouco tempo passaram pela tragédia dos incêndios e gerou-se uma enorme onda de solidariedade em função da comunidade portuguesa, conforme o Grão-duque teve o cuidado de mostrar. Em contrapartida, os últimos meses trouxeram muito boas notícias do ponto de vista económico, algo que permitiu mesmo que Portugal saísse do procedimento por défice excessivo. As agências de rating melhoraram a apreciação sobre o país, algo que também tem consequências económicas positivas, ou seja, aos poucos a situação melhora e as pessoas sentem isso de modo direto.

Foto: Maria Pires

O seu antecessor aqui dizia ser preciso que os portugueses pensassem duas vezes antes de saírem para o Luxemburgo. Em 2015, registou-se a menor entrada de portugueses nos últimos 13 anos, com 3.525 cidadãos. É um bom sinal?

É uma boa notícia sempre que, em geral, menos pessoas tenham de deixar os seus países, pois significa que a vida em Portugal e noutros lados é melhor e as pessoas estão empregadas, conforme o demonstra a descida do desemprego no caso português. Por outro lado, cada vez mais são necessárias qualificações para encontrar trabalho no Luxemburgo e torna-se mais difícil a chegada dos imigrantes em geral.

Qual é o estado do ensino do Português no Luxemburgo?

O ensino das línguas em geral é uma das coisas muito importantes no meu país e ocupa parte das relações bilaterais. Por força das nossas circunstâncias, devemos aprender os idiomas dos nossos vizinhos e isso demonstra abertura da nossa parte, permitindo que enriqueçamos com a aprendizagem de outras culturas e que a indústria trabalhe em melhores condições. Contando com a nossa língua, os luxemburgueses devem aprender pelo menos três. Este governo sempre disse ser importante essa aprendizagem, bem como a do luxemburguês por parte das comunidades de migrantes para que se integrassem melhor. É uma área que tem merecido muitos esforços governamentais, não é vista como um problema e sim como uma oportunidade. E existe interesse de luxemburgueses em aprender Português.

Que temas pretende reforçar na relação com Portugal?

A importância da comunidade portuguesa no país é excecional e o Grão-duque afirmou-o de modo evidente, ao referir que o Luxemburgo não seria aquilo que é sem a comunidade portuguesa. E, vindo cada vez mais luxemburgueses em turismo aqui, um país de grande História e cultura, é preciso que nos conheçamos ainda melhor.

Se Mário Centeno for candidato à liderança do Eurogrupo, o Luxemburgo dará apoio?

É uma boa questão, mas trata-se de um processo ainda em andamento e com decisão no seio do Eurogrupo. Mas apreciamos muito todos os esforços que Mário Centeno tem feito como ministro das Finanças.

É formado em Ciências Económicas: como viu as medidas de austeridade aplicadas, por iniciativa europeia, sobretudo aos países do sul?

Estamos num sistema que tem as suas regras e cujo sucesso depende da aplicação das mesmas. A base, de ambição política e económica, é o euro e, para o seu funcionamento, é preciso preencher algumas condições. É certo que foram pedidos esforços difíceis a países como Portugal e saúdo aquilo que os governos fizeram para respeitar as regras, não só por elas, mas com o objetivo de haver uma situação económica mais favorável. E em nenhum momento foi colocada em causa a associação dos países à Europa.

A Europa tem desempenhado bem o seu papel na crise dos migrantes?

Isso ultrapassa muito a minha missão como embaixador, mas o Luxemburgo tem uma posição clara sobre esse tema, em linha com os nossos valores e aquilo que sempre defendemos. É uma questão difícil, que deve ser vista num plano de longa duração e desenvolvemos esforços de cooperação para que cada vez menos pessoas sejam obrigadas a empreender caminhos perigosos e possam ficar perto das suas famílias.

Qual é o papel do Luxemburgo no quadro de uma União em crise?

A história da União tem registado várias crises e há momentos mais difíceis do que outros. Por motivos diferentes, Portugal e o Luxemburgo têm encarado o seu futuro dentro da Europa, outro ponto em que temos uma ambição comum, e estabelecem pontes entre sul e norte, para a Europa funcionar no plano mundial. E há três momentos recentes importantes neste contexto: o discurso de Jean-Claude Juncker no Parlamento Europeu; as propostas de Emmanuel Macron e o discurso de António Costa em Bruges.

É também embaixador em Cabo Verde. Como é a relação com o país?

Muito boa. Tivemos a visita de uma delegação parlamentar luxemburguesa, encabeçada pelo líder, Mars Di Bartolomeo, durante a qual foi possível verificar resultados da intensa ligação em vários domínios. Também temos uma comunidade cabo-verdiana muito numerosa e isso é bastante positivo.

E houve mesmo uma filha de cabo-verdianos, Natalie Silva, que ganhou recentemente as eleições municipais em Larochette...

Sim, é um incentivo para a comunidade, mas também um exemplo para os próprios portugueses, conforme já o dissera o presidente Marcelo Rebelo de Sousa na sua passagem pelo país, convidando os cidadãos a participar em todos os aspetos da vida no Luxemburgo.

Paulo Jorge Pereira, em Lisboa

Perfil

Nascido em 1955, Jean-Jacques Welfring estudou no Liceu Michel Rodange (Luxemburgo), seguindo-se a Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), na qual se licenciou em Ciências Económicas. Foi embaixador não residente na Bulgária, diretor-geral da Defesa, embaixador em Bruxelas e representante permanente do Grão-Ducado na NATO. É casado (a mulher é embaixadora em Paris) e pai de dois filhos.

O que diz sobre...

Prato favorito?

A comida é demasiado boa para escolher só um.

Livros?

Leio de tudo um pouco sobre a História de Portugal.

Música?

Estou a descobrir o fado e a moderna música portuguesa.

Cinema?

Prefiro documentários.

Referência política?

Jean Monnet.


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