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Entrevista a Carlos Moedas: “Juncker via golos do Eusébio com vizinhos portugueses no Luxemburgo”
Luxemburgo 11 min. 05.07.2017 Do nosso arquivo online

Entrevista a Carlos Moedas: “Juncker via golos do Eusébio com vizinhos portugueses no Luxemburgo”

quando era novo, Juncker via os golos de Eusébio com os vizinhos portugueses no Grão-Ducado

Entrevista a Carlos Moedas: “Juncker via golos do Eusébio com vizinhos portugueses no Luxemburgo”

quando era novo, Juncker via os golos de Eusébio com os vizinhos portugueses no Grão-Ducado
Foto: CM
Luxemburgo 11 min. 05.07.2017 Do nosso arquivo online

Entrevista a Carlos Moedas: “Juncker via golos do Eusébio com vizinhos portugueses no Luxemburgo”

O comissário europeu da Investigação, da Ciência e da Inovação está hoje e amanhã no Luxemburgo. Carlos Moedas diz que o Grão-Ducado é dos países da UE com mais candidaturas ao financiamento europeu na investigação e fala das conversas com Juncker sobre os portugueses no Luxemburgo.

O comissário europeu da Investigação, da Ciência e da Inovação está hoje e amanhã no Luxemburgo para se inteirar do estado do setor da investigação no Grão-Ducado. Em entrevista ao Contacto, o comissário português Carlos Moedas diz que o Grão-Ducado é dos países da UE com mais candidaturas ao financiamento europeu na investigação e fala das conversas com Juncker sobre os portugueses no Luxemburgo.

Antes de assumir este cargo em 2014, quando era secretário de Estado adjunto do ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, os portugueses não o associavam à Investigação, Inovação e Ciência. De onde vem o seu interesse por estas áreas?

De facto, eu não sou um cientista, mas a minha formação está intimamente ligada à investigação e à inovação, já que sou engenheiro e economista. A investigação e a inovação têm um papel fundamental na restauração do crescimento económico sustentável, na competitividade e no emprego na Europa. Por outro lado, também sou político. E considero muito importante que os investigadores e inovadores possam fazer-se ouvir junto dos políticos. Esta é precisamente uma grande parte do meu trabalho como comissário: garantir que os cientistas sejam ouvidos.

Juncker e Carlos Moedas junto à estátua de Eusébio, no estádio da Luz, em Lisboa
Juncker e Carlos Moedas junto à estátua de Eusébio, no estádio da Luz, em Lisboa
Foto: CM

Juncker fala-lhe muitas vezes nos portugueses residentes no Luxemburgo?

Por causa das suas anteriores funções no Luxemburgo, o presidente Juncker conhece muito bem a diáspora portuguesa a viver no Grão-Ducado, bem como o nosso país, que visitou várias vezes. Vê-se que o seu entusiasmo pelos nossos cidadãos é mesmo genuíno, sobretudo quando os descreve como símbolo da boa integração entre cidadãos da UE. A título de exemplo, da última vez que estive em Portugal com o presidente Juncker, ele pediu-me para visitar o Estádio da Luz para prestar uma homenagem ao Eusébio. Contou-me que quando era novo assistia aos jogos do Benfica e via os golos do Eusébio com os seus vizinhos portugueses no Luxemburgo. Ele costuma também dizer que o Dia Nacional no Luxemburgo tem uma dimensão portuguesa, por a data estar muito próxima das celebrações portuguesas do São João.

Entrou em funções há dois anos e meio, ou seja, já cumpriu metade do seu mandato como comissário. Como tem sido trabalhar com Jean-Claude Juncker?

O presidente Juncker é um grande defensor da investigação e inovação e conhece a sua importância para construir um futuro próspero na UE. Aliás, a investigação e inovação sustentam as suas principais prioridades políticas. É por isso que o Horizonte 2020, o programa de investigação e inovação de que sou responsável, dá prioridade à liderança industrial e às principais tecnologias potenciadoras. Pessoalmente, senti sempre um grande apoio do presidente Juncker e temos uma relação de trabalho muito próxima. Posso falar com ele sempre que necessário.

Na receção com representantes da comunidade portuguesa, na residência da Embaixada, na quarta à tarde, que mensagem vai deixar?

Eu sinto que quase faço parte da diáspora portuguesa. Da minha cidade natal, Beja, mudei-me para Lisboa para estudar no Instituto Superior Técnico. Depois fui para Paris, graças ao Programa Erasmus. Foi em França, onde terminei o curso, que comecei a minha carreira profissional e vivi a experiência de participar num programa de rádio para a comunidade portuguesa. Foi também em França que casei com a minha mulher. Mais tarde, mudámo-nos para os Estados Unidos, onde adquiri uma perspetiva totalmente nova do que realmente significa ser europeu. De Boston fomos para Londres, onde nasceram dois dos meus três filhos e onde vivemos durante quatro anos. Quando voltei para Portugal, tinha passado 10 anos a viver fora do meu país. E agora, desde 2014, moro em Bruxelas com a minha família. Ou seja, sei muito bem o que significa viver no estrangeiro, longe dos nossos amigos e família, e ter de me integrar numa sociedade diferente, com pessoas diferentes.

Foto: Jennifer Jacquemart

Vem ao Luxemburgo para se inteirar do estado da investigação no Grão-Ducado, que é um pequeno país com grandes projetos...

Em pouco tempo, o Luxemburgo desenvolveu um sistema público de investigação muito eficaz. É impressionante o aumento do volume da despesa pública em Investigação e Desenvolvimento [I&D] entre 2000 e 2015. O desempenho científico do sistema público de investigação também evoluiu muito rapidamente, graças à capacidade de atrair excelentes investigadores estrangeiros, e está agora acima da média da UE. No entanto, o Luxemburgo ainda tem alguma dificuldade em alavancar os esforços públicos de I&D para investimentos empresariais. Acontece que o aumento das capacidades públicas de investigação nem sempre foi adequadamente direcionado, nem integrado numa abordagem abrangente do ecossistema de inovação. O Luxemburgo precisa de fortalecer a cooperação entre investigação pública e empresas. Fico feliz por ver que o Governo nacional tomou muitas iniciativas nesse sentido. Em 2017, o Luxemburgo recebeu uma recomendação específica que ressalta a necessidade de eliminar os obstáculos ao investimento e à inovação, para fortalecer a diversificação da economia.

Depois da siderurgia e do setor bancário e financeiro, o Luxemburgo já está a trabalhar num novo modelo económico, apresentado no ano passado pelo economista norte-americano Jeremy Rifkin. Esta “terceira revolução industrial”, que tem como base a internet e o sistema inteligente em todas as áreas da sociedade, está associada ao desenvolvimento, mas não necessariamente à qualidade de vida das pessoas...

O mundo está a mudar profundamente, principalmente através da digitalização, globalização e inteligência artificial. Isto significa que as nossas políticas e sociedades também precisam de se adaptar. Em toda a Europa, os países têm trabalhado em estratégias parecidas. Se as coisas forem bem feitas, o controlo da dinâmica desta nova revolução industrial pode dar um enorme impulso à economia e à sociedade, e cada pessoa irá beneficiar com uma maior qualidade de vida.

Foto: Lieven Creemers

O Luxemburgo quer ser também pioneiro na exploração comercial de minério espacial. A “Lei do Espaço” deve ser aprovada até final do ano. Porque é que não foi a União Europeia a avançar com esta lei? Imagine que cada Estado-membro venha a criar a sua lei...

A estratégia europeia do espaço baseia-se na complementaridade e na estreita cooperação entre os Estados-membros da UE e a Agência Espacial Europeia. A Comissão acompanha os últimos desenvolvimentos, mas não está a planear ações legislativas a nível europeu, por não ter poderes para legislar nestas áreas.

O programa da presidência luxemburguesa do Conselho da UE, no segundo semestre de 2015, previa a consolidação da confiança entre a ciência, a sociedade e os decisores políticos. Esse objetivo foi conseguido?

A integridade da investigação foi, de facto, uma das áreas que a presidência luxemburguesa do Conselho, em 2015, estabeleceu como prioritárias no domínio da investigação. Isto foi extremamente importante, porque é essencial que os cidadãos confiem na investigação. A integridade é a principal fonte dessa confiança e uma condição para a sua excelência. Não devemos nunca subestimar o risco de comprometer a integridade da pesquisa científica. Tal como a Europa, a ciência está no nosso dia-a-dia e nem sempre nos damos conta. O cidadão comum provavelmente não tem a noção, ao olhar para um telefone inteligente ou quando está a ser tratado no hospital, que foi a investigação de muita gente que contribuiu para aquele momento ou resultado. É fundamental que todos os que se interessam por estas matérias divulguem a ligação entre a investigação científica e a vida quotidiana, nomeadamente as vidas que se salvam.

No encontro com Xavier Bettel, vão falar sobre a investigação na UE. Quantos projetos luxemburgueses o programa europeu Horizon 2020 financiou até agora e qual o valor total?

No âmbito do Horizonte 2020, que decorre de 2014 a 2020, a Comissão já financiou 167 projetos com participantes do Luxemburgo, no valor de mais de 60 milhões de euros. Isto é um grande resultado, porque ainda vamos a meio do Horizonte 2020 [três anos e meio] e o montante em benefício dos participantes luxemburgueses é praticamente o mesmo que durante os sete anos do anterior Programa-Quadro (2007-2013). O Luxemburgo também tem uma taxa de sucesso impressionante nas candidaturas: é o terceiro melhor país entre todos os Estados-membros da UE. Além disso, cientistas das instituições de investigação luxemburguesas já ganharam cinco prestigiosas bolsas do Conselho Europeu de Investigação, no âmbito do Horizonte 2020, quando no sétimo Programa-Quadro tinha sido apenas uma instituição.

Foto: Lieven Creemers

São 80 mil milhões de euros que o “Horizonte 2020” tem para financiar ao longo de sete anos projetos de investigação e inovação. Como gestor deste programa europeu, qual tem sido até agora o real impacto desta verba na vida das pessoas?

O Horizonte 2020 está exatamente a meio caminho. Fizemos recentemente uma avaliação da primeira parte do programa e concluiu-se claramente que o programa está no bom caminho para ajudar a criar empregos e crescimento, enfrentar os maiores desafios da sociedade e melhorar a vida das pessoas. Tem um claro valor acrescentado europeu, produzindo benefícios demonstráveis ​​em comparação com o apoio nacional ou regional. Dos primeiros 11 mil projetos financiados até agora, apenas menos de 10% já terminaram por completo. No entanto, o programa já está a financiar investigações e inovações que vão fazer a diferença na economia e na vida das pessoas. Um exemplo consiste em aplicar nanotecnologia em medicamentos e produzir melhores nanopartículas direcionadas, que possam ajudar a melhorar os tratamentos de doenças como VIH/Sida ou a síndrome do olho seco. Outro projeto dá conta de sistemas inovadores de segurança nos veículos para proteger melhor os ciclistas. O Horizonte 2020 também está a ajudar a Europa a ser mais verde e a atingir os objetivos do acordo de Paris em matéria de clima. Financia aviões mais limpos e mais silenciosos. O Horizonte 2020 mostrou também que pode rapidamente aproveitar a excelência científica e inovadora da Europa para responder aos desafios globais, como a resposta rápida ao Ébola, que já está a dar resultados no desenvolvimento de vacinas mais prometedoras.

Em meados de fevereiro o Parlamento Europeu aprovou a criação limites legais e éticos para controlar o rápido desenvolvimento da robótica e da inteligência artificial, como defendia a eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres. No entanto, a proposta de os donos dos robôs pagarem impostos e contribuições à Segurança Social para compensar os casos em que os robôs substituem os humanos no trabalho não foi aprovada. Como é que você tranquiliza alguém que tem medo de perder o trabalho por causa dos robôs?

Foto: Jennifer Jacquemart

Compreendo as preocupações quanto ao impacto da robótica no mercado de trabalho. Segundo os dados do último Eurobarómetro, 70% dos cidadãos europeus pensam que os robôs roubam o emprego das pessoas. Levo essas preocupações muito a sério e na Comissão dialogamos com a sociedade civil para encontrar soluções. No entanto, os estudos sobre o impacto dos sistemas robotizados no emprego na União Europeia dão previsões muito variáveis. Alguns preveem que mais de 40% dos empregos poderiam ser automatizados, enquanto um outro estudo da OCDE concluiu que apenas cerca de 9% dos empregos seriam perdidos. Os robôs também podem criar empregos, aumentando a produtividade e através da atividade económica relacionada com esse campo em rápido crescimento. A robótica pode também ajudar a manter empregos na Europa, ou mesmo trazê-los de volta, tornando a Europa mais competitiva. Note-se também que muitos robôs fazem trabalhos que são duros ou perigosos para pessoas, como inspecionar tanques de óleo ou soldar peças metálicas. Pessoalmente, acho que os robôs vão levar a mudanças na natureza dos empregos. Humanos e robôs acabam por fazer tarefas complementares relacionadas com um trabalho, cada um concentrando-se naqueles que melhor combinam com as suas capacidades. Assim, embora o efeito líquido total sobre os empregos ainda seja desconhecido, alguns postos de trabalhos pode vir a desaparecer, mas que sejam criados novos, melhorando as condições do trabalhador.

Em caso de danos causados pelos robôs, quem seria o responsável por isso? O robô, o dono, o construtor, o programador?

Existe uma gama muito ampla de diferentes tipos de robôs e áreas de aplicação. Ao mesmo tempo, já existe uma grande quantidade de legislação da UE que se aplica aos robôs, tais como segurança e responsabilidade, por exemplo, as diretivas sobre máquinas, responsabilidade do produto e saúde e segurança no trabalho, para citar algumas. A resposta à questão dependerá do caso e dos detalhes, do contexto e da legislação aplicável. Mas o próprio robô, no entanto, não será considerado responsável pela legislação vigente.

Henrique de Burgo

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