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Entre o capitalismo e a pandemia a esquerda tenta levantar a cabeça
Luxemburgo 5 min. 23.09.2020

Entre o capitalismo e a pandemia a esquerda tenta levantar a cabeça

Entre o capitalismo e a pandemia a esquerda tenta levantar a cabeça

Foto: Gerry Huberty/Luxemburer Wort
Luxemburgo 5 min. 23.09.2020

Entre o capitalismo e a pandemia a esquerda tenta levantar a cabeça

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O déi Lenk esteve em congresso, no domingo, e avisou o Governo que não há nenhum pacto nacional de combate à covid-19 que passe por aumentar as desigualdades sociais e mandar mais trabalhadores para o desemprego.

Um espectro assola o congresso do partido mais à esquerda do Parlamento do Grão-Ducado: o espectro da pandemia. O encontro do órgão máximo do déi Lenk tinha sido adiado no início do aparecimento do coronavírus, realizou-se no passado domingo, em Sanem. Os participantes ficaram sentados em mesas separadas com mais de dois metros de distância, passaram parte da sessão de máscara, todos eles desinfetavam o microfone quando falavam, mas apesar disso, muitos militantes preferiram seguir, prudentemente, o conclave pela Internet.

Principais intervenções no congresso foram protagonizadas pela co-porta-voz do partido, Carol Thoma, que apresentou a resolução principal e pelo deputado Marc Baum, que deu a conhecer o relatório do grupo parlamentar do déi Lenk.

O diapasão da intervenção de Carol Thoma foi a necessidade da superação do capitalismo para conseguir vencer o crescimento das desigualdades sociais, a proliferação das pandemias e crise climática: "Para construir um sistema social durável, sem destruir o ambiente e a humanidade, é preciso mudar o sistema económico atual", concluindo, "um sistema que vive da sobreprodução e que subordina o homem e a natureza ao lucro não pode ser durável."

A resolução política do déi Lenk começa por alertar que a "pandemia do coronavírus fez centenas de milhares de vítimas no mundo e acelerou o desencadear de uma crise económica mundial. No Luxemburgo, as medidas de segurança lançaram numerosas pessoas em situações de dificuldades e agravaram as desigualdades sociais".

O partido aponta, nas suas teses, para a necessidade de superar o capitalismo, mas defronta-se com uma realidade que parece dificilmente mutável. Quando o Contacto pergunta, a Carole Thoma, se a passagem da resolução, que defende que "para sair do sistema em crise, é indispensável que os recursos (financeiros, energéticos e outros) e a criação de monetária estejam sob o controle público", significa que o déi Lenk reivindica o fim do euro, a porta-voz mostrou-se prudente: "Nós fomos contra o estabelecimento de uma moeda única sem contar com condições políticas e económicas para a implementar, mas não defendemos, neste momento, a saída do euro".

A dirigente do partido da esquerda realça as dificuldades que se colocam neste momento ao Luxemburgo. "A crise pandémica veio agravar as coisas. É preciso procurar alternativas ao sistema social existente, mesmo que não seja concretizável de imediato", disse ao Contacto.

O capitalismo é o pai de todas as crises.

Marc Baum, deputado.

Na sua intervenção, o deputado Marc Baum contestou a existência de uma espécie de "união nacional" para combater a covid, que obrigaria ao silêncio do déi Lenk. O deputado defendeu que o papel do partido é exatamente não ficar em silêncio quando se tomam medidas sem consultar os sindicatos e se agravam ao mesmo tempo as desigualdades sociais. Marc Baum relembrou que o partido "há quatro anos bateu-se contra o alargamento do Estado de crise", e que neste momento o déi Lenk não votará favoravelmente "ao segundo orçamento de urgência ligado à crise sanitária". O deputado acrescentou que mesmo o prolongamento da lei de covid, que foi adotada terá a vigilância do partido.


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O autor do relatório do grupo parlamentar ao congresso não tem duvidas que "o capitalismo é o pai de todas as crises", e que a crise ecológica não terá resolução no quadro de um capitalismo verde com que sonha o Governo de Xavier Bettel.

Mas enquanto deseja uma mudança do modo de produção capitalista o partido aponta algumas prioridades na ação política e parlamentar. O déi Lenk vai apresentar brevemente um pacote sobre a questão da habitação, que se tornou um dos principais mecanismos de produção de desigualdade social no Grão-Ducado; e tem, também, na manga uma proposta de reforma fiscal que contemple, entre outras coisas, um imposto sobre grandes fortunas e sobre o património herdado.

Na sua intervenção, Marc Baum, sublinhou que a taxação das empresas luxemburguesas é das mais baixas da União Europeia, "só estamos atrás da Roménia", garantiu o deputado citando um relatório da consultora PwC.

Em conversa com o Contacto, Marc Baum sublinha a importância de uma reforma fiscal para conseguir minorar as desigualdades no Luxemburgo. Considera positivas as recentes declarações nesse sentido do presidente do CSV, Frank Engel, mas ironiza, que "não sabemos é se Engel tem o partido a seu lado na matéria. Uma coisa é certa, o que disse fez com que as pessoas se lembrassem que existe o CSV".


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Para quem assiste a um congresso do déi Lenk, tendo vivido em Portugal, há duas coisas que parecem estranhas: a maioria dos participantes trata-se por "colegas" e metade do congresso alude, nas suas intervenções, à CoNa, (diminuitivo de coordenação nacional), que dificilmente seria uma designação muito católica entre os cidadãos de língua portuguesa.

Sobre o tratamento por "colegas", Carole Thoma tem uma explicação de proximidade, "eu não acho estranho. Vivi muito tempo na Alemanha onde o tratamento por camarada não é feito, porque está vinculado à Alemanha de Leste", explica ao Contacto.

Um congresso que recorda a famosa boutade de Santo Agostinho: "Meu Deus fazei-me santo, mas não me fazei já". O déi Lenk quer sair do capitalismo mas não é para já e não sabe como.

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