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Enfermeiros do Luxemburgo. Os novos heróis ou os eternos desvalorizados?
Luxemburgo 9 min. 04.06.2020

Enfermeiros do Luxemburgo. Os novos heróis ou os eternos desvalorizados?

Enfermeiros do Luxemburgo. Os novos heróis ou os eternos desvalorizados?

Foto: DR
Luxemburgo 9 min. 04.06.2020

Enfermeiros do Luxemburgo. Os novos heróis ou os eternos desvalorizados?

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A imagem errada que o Luxemburgo tem deles contribui para que os jovens não queiram a profissão. A falta do grau de bacharelato também os afasta.

Os enfermeiros têm sido uns dos heróis de máscara desta pandemia da covid-19, com homenagens de palmas e manifestações de agradecimento das populações pelo mundo, entre elas as do Luxemburgo. Na linha da frente, irreconhecíveis devido às vestimentas de proteção, a tratar dos doentes, eles são as maiores vítimas entre os profissionais de saúde, com a infeção a levar milhares no planeta.

Para estes profissionais do Grão-Ducado, o agradecimento, por de repente, serem alvo de tanto apreço é redobrado, pelo facto, de há muito se sentirem “desvalorizados” pela população e pelo Governo. O que leva a que os jovens não se sintam atraídos pela profissão.

Terá a pandemia e as inúmeras reportagens nacionais e internacionais que revelaram os dias infernais vividos por estes profissionais com muito empenho e lágrimas de dor, contribuído para uma maior valorização dos enfermeiros no Luxemburgo? As opiniões divergem.

O Governo tem a certeza que sim. “A imagem desta profissão mudou aos olhos dos jovens: ela foi valorizada e tornou-se atrativa”, declara ao Contacto o Serviço de Comunicação do Ministério da Saúde. E justifica: “Uma análise inicial mostra-nos que em todos os sectores de saúde afetados pela covid-19, os enfermeiros estão no centro da ação, desempenhando um papel de liderança em colaboração com outros profissionais de saúde, tanto na organização dos cuidados como na gestão da epidemia e das suas consequências. A população e os jovens reconheceram a carga de trabalho e apoiam a importância da enfermeira/enfermeiro”. Mais. O Ministério da Saúde defende ainda que a crise sanitária da covid-19 lembrou também que os enfermeiros “são o elemento central do nosso sistema de saúde: muitos enfermeiros viram-se na linha da frente da luta contra o vírus covid-19, demonstrando um elevado nível de responsabilidade, rigor, vigilância e competências técnicas”.

Qualidades destes profissionais que sempre foram defendidas por Anne-Marie Hanff, presidente da Associação Nacional das Enfermeiras e Enfermeiros do Luxemburgo (ANIL). No entanto, devido à covid-19 “pela primeira vez, a profissão de enfermagem foi tema de notícia, dando aos jovens uma visão geral da nossa vida profissional quotidiana”, diz ao Contacto esta responsável. “O ‘estatuto de herói’ também contribui certamente para a sua atratividade”, frisa Anne-Marie Hanff.

A enfermeira Laura da Silva, com 25 anos de carreira, concorda com a presidente da ANIL mas é cautelosa. “Acho que sim. Só não sei é se esta nova admiração é só por esta altura da crise e depois passa, ou se irá permanecer”, vinca ao Contacto, salientando que gostaria que assim continuasse, e que se conseguisse passar “a mensagem correta” desta profissão.

Já a conselheira do Ministério da Saúde, Marie-Lise Lair tem dúvidas. “Durante a pandemia, os enfermeiros estiveram na linha da frente com os doentes e os residentes, mas no Luxemburgo pouco reconhecimento lhes foi dado”, declarou esta especialista em política de saúde e autora do relatório “Estado das Profissões Médicas e Profissões de Saúde” no Luxemburgo, encomendado pelo Governo e divulgado no final de 2019.

“Talvez os jovens tenham visto que esta profissão foi citada em todos os países como estando no centro das soluções. Mas não sei se isso os encorajará a escolher esta profissão”, diz Marie-Lise Lair.

No entanto, frisa, nem ao mais alto nível os enfermeiros foram reconhecidos no Grão-Ducado durante a crise: “Houve a nomeação de um coordenador médico nacional, mas de nenhum coordenador nacional das profissões da saúde durante esta pandemia. Terá sido porque as profissões da saúde permanecem eternamente invisíveis, pouco reconhecidas?”.

Também Maly Goedert, a diretora do Lycée Technique pour Professions de Santé (LTPS) espera que a pandemia produza na população e nos políticos “a vontade de valorizarem mais estas profissões no futuro”.

O Ministério da Saúde irá lançar, ao “longo de vários anos, uma verdadeira campanha promocional destinada a valorizar e a dar uma imagem positiva da profissão”, adianta o Serviço de Comunicação deste ministério. O público-alvo é a população, mas em especial, os jovens.

Atualmente, apenas 30% dos enfermeiros que aqui trabalham residem no país. Os restantes 60% são transfronteiriços, segundo os dados do relatório de Marie-Lise Lair. Mesmo assim, há falta destes profissionais. E durante a pandemia ficou bem claro o perigo que seria se médicos e todos os profissionais de saúde que residem fora do Grão-Ducado fossem requisitados pelos países onde vivem.

Uma “imagem errada” e nada atrativa

São esta invisibilidade e pouco reconhecimento responsáveis pela imagem errada que a população tem destes profissionais e que fazem com que os jovens não escolham o curso de enfermagem. Mas quais as razões para tal?

A enfermeira Laura da Silva sente que “muitas pessoas ainda têm a ideia da enfermagem antiga, dos tempos de Florence Nightingale”, a pioneira que, em 1820, começou a tratar os feridos da guerra. Depois consideram que ser enfermeiro “é apenas dar carinho aos doentes, lavá-los e olhar por eles”. Mas é muito mais. “Há um enorme leque de conhecimentos técnicos muito evoluídos que temos de ter nos mais variados serviços, desde a reanimação, à maternidade, cuidados paliativos, entre todos os outros”, frisa. “Esta profissão tem de ser promovida, e bem, tem de ser mostrada. Os enfermeiros salvam vidas, e acompanham o fim da vida”, vinca esta enfermeira responsável pelo blogue ‘Cancer du Sein’, du CHL.

Quanto aos jovens, Laura da Silva diz que eles também ‘fogem’ do curso, porque esta profissão que exige “muito trabalho, com noites e fins de semana de turno”. “Para se ser enfermeiro tem de se ter vocação. Senão não se consegue”, defende.

O Luxemburgo é o país da Europa que melhor paga aos enfermeiros. Como é possível que, mesmo assim, a enfermagem não seja atrativa?

“Sim, é o país que mais paga aos seus enfermeiros. Mas isso não é suficiente. Porque agora, os jovens escolhem a sua profissão, segundo vários critérios”, não só o salário, mas também as restrições do trabalho, e o reconhecimento da profissão na sociedade (diploma e boa imagem pública), justifica Marie-Lise Lair.

No Luxemburgo, a “concorrência é dura” para com a enfermagem. “Todo o sector estatal, os bancos e o sector terciário, pagam muito melhor ou o mesmo, e não têm os condicionalismos”, lembra esta especialista. E, por condicionalismos, entenda-se, a “obrigação dos enfermeiros trabalharem à noite, aos fins de semana e feriados”, o que para os jovens não é nada apelativo, por outro lado, a imagem dos enfermeiros na sociedade é pior do que a dos referidos concorrentes, além de que o curso não atribui o grau de bacharelato. Contas feitas, os jovens preferem os concorrentes.

Esta é uma das maiores falhas que leva os estudantes a ‘fugir’ do curso de enfermagem: a não existência de um diploma de bacharelato no Luxemburgo. Quem quiser obter este diploma tem de ir completar o curso no estrangeiro.

Há outra falha, segundo a presidente da ANIL. “De acordo com os atuais alunos do Lycée Technique pour Professions de la Santé (LTPS), os antigos professores não os teriam encorajado a escolher a profissão de enfermagem”, refere Anne-Marie Hanff sublinhando que “a informação e a colaboração com as escolas secundárias devem ser melhoradas”.

A luta pelo bacharelato

No seu relatório, Marie-Lise Lair vinca que número de alunos no curso de Enfermagem tem vindo sempre a diminuir. O mesmo alerta é lançado pela presidente da ANIL salientando que não há enfermeiros suficientes no Luxemburgo e que o número de estudantes de enfermagem é “muito, muito baixo”.

Maly Goedert, a diretora do Lycée Technique pour Professions de Santé (LTPS) diz que atualmente frequentam os quatro centros de formação 1100 alunos, dos quais 40 são transfronteiriços.

Também para a diretora do LTPS é fundamental “mudar a imagem errada que a população tem da profissão, mostrar e reconhecer as responsabilidades, conhecimentos e competências dos enfermeiros”, para atrair mais estudantes para os cursos. Mas também introduzir o “grau de bacharelato”.

No Luxemburgo, a formação para o BTS é de quatro anos, o BAC mais 2 anos. Em quase todos os países existe o bacharelato em enfermagem. Os dois anos após o BAC do Luxemburgo não são reconhecidos nos outros países.

“Os estudos devem ser reconhecidos com um diploma de bacharelato em Enfermagem, como em quase todos os países”, reivindica Anne-Marie Hanff, em consonância com as restantes especialistas.

Anne-Marie Hanff defende que é preciso “uma política coerente de formação em enfermagem e de uma ação coordenada do nosso Governo”. O país, prossegue, “deverá definir um número de enfermeiros a formar no Luxemburgo e elaborar um plano de ação sobre como o conseguir”.

Em janeiro, o Governo decidiu criar um conselho interministerial para estudar, entre outras questões sobre os profissionais de saúde, a “introdução de um diploma de bacharelato para certas categorias de enfermeiros”. Este conselho teria seis meses para apresentar as suas conclusões, mas com a pandemia tudo deverá ter ficado atrasado.

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