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Empresas luxemburguesas não temem o salto no escuro do Brexit

Empresas luxemburguesas não temem o salto no escuro do Brexit

Foto: AFP
Luxemburgo 8 min. 22.01.2019

Empresas luxemburguesas não temem o salto no escuro do Brexit

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Após o recente 'não' do parlamento britânico ao acordo do Brexit, os empresários luxemburgueses continuam otimistas quanto ao impacto da saída do Reino Unido da União Europeia na economia do Grão-Ducado. Apesar do relógio continuar em contagem decrescente até 29 de março, às 23:59.

Acordo, não acordo... a pouco mais de dois meses para a saída oficial do Reino Unido da União Europeia, o imbróglio do Brexit parece não ter fim à vista. Após a rejeição do plano de saída da primeira-ministra britânica, Theresa May, pelo parlamento inglês na semana passada, vários países preparam-se para o pior dos cenários: o Reino Unido poderá sair da UE sem acordo, o "pior cenário", considera o presidente da Câmara de Comércio luxemburguesa, Carlo Thelen ao Contacto. 

Mas é exatamente sobre este cenário que a Câmara do Comércio trabalha agora, em cooperação com o governo luxemburguês. E muito coisa é preciso fazer. "Saber que leis precisam de ser mudadas, estudar as relações existentes entre os dois países nas áreas de transporte, logística, turismo, finança etc.," enumera Carlo Thelen. 

No Luxemburgo, tudo parece estar a ser preparado em clima positivo, até porque é importante "evitar o pânico" nesta altura. "Sabemos que as empresas não temem o impacto mas elas precisam de estar a par de tudo relacionado com o tema, elas precisam de estar acauteladas, de alguma previsibilidade e estabilidade", refere o diretor da Câmara de Comércio. 

Apesar de muito estar dependente das autoridades europeias, nomeadamente no que toca às implicações legais, políticas e empresariais a Câmara de Comércio tem ajudado as empresas a guiar-se nesta 'trapalhada'. Estão agendadas duas sessões de esclarecimento às empresas associadas nos dias 8 e 11 de fevereiro, em conjunto com representantes luxemburgueses no Parlamento Europeu e o ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao mesmo tempo, a Câmara de Comércio criou uma linha de apoio e esclarecimento de questões ligadas ao Brexit para as empresas associadas ((+352) 42 39 39 - 372 / brexit@cc.lu), a funcionar desde 21 de janeiro. 


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Tais iniciativas são uma reação à rejeição dos deputados ingleses do acordo do Brexit proposto por Theresa May, mas também uma resposta à necessidade de respostas dos empresários do Grão-Ducado. Uma sondagem recente feita pelo organismo, cujos membros representam 80% do Produto Interno Bruto (PIB) luxemburguês, demonstrou que oito em cada dez membros necessitavam de mais informação sobre o impacto do Brexit nos seus negócios. Algo que é ainda mais relevante entre as pequenas e médias empresas, que têm menos meios e recursos para enfrentar o imbróglio legal. 

"A nossa maior preocupação são as pequenas empresas, aquelas que necessitam de saber de que forma este processo vai ter impacto na gestão da cadeia de abastecimento", garante Carlo Thelen. E exemplifica: "Por exemplo uma empresa luxemburguesa que vende para o Reino Unido através de uma empresa distribuidora com sede na Alemanha. Com o Brexit, este parceiro alemão poderá ter problemas e poderá cobrar preços mais elevados à empresa luxemburguesa".

Outras das questões prendem-se com as implicações diretas de um não acordo até 29 de março para os negócios luxemburgueses, ou o que muda nas importações/exportações de produtos entre o Luxemburgo e o Reino Unido após o Brexit, para os quais não existe ainda legislação específica.

No mesmo sentido, Matt Moran, consultor para o Brexit na PricewaterhouseCoopers no Luxemburgo (PwC), refere que a maior dor de cabeça para as empresas é "o acesso em ambas as direções", do Reino Unido para a UE e da UE para o Reino Unido. "Inibir esse acesso é negativo. Com a saída do Reino Unido as empresas terão de criar uma nova estratégia para manter o acesso a este mercado", opina. 

"No geral, as trocas comerciais vão ficar mais caras, complexas e menos competitivas". E dá exemplos como o da indústria automóvel alemã, em que o Reino Unido representou 20% das exportações em 2016, e o facto de 70% dos produtos à venda nos supermercados ingleses serem provenientes da União Europeia.

O consultor da PwC sublinha uma outra inquietação de caráter macroeconómico, relacionada com o facto de o Reino Unido trazer uma visão diferente no conjunto das três maiores economias europeias, Alemanha, França e Reino Unido. "A tensão saudável entre estes três gigantes tornou possível um compromisso e um equilíbrio. E há o receio de que tirar os ingleses deste triângulo poderá retirar algum desse equilíbrio", adianta. 

Uma outra preocupação, também expressa pelo executivo luxemburguês, está relacionada com a continuidade dos quatro mil trabalhadores com cidadania inglesa poderem ou não continuar a trabalhar no Grão-Ducado após o Brexit. A mesma preocupação em relação os dois mil luxemburgueses a viver e trabalhar no Reino Unido. O primeiro-ministro Xavier Bettel tinha dito em novembro passado que o acordo celebrado pelos 27 estados-membros e Theresa May garantia os direitos destes cidadãos. Mas com o 'não' dos deputados ingleses ao documento tudo voltou à estaca zero. O governo luxemburguês tem reforçado que está a tentar encontrar soluções para estas questões, nomeadamente para legislar caso se confirme o cenário de não entendimento entre a UE e o parlamento britânico.

Mas, confirmou em conferência de imprensa na semana passada, que não está a ser ponderado um plano financeiro de ajuda às empresas luxemburguesas.

Brexit mais positivo do que negativo para o Luxemburgo?

O representante dos empresários luxemburgueses acredita que o Brexit será mais negro para as empresas britânicas, e dá como exemplo o volume das importações e exportações entre os dois países, citando dados divulgados pelo gabinete de estatísticas luxemburguês, STATEC. De acordo com o organismo, tanto as exportações como as importações de bens entre os dois países diminuiu, sendo esta redução mais significativa no caso das importações do Reino Unido para o Grão-Ducado, que baixaram de 425 milhões de euros para 281 milhões. No mesmo sentido, e após terem atingido um pico em 2017 (518 milhões de euros), em outubro de 2018 a exportação de bens do Luxemburgo para o Reino Unido caiu para os 446 milhões de euros. Pode o Brexit desequilibrar a balança comercial luxemburguesa?


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Tal como Carlo Thelen, também Matt Moran acredita que as empresas britânicas têm muito mais a perder. "Uma empresa sediada no Luxemburgo, está a perder uma grande economia num conjunto de 28, e se depende em grande escala do mercado britânico vai certamente ter implicações no negócio. Essa empresa vai ter de adotar um plano de contingência ou procurar uma entidade que lhe permita realizar trocas comerciais com o Reino Unido", explica. "Para uma empresa do Reino Unido, essa empresa perde 27 mercados. E se o mercado europeu tiver um peso importante nessa empresa, eles têm de garantir soluções de forma a evitar um cenário negro", contrapõe. 

Matt Moran destaca também a formação de um novo ecossistema no Luxemburgo "nunca antes visto", uma consequência do Brexit. Dá como exemplo as 41 empresas que anunciaram recentemente que irão fixar-se no Grão-Ducado ou simplesmente reforçar a presença no país. "Empresas de gestão de ativos financeiros, bancos e seguradoras". Como consequência, "são precisos recursos humanos, espaços de escritório, serviços de suporte" que podem ser benéficos para a economia luxemburguesa, considera o consultor.

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