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Email xenófobo contra portugueses no Luxemburgo leva luso-descendente a votar sim no referendo
Luxemburgo 3 min. 06.06.2015

Email xenófobo contra portugueses no Luxemburgo leva luso-descendente a votar sim no referendo

Apesar de ter nacionalidade luxemburguesa, Felipe Fonseca recebeu um email instando-o a obter a dupla nacionalidade e a acusar os portugueses de "colonizarem" o país

Email xenófobo contra portugueses no Luxemburgo leva luso-descendente a votar sim no referendo

Apesar de ter nacionalidade luxemburguesa, Felipe Fonseca recebeu um email instando-o a obter a dupla nacionalidade e a acusar os portugueses de "colonizarem" o país
Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 3 min. 06.06.2015

Email xenófobo contra portugueses no Luxemburgo leva luso-descendente a votar sim no referendo

Um luso-descendente com nacionalidade luxemburguesa decidiu votar "sim" no referendo de amanhã sobre o direito de voto dos estrangeiros, depois de ter recebido um email que acusava os portugueses de "colonizar" o Luxemburgo.

Um luso-descendente com nacionalidade luxemburguesa decidiu votar "sim" no referendo de amanhã sobre o direito de voto dos estrangeiros, depois de ter recebido um email que acusava os portugueses de "colonizar" o Luxemburgo.

 "Eu no início era contra o direito de voto dos estrangeiros [em eleições legislativas], mas mudei de ideias quando li coisas no Facebook que não me agradaram muito e [depois] do que me aconteceu", disse ao CONTACTO Felipe Fonseca, de 32 anos.

O empregado bancário, que nasceu no Luxemburgo e tem nacionalidade luxemburguesa, é presidente do clube de futsal da associação Amicale de Clervaux, que foi vice-campeão do Grão-Ducado em 2012 e em que 28 dos 30 membros têm origem portuguesa, a "maior parte com dupla nacionalidade".

Há uma semana, Felipe Fonseca enviou um email a várias empresas luxemburguesas a pedir patrocínios para o clube, como faz "todos os anos", e recebeu uma resposta que o chocou.

"Foi a primeira resposta que tive, na segunda de manhã, e fiquei chocado", conta.

No email que o luso-descendente publicou nas redes sociais,  o proprietário de uma empresa de construção luxemburguesa, que emprega muitos portugueses, acusa os emigrantes de quererem "colonizar" o Luxemburgo e de não se integrarem no país.

”Vocês querem, como os piratas portugueses de antigamente, colonizar o Grão-Ducado?”, começa por perguntar o empresário luxemburguês.

"Aceitámo-vos aqui, gostamos de vocês (...), damos-vos facilidades para se naturalizarem (segundo passaporte)", prossegue a mensagem. "Não vos caberia adaptar-vos minimamente?", conclui o email.

Para Felipe Fonseca, este caso "é a prova de que há muitos luxemburgueses que têm medo dos portugueses e não o dizem abertamente", considerando irónico o facto de ter recebido um email instando-o a obter a dupla nacionalidade, quando tem nacionalidade luxemburguesa desde os 20 anos, depois de ter cumprido o serviço militar no exército do Luxemburgo.

"Achei vergonhoso", diz, explicando que se naturalizou antes de a lei da dupla nacionalidade ter sido aprovada, pelo que foi obrigado a abdicar da nacionalidade portuguesa.

"Ele viu o nome ‘Fonseca’ e pensou imediatamente que eu era português e pronto", lamenta.

Para o luso-descendente, não é coincidência ter recebido a mensagem numa altura em que se discute o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, agendado para domingo, um debate em que os partidários do "não" defendem que a participação em eleições nacionais deve passar pela obtenção da nacionalidade luxemburguesa.

"Tem a ver certamente com o referendo, porque as pessoas exprimem-se de uma maneira que me tem chocado, e nas redes sociais é o prato do dia".

Felipe Fonseca, que tem uma filha nascida também no Luxemburgo, vai votar "sim"amanhã no referendo, defendendo que "os estrangeiros vivem cá, têm aqui os filhos e pagam aqui os seus impostos", pelo que "deviam poder votar".

Referendo desperta reacções de xenofobia

O caso não é o único em que os portugueses se queixam de reacções xenófobas provocadas pelo referendo. Uma empregada de limpeza que trabalha numa empresa familiar luxemburguesa e pediu o anonimato disse ao CONTACTO que um trabalhador português de uma empresa externa foi insultado por causa da consulta popular.

"O empregado de limpeza que vem limpar os vidros todas as manhãs é português e ele explodiu por causa da possibilidade de os estrangeiros poderem votar", conta, sublinhando que esta não é a primeira vez que o patrão tem atitudes discriminatórias, sobretudo para com os empregados portugueses.

Para o porta-voz da plataforma associativa e sindical que defende o direito de voto dos estrangeiros, Sérgio Ferreira, o referendo despertou "atitudes mais extremistas que estavam em hibernação", considerando no entanto que se trata de "fenómenos marginais".

"Em França, que tem menos estrangeiros, a Frente Nacional tem o poder que tem, e eu não sei o que aconteceria noutro país com 46% de estrangeiros", diz, considerando que "com estas características demográficas", o Luxemburgo "continua ainda assim a ser um exemplo de tolerância".

Paula Telo Alves


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