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Em três horas de quarentena no Luxemburgo, Jessica acudiu centenas de imigrantes em Portugal
Luxemburgo 4 min. 26.03.2020 Do nosso arquivo online

Em três horas de quarentena no Luxemburgo, Jessica acudiu centenas de imigrantes em Portugal

Em três horas de quarentena no Luxemburgo, Jessica acudiu centenas de imigrantes em Portugal

Luxemburgo 4 min. 26.03.2020 Do nosso arquivo online

Em três horas de quarentena no Luxemburgo, Jessica acudiu centenas de imigrantes em Portugal

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Quando a luso-luxemburguesa Jessica Lopes percebeu que os documentos da Segurança Social portuguesa estavam disponíveis apenas na língua oficial, decidiu traduzi-los para inglês. E com isso tornou-os acessíveis a centenas de imigrantes desesperados.

Os emails e as mensagens de Facebook começaram a cair como pingos de chuva na última semana. "Can you help me?", "I don't know what to do", "how will I survive now?" Na sua casa no Luxemburgo,  Jessica Lopes, 28 anos, recebia pela caixa do correio o desespero de centenas de imigrantes em Portugal que tinham acabado de ser despedidos, viam suspensos os seus negócios, angustiavam-se sem saber como iam pagar as rendas ou comprar comida.

Não era por acaso que se dirigiam a ela. Entre 2014 e 2017, a luxemburguesa de origem portuguesa tinha trabalhado em Lisboa para a organização Solidariedade Imigrante, que apoia cidadãos de países terceiros a legalizarem-se e conhecerem os seus direitos em Portugal. "Apesar de ter voltado ao Grão-Ducado, eram essas pessoas que me contactavam agora porque não sabiam o que fazer das suas vidas."

Jessica sabia que o governo português tinha adotado um pacote de medidas de apoio às pequenas e médias empresas e aos cidadãos que tivessem perdido o emprego durante o período de isolamento do coronavírus. "Quando cheguei ao site da Segurança Social, constatei que não só os documentos tinham uma linguagem difícil de compreender como estavam única e exclusivamente em português", diz. "Isso excluía imediatamente milhares de imigrantes que não dominam a língua."

Preocupavam-na sobretudo as comunidades do sul da Ásia, as que mais cresceram em Portugal nos últimos cinco anos. Há hoje mais de 100 mil trabalhadores do Bangladesh, da Índia, do Nepal e do Paquistão no país, mas poucos dominam o idioma. Jessica, que por estes dias ocupa o cargo de secretária-central adjunta do setor de limpezas na OGBL, a maior central sindical luxemburguesa, estava de casa em quarentena. "Então na tarde de segunda-feira sentei-me ao computador a decifrar e traduzir para inglês os documentos e as requisições. Andei umas três horas naquilo."

Quando terminou, partilhou os papéis no Facebook e enviou-os por email a muitos dos que a tinham contactado. Nessa mesma noite, a informação já se tinha espalhado como um vírus. Pode parecer um esforço pequeno mas, para centenas de imigrantes em Portugal, perceber o que podem fazer pela sua sobrevivência é determinante.

Jéssica com Enamul Hoque em Lisboa
Jéssica com Enamul Hoque em Lisboa

Enamul Hoque, que veio do Bangladesh há cinco anos e é dono de uma pequena empresa que presta serviços à Uber, explica isso mesmo. O homem tinha comprado um carro novo em fevereiro, aumentando a frota para três viaturas e garantindo emprego a oito pessoas. Mas depois veio a pandemia. "Tive de parar e de repente fiquei sem saber como pagar seguros e ordenados no fim do mês. Há milhares de pessoas na minha situação. Sabermos como pedir ajuda pode salvar-nos a vida." A ele, diz sem hesitações, salvou mesmo.


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A rua cheia da cidade vazia

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"As pessoas sentem-se neste momento mais seguras na rua do que dentro de casa", diz Marta Silva, diretora do Largo, a associação pioneira do diálogo intercultural do Intendente. "Muita gente vive em quartos com mais oito ou dez pessoas e, se estes tempos pedem isolamento, eles conseguem-no melhor fora de portas do que dentro de casa."

Marta Silva, da associação Largo
Marta Silva, da associação Largo

Marta tem estranhado uma coisa: "Há um apoio consistente no país aos idosos e aos grupos vulneráveis, mas não para os estrangeiros. As informações sobre direitos e apoios não lhes chega e há muita gente em situações aflitivas." Dos setores tradicionais de negócio destas comunidades, só as mercearias permanecem abertas. "E estão a tornar-se nos centros de informação para todos os outros."


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Os restaurantes fecharam, e era aí que se empregavam a maioria dos homens. Com manicures e cabeleireiros, que davam trabalho às mulheres, aconteceu a mesmíssima coisa. "Há aqui muita gente com os papéis em dia e que não sabe o que fazer", diz Teresa Mamede, que também trabalhou na Solidariedade Imigrante. "Mas também há os imigrantes em situação irregular, que se veem em risco de perder casas, empregos e a possibilidade de legalização. E isso é simplesmente discriminatório."

Os abusos sucedem-se, diz Teresa Mamede, com centenas a verem os seus contratos interrompidos ou terminados antes dos prazos legais. "Mas temos de ter em conta que estas comunidades que não falam português são em regra empreendedoras e criam os seus próprios negócios, o que torna mais difícil verem soluções quando as coisas correm mal. Por isso é tão necessário estarem informados." Quando não sabem o que fazer, é o desespero, a rua e mais nada.

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