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Em terra de ninguém
Editorial Luxemburgo 2 min. 12.06.2019

Em terra de ninguém

Em terra de ninguém

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Editorial Luxemburgo 2 min. 12.06.2019

Em terra de ninguém

A concentração do poder político e económico em poucos e as gritantes desigualdades sociais são pais da corrupção e das migrações forçadas

Emigrar não é fácil. As pessoas que o fazem encontram-se como no meio de uma ponte. Tiveram que abandonar amigos, família e as sociedades e culturas que conheciam, e encontram-se agora numa zona que só pouco a pouco vão conhecendo, em que estão muitas vezes privados de iguais direitos políticos, e outras vezes sentem-se sem capacidade de participar.

Há vários combates políticos a fazer sobre esta matéria. O primeiro é afirmar que ser favorável à liberdade de circulação das pessoas não é o mesmo que ser por um modelo de globalização económica e de integração europeia que faz, dedeterminados países, locais em que a divisão internacional do trabalho é absolutamente subalterna e que só são permitidos empregos mal pagos e trabalhos precários e sem direitos sociais.

O presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, o jornalista João Miguel Tavares aludiu que a corrupção e o falhanço da “meritocracia” estava a obrigar todos os jovens portugueses que querem uma vida melhor a emigrar. É preciso dizer que a corrupção é inerente a um sistema político e económico em que muitas grandes empresas privadas vivem à sombra dos negócios pagos pelo Estado e que muitos dos políticos circulam entre os cargos públicos e os potentados económicos e financeiros. A concentração do poder político e económico em poucos e as gritantes desigualdades sociais são pais da corrupção e das migrações forçadas. Para garantir uma igualdade de oportunidades e que as pessoas não sejam obrigadas a emigrar é necessário que na sociedade funcionem “elevadores sociais”, como o ensino de qualidade para todos e um acesso universal à cultura e à saúde.

A crise económica dos anos da troika foi uma máquina de guerra que tornou as nossas sociedades mais desiguais; fez pagar a especulação financeira pelos contribuintes mais pobres e continuou a concentrar o poder político e a riqueza em muito poucos.

Aqui chegamos a uma questão que se coloca a todos aqueles que ficaram em Portugal e a nós que decidimos emigrar: para tudo isto mudar é preciso que o poder de decisão política seja democraticamente distribuído. Isso significa obviamente que os imigrantes no Luxemburgo possam ambicionar a ter direito a voto, mas não se esgota nisso. É preciso que a sociedade portuguesa, luxemburguesa e outras sejam mais democráticas e que permitam a pluralidade de opiniões, deem um acesso mais igual de todos ao espaço público e que a economia e os processos de globalização estejam sujeitos a um maior controlo democrático.

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