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Em Schengen teme-se que o coronavírus seja o início do fim da Europa

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Em Schengen teme-se que o coronavírus seja o início do fim da Europa

Em Schengen teme-se que o coronavírus seja o início do fim da Europa

Em Schengen teme-se que o coronavírus seja o início do fim da Europa


por Ricardo J. RODRIGUES/ 02.04.2020

Não se pode passar para o outro lado. Schegen voltou a ter fronteiras.Foto: António Pires

Há 35 anos, os líderes europeus assinaram na pequena aldeia luxemburguesa de Schengen o acordo que estabeleceu a livre circulação de pessoas, bens e serviços no continente. Agora, há bloqueios nas estradas, controlos policiais, gente desesperada para passar de um lado para o outro. Retrato de uma Schengen sem espaço.

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Paixão sem fronteiras
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Os amores internacionais têm em Schegen uma torre para prender a eternidade a cadeado. Mas os dias de coronavírus até aqui fecham fronteiras.
Foto: António Pires

Na marginal ribeirinha de Schengen há uma torre de bronze onde estão marcados todos os países que aderiram ao acordo europeu de livre circulação. Como a estrutura é formada por pequenas barras, viajantes de todo o mundo habituaram-se a prender ali cadeados para declarar a eternidade das suas paixões.

A entrada de Schengen pela ponte internacional.
A entrada de Schengen pela ponte internacional.
Foto: António Pires

A torre não seria muito diferente dos miradouros e pontes que existem em todo o mundo onde namorados agrilhoam o afeto. Não fosse este detalhe: aqui uma boa parte das paixões são internacionais. Vera prendeu no setor português a sua paixão pelo anglófono Mark. Cyril tornou francesa a atração por Nicoleta, que tem nome romeno. Kaarl há de ser finlandês, pois foi lá que escolheu fechar à chave a eternidade com Enzo, que o mais provável é ser italiano. Na aldeia onde a Europa derrubou as barreiras também não as há para o romance.

A chegada do coronavírus, no entanto, criou o impensável. Trinta e cinco anos depois de a povoação se tornar ícone da liberdade europeia, as fronteiras voltaram em fechar. Foi afinal em Schengen que cinco países europeus (Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Alemanha e França) assinaram em 1985 um acordo de livre circulação que cresceria e permitiria a mobilidade de um continente inteiro. Hoje, o Espaço Schengen abrange 26 países e estende-se de Portugal à Islândia e da Grécia à Noruega.

"Há toda uma geração que cresceu nas possibilidades do que Schengen abriu", diz Michel Gloden, o presidente da autarquia local. Dá exemplos, diz que sem este pacto a Europa não teria visto tamanho crescimento do programa Erasmus ou tão grande adesão ao Interrail. Iniciativas que ajudaram a contruir uma identidade europeia.

A entrada da ponte de Schengen.
A entrada da ponte de Schengen.
Foto: António Pires

"Schengen ajudou a tornar a multiculturalidade, o multilinguismo e a mobilidade em pilares europeus", diz Globen. "Vê-la em confinamento é algo que me parte o coração." São medidas temporárias, ele espera, mas ainda assim. "Não podemos continuar de fronteiras fechadas muito mais tempo, há que encontrar outra solução para o coronavírus que não seja o isolamento total e por tempo indeterminado", diz o autarca. "Senão corremos o risco de deixar colapsar a economia, de criar um problema de saúde mental maior do que aquele que agora temos, e de a própria ideia de Europa cair irremediavelmente no chão."

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Não passarás
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Toda a linha de fronteira com o rio Moselle está controlada ou barrada.
Foto: António Pires

 Apesar de não contar mais de 549 habitantes, a escolha de Schengen para a assinatura do pacto europeu de liberdade de circulação está longe de ser uma coincidência. A aldeia fica no extremo sudeste do Luxemburgo, num ponto onde o pequeno Grão Ducado faz simultaneamente fronteira com Alemanha e França na região da Lorena, disputada durante séculos pelas duas potências. Se havia um lugar indicado para a promover a boa vontade europeia, era aqui.

Um agente alemão que controla a fronteira ouve constantemente a mesma pergunta dos que querem passar: "Os vírus têm fronteiras?"
Um agente alemão que controla a fronteira ouve constantemente a mesma pergunta dos que querem passar: "Os vírus têm fronteiras?"
Foto: António Pires

O rio Moselle estabelece a divisão entre os três países e, pela ponte internacional sobre o curso de água, passam anualmente 50 mil turistas, mais umas dezenas de milhares de trabalhadores transfronteiriços que seguem marcha diária para o Luxemburgo. Se querem entrar, precisam de autorização escrita do governo, e é isso que os agentes da polícia alemã estão agora a controlar.

"A maioria das pessoas cumpre as ordens sem problemas, no entanto há muitos protestos", diz um dos agentes fardados com o uniforme da Polizei, que promete responder com o discurso oficial se lhe for identificado o nome, mas admite dizer o que pensa se lhe for preservado o anonimato. Escolha-se a segunda opção, que ele imediatamente atira esta pergunta: "Os vírus alguma vez têm fronteiras?"


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É isso que muitos automobilistas lhe perguntam quando ele lhes dá ordem de marcha à ré. "Schegen, Perl e Apach fazem parte de uma única comunidade, apesar de uma ser luxemburguesa, a outra alemã a outra francesa." Estão todas a menos de dois quilómetros umas das outras e vivem todas dependentes umas das outras. "O recolhimento eu entendo, também tenho os meus receios por passar aqui os dias a parar carros e comunicar com pessoas. Mas as fronteiras? Isto não é um problema entre países. É um problema da humanidade."

A fila aumenta, agora o agente tem de ir perguntar às pessoas quem são, onde vivem, ao que veem quando atravessam o Moselle. Então cumpra-se a marcha às arrecuas e o caminho de volta para o Luxemburgo. A meio da ponte aparece um homem a correr. Chama-se Pedro, é português, apelido não dá porque acabou de cometer uma ilegalidade. "Fui à Alemanha, fui. Desci umas escadas antes do fim da ponte e meti-me ali por uns caminhos para a polícia não dar por mim."

Pedro passou a fronteira ilegalmente para comprar fraldas para a filha. Não as há no Luxemburgo.
Pedro passou a fronteira ilegalmente para comprar fraldas para a filha. Não as há no Luxemburgo.
Foto: António Pires

Justifica-se com a filha, bebé de um ano, com quem ele e a mulher estão fechados em casa há duas semanas. "Desde que foi declarado o estado de emergência que não há fraldas no supermercado deste lado. Então eu hoje fui ao lado alemão e consegui trazer." Levanta as mãos e mostra dois pacotes dos grandes. "Pronto, está resolvido." E larga a correr ponte abaixo, antes que a polícia dê por ele.

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Um receio de colapso
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Agrilhoada economicamente pela pandemia, Schengen não quer voltar a ser símbolo europeu. Pelo menos não da sua hecatombe.
Foto: António Pires

Sérgio Amaral, português de Vieira do Minho, vive aqui há dez anos e põe as coisas nestes termos: "Os que vivem no Luxemburgo não fazem compras no Luxemburgo, vão à Alemanha que tem mais diversidade e é 30% mais barato. Então aqui não temos praticamente supermercados. Agora, que não podemos passar, a nossa vida tornou-se um martírio. Perde-se uma manhã inteira na fila do pão, uma tarde para ir buscar leite. Não sei quanto tempo mais conseguimos aguentar."

Sérgio Amaral, junto a um pedaço do muro de Berlim que existe na frente ribeirinha de Schegen.
Sérgio Amaral, junto a um pedaço do muro de Berlim que existe na frente ribeirinha de Schegen.
Foto: DR

Na zona onde se sonhou com o fim das fronteiras na Europa, elas de facto parecem ter-se esbatido ao ponto de ter nascido aqui uma economia triangular. "De facto, é na Alemanha que todos nós fazemos as compras", confirma Gloden, o burgomestre de Schengen. "Tal como eles vêm ao nosso lado comprar combustível, bebidas e tabaco, que é mais barato por causa dos impostos. E todos vamos a França comprar roupa, consumir cultura." O problema é que agora ninguém passa.


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As novas barreiras estão a criar um problema económico grave nos três países. "A economia da nossa comuna assenta em três pilares essenciais", explica o autarca. "A vinha, que não consegue agora despachar a produção, as bombas de gasolina, que vivem dos produtos petrolíferos, do tabaco e do álcool e estão às moscas, e o turismo, que caiu por terra. Em duas semanas, estamos muito perto do colapso." O seu medo maior é que o fecho de fronteiras se estenda por um período que traga problemas irreversíveis - fecho de negócios, despedimentos, se calhar fome. "Não podemos deixar que a cura se torne pior do que a doença.

À saída da aldeia há quatro estações de serviço, todas elas cheias de produtos e vazias de clientes. Uma funcionária da Shell fala em quebras de vendas na ordem dos 80%. Nos campos em volta, algumas vinhas são podadas, outras estão ao abandono. É que muitos dos produtores têm terrenos nos dois lados do rio, e agora não se consegue lá chegar.

  Depois há o turismo, e esse ruiu por completo. "Só no museu europeu contávamos 50 mil visitas anuais. Todos os restaurantes e lojas estão encerrados, já há empresários que não sabem se vão conseguir reabrir. E isto é só em Schengen", diz Glosen. "Agora imagine a restante Europa começar toda a cair como um castelo de cartas." 

Aí as consequências seriam terríveis. É pelo menos essa a convicção de Valmir Mehmeti, chefe de redação do SchengenVisaInfo.com, um dos maiores websites internacionais especializados em informação sobre política de fronteiras na Europa. "Acredito que os controlos de fronteira sejam removidos assim que a pandemia de coronavírus termine, porque as perdas económicas são demasiado elevadas. No entanto, vimos que a crise de refugiados fez com que alguns países as mantivessem nalgumas regiões, e permanecem assim há seis anos."

A cessação permanente do Pacto de Schengen seria catastrófica. "Há um estudo do Parlamento Europeu que estima que cada país perdesse anualmente entre 4 e 18 mil milhões de euros, dependendo da sua posição geográfica e dos canais alternativos de exportação." 

Para por as coisas em perspetiva, Malta tem um produto interno bruto de 13,7 mil milhões de euros. Ou seja, é esse o valor de toda a riqueza produzida por uma nação que é membro da UE e do espaço Schengen. E que ainda assim é inferior ao que alguns países na mesma situação perderiam se voltassem a impor fronteiras aos seus vizinhos.

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O momento decisivo
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Uma fotografia da assinatura do Acordo de Schengen exposta nas ruas da aldeia luxemburguesa.
Foto: António Pires

A verdade é que a ideia não parecia assim tão promissora quanto a realidade o revelou. A União Europeia chamava-se então CEE, contava com dez estados-membros, e só metade deles aceitaram o acordo de Schengen. O pacto foi firmado a 14 de junho de 1985 pelos cinco países, que não se fizeram representar por chefes de estado, nem pelos primeiro-ministros, nem sequer pelos ministros dos Negócios Estrangeiros. 

A história encarregou-se de mostrar que a livre circulação foi uma das maiores revoluções do Europa do pós-guerra, mas a verdade é que Schengen foi assinado por secretários de estado. Da Alemanha, Bélgica, França, Holanda e Luxemburgo, como já se viu.

Cinco anos depois, um novo tratado, assinado também na mesma aldeia, acrescentaria a abolição dos vistos e controlos fronteiriços, que até aí se tinham mantido parciais. Itália aderiu em 1990, Portugal e Espanha em 1991, seguiram-se Grécia e Áustria. Em 1995 aboliram-se por completo as fronteiras entre os países signatários. Entraram Dinamarca, Finlândia e Suécia. A Noruega e a Islândia não quiseram aderir à UE, mas aderiram a Schegen em 1996.

A partir de 1999, Bruxelas decidiu que Schengen faria parte dos compromissos dos estados que aderissem à UE. Foi assim com a República Checa e a Eslováquia, a Polónia e a Hungria, Malta e Eslovénia, Estónia, Letónia e Lituânia. A Suíça entrou em 2004, o Liechtenstein em 2008. Roménia, Bulgária e Croácia ainda não impuseram as medidas que lhes permitam a aderir ao pacto, mas estão obrigados a fazê-lo pelas diretivas europeias.

O lugar onde o acordo foi assinado é um barco de cruzeiro chamado Princess Marie-Astrid, que ainda opera viagens turísticas no Moselle. A ideia era que o tratado fosse assinado no exato ponto onde as fronteiras do Luxemburgo, da Alemanha e da França se cruzam: no meio do rio, ao largo de Schengen.  

O Marie-Astrid ainda existe, está estacionado na doca de Grevenmacher, 30 quilómetros a norte. Não é a mesma embarcação, antes uma versão renovada onde se organizam passeios turísticos, almoços de luxo e festas temáticas. Preserva o nome da infanta luxemburguesa e o sino que soou quando a Europa assinou o acordo que lhe permitiu mover-se. Agora está atracado, à espera, sem saber quando poderá voltar a navegar livre. Como Schengen. Como a Europa inteira.  


 

 

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