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Em absoluto desespero, os restaurantes levantam a voz

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Em absoluto desespero, os restaurantes levantam a voz

Em absoluto desespero, os restaurantes levantam a voz

Em absoluto desespero, os restaurantes levantam a voz


por Ricardo J. Rodrigues/ 21.01.2021

Foto: António Pires

Organizam-se vigílias, marcam-se manifestações, as campanhas em nome da reabertura de restaurantes, cafés e bares tomam conta das redes sociais. A última semana ficou marcada pelos protestos do setor da restauração no Luxemburgo. Histórias de quem se diz na luta pela sobrevivência.

 

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"Se não vier ajuda agora, para mim acabou"
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Cristina Borges é dona de um café em Wasserbillig e uma das organizadoras da marcha de protesto que tomou conta das ruas da capital no ultimo sábado.
Cristina Borges é dona de um café em Wasserbillig e uma das organizadoras da marcha de protesto que tomou conta das ruas da capital no ultimo sábado.
Foto: António Pires

 

"Estou no limite, se o governo não nos deixar abrir portas em fevereiro vou ter fechar as minhas de vez", diz Cristina Borges, dona de um café em Wasserbillig onde se servem pratos do dia ao almoço e petiscos ao jantar. É-lhe difícil aguentar as lágrimas quando desfia esta conversa: "Tenho cinco filhos para alimentar, os apoios do Estado nunca mais chegam e as contas continuam a acumular-se. Se não vier ajuda agora, e agora significa nos próximos dias, para mim acabou. E pode ter a certeza disto: estou longe de ser caso único." Respira fundo, recompõe-se, e depois atira um grito à multidão que a circula: "Vamos lá que já é hora."

Cristina é administradora de um grupo de Facebook chamado Horeca Tous Ensembles, que congrega dois mil trabalhadores do setor da restauração e dos estabelecimentos noturnos. É um dos muitos grupos que se levantaram nas redes sociais nas últimas semanas. "Quando anunciámos um protesto no sábado, 16 de janeiro, houve uma tentativa do governo de desmobilizar-nos por causa da covid-19. A própria Federação Horesca fez um comunicado dizendo que preferia o diálogo à confrontação, por isso houve grupos que desistiram de participar", lamenta Cristina. "Mas estamos tão desesperados que não podemos ficar em casa. Não podemos fazer um protesto? Então fazemos uma marcha pacífica com quem se quiser juntar." Apareceram entre 100 e 200 pessoas, todas de máscara, envergando cartazes de revolta.

Sem autorização para organizarem uma manifestação, trabalhadores do setor da restauração concentraram-se no centro da capital para o que disseram ser uma marcha pacífica.
Sem autorização para organizarem uma manifestação, trabalhadores do setor da restauração concentraram-se no centro da capital para o que disseram ser uma marcha pacífica.
Foto: António Pires

Foi na verdade Cristina quem liderou o cortejo. Da Place d’Armes a multidão seguiu silenciosa até à Place Guillaume II, voltou atrás – e aí encontrou uma outra manifestação, da qual se demarcou de imediato. "Não temos nada a ver com estes grupos negacionistas ou anti-vacinação", dizia a empresária portuguesa quando se viu de frente com o outro grupo. "A nossa luta é contra a injustiça de um Governo que nos obriga a fechar portas e nos deixa pendurados e sem soluções. A pandemia é bem real, mas nós não somos os culpados. Estamos apenas a lutar pela nossa sobrevivência."

O problema de Cristina é o da maioria dos que ali se manifestavam. "As poupanças foram-se todas na primeira vaga da pandemia, já não temos qualquer margem de manobra." A marcha haveria de terminar junto à Câmara dos Deputados – e aí Cristina interromperia o silêncio para falar aos apoiantes da sua causa: "Não é daqui a duas semanas que precisamos de apoio. É já." E com isso arrancou uma ovação. Mais tarde, haveria de explicar a exata medida dessas palavras. "À minha frente estava o dono de um restaurante que já não vai voltar a abrir, e o dono vai ter de voltar a Portugal para conseguir sobreviver com o apoio da família. Já viu a dor que isso significa? São projetos que falham, são vidas que falham, e em que a única resposta que levamos é um encolher de ombros. Precisamos de ajuda agora, estamos no limite. Sentimo-nos esquecidos e postos de lado."


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O bode expiatório
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Rui Malheiro diz que o take-away é uma solução temporária
Rui Malheiro diz que o take-away é uma solução temporária
Foto: António Pires

A primeira fase de confinamento, que encerrou os restaurantes entre março e maio de 2020, foi aceite de forma relativamente pacífica pelos empresários do setor. Mas o segundo fecho, que começou no final de novembro e se prolongará pelo menos até final de janeiro (apesar de Cristina e toda a gente que falou para esta reportagem acreditar que as medidas serão prolongadas para além dessa data), está a deixar restaurantes e cafés de nervos em franja.

"As coisas começaram logo mal", atira Rui Malheiro, sócio e gerente do Mont Saint-Lambert, um restaurante asiático em Limpertsberg. "Fecharam-nos os estabelecimentos mas deixaram todo o outro comércio aberto, passando uma mensagem de que éramos um foco de transmissão. Não só isso não é verdade como a sensação com que ficámos é que estávamos a ser o bode expiatório desta segunda vaga." Malheiro aponta um exemplo particularmente revoltante: mal os restaurantes fecharam, as lojas da capital tiveram carta branca para realizar uma Black Friday, que juntou centenas de pessoas na rua em período natalício.

O amargo de boca é maior depois de ver que o esforço empreendido depois da segunda pandemia foi em vão. "Investimos muito dinheiro a comprar separadores entre mesas, máscaras para os clientes que não as tivessem ou gel desinfetante", diz Rui Malheiro. "Aceitámos reduzir o número de clientes, aceitámos os fechos dos horários que o Governo nos pedia, mas é como se hoje houvesse esta ideia de que a boa disposição é um mal a abater – e a única coisa de que somos culpados é de criar bom ambiente para as pessoas, mesmo em tempo de pandemia." 

Rui Malheiro tornou-se sócio de um restaurante em Limpertsberg em plena pandemia. Quando começou o segundo confinamento, arrancou com uma campanha de protesto com cartazes nas redes sociais.
Rui Malheiro tornou-se sócio de um restaurante em Limpertsberg em plena pandemia. Quando começou o segundo confinamento, arrancou com uma campanha de protesto com cartazes nas redes sociais.
Foto: António Pires

 As coisas até nem tinham corrido mal ao Mont Saint-Lambert na primeira fase do confinamento. "Só fechámos um dia. Investimos imediatamente em take-away e quando o fizemos só havia sete restaurantes na capital a apostar nisso", explica. "Nessa altura as encomendas choviam, houve dias em que tive de ligar para o Wedely às sete e meia da tarde a dizer que não podíamos aceitar mais encomendas. A cozinha já estava ocupada até às onze da noite." A faturação entre março e maio não sofreu assim danos de maior – faturaram 90% do que haviam feito no ano anterior. "Sei que a maioria dos estabelecimentos não tiveram a nossa sorte nesta primeira fase, e houve muita gente a gastar aqui as poupanças de muitos anos de trabalho. Quero mostrar a minha solidariedade com eles, também. Mas também quero ser honesto: foi quando os restaurantes puderam voltar a abrir que começámos a sentir dificuldades."

Malheiro explica as coisas assim: "O Mont Saint-Lambert tem duas características. É um restaurante onde vêm muitos grupos de amigos e famílias, e também um lugar onde as pessoas ficam para beber um copo, porque temos uma grande carta de cerveja, gin, whisky e rum." A limitação do número de comensais nas mesas causou uma enorme deserção. "E se antes conseguíamos fazer duas ou três rondas de serviço agora as pessoas vinham ao fim da tarde e ficavam até à hora de fecho. Depois daqueles meses de confinamento, havia essa necessidade de evasão. E, com bares e discotecas fechadas, a noite começava e terminava no restaurante.

O nosso restaurante dá emprego a sete pessoas. Continuamos-lhes a pagar os salários para não sofrerem com os atrasos dos pagamentos do desemprego parcial.

Rui Malheiro

A quebra, mesmo de portas abertas, cifrou-se durante o verão nos 30%. "Adaptámo-nos e investimos para dar segurança às pessoas, como já disse. Quando no final de novembro o Governo nos disse que tínhamos de voltar a fechar, as encomendas baixaram, estamos a faturar 50% do que fazíamos há um ano. O nosso restaurante dá emprego a sete pessoas, temos o aluguer do espaço para pagar, e as ajudas que recebemos do Estado vieram a título de empréstimo. Pagamos os salários porque não queremos que as pessoas fiquem condenados aos atrasos do desemprego parcial."

Os atrasos nos pagamentos das ajudas são aliás uma das principais reclamações do setor. Na semana passada, a Federação Horesca desdobrou-se em reuniões com os ministros do Trabalho, das Classes Médias, da Economia e da Saúde para exigir mais apoios e pagamentos atempados. O Governo prometeu olhar para a situação, avaliar novos pacotes de ajuda e justificou os atrasos nas ajudas com candidaturas e formulários mal preenchidos. Dias antes, no entanto, tinha anunciado um pacote de apoio aos trabalhadores independentes – situação em que trabalha o grosso dos proprietários de restauração.

Na edição francesa do Luxemburger Wort, o jornalista Jean-Michel Hennebert escreveria que, apesar do secretário-geral da Horesca, François Koepp, ter saído satisfeito da reunião que havia tido com os ministros, o governo não se comprometera verdadeiramente com nada.

Certo é que a mudança na posição de Koepp (que na terça feira tinha prometido "levantar a voz" e na sexta fazia referência à invasão do Capitólio quando comentava a manifestação de sábado) provocou fricções entre os trabalhadores da restauração. Uns ficaram em casa, outros organizaram uma marcha silenciosa, mas as soluções concretas para o seu desespero, essas, parecem ainda uma miragem.

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Investir na pandemia
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Pascal Peusch ia abrir o seu restaurante em Beggen em março de 2020. As obras atrasaram-se e veio a pandemia. “Se tivesse aberto antes, estaria agora falido, não conseguia suportar as despesas. Só vou abrir quando tudo passar.”
Pascal Peusch ia abrir o seu restaurante em Beggen em março de 2020. As obras atrasaram-se e veio a pandemia. “Se tivesse aberto antes, estaria agora falido, não conseguia suportar as despesas. Só vou abrir quando tudo passar.”
Foto: António Pires

Rui Malheiro diz que fez uma jogada certa num mau momento. Após 15 anos a trabalhar no setor da restauração, há muito que queria investir num negócio próprio nesta área. A saída de um dos sócios do Mont Saint-Lambert abriu-lhe portas para cumprir o objetivo. "Continuo convicto de que este é um setor importante para o Luxemburgo. Apesar de pequeno, este país tem uma cultura diversa e curiosa no que toca à gastronomia. Mas também tenho de confessar que não esperava um segundo confinamento. Assim que investi, tive de fechar. Vai demorar até ter retorno, mas acredito na recuperação."

Em Beggen, o luxemburguês Pascal Peusch conta a história ao contrário. Agente imobiliário de profissão, decidiu lançar-se num sonho antigo: abrir uma brasserie. "Este era um edifício que pertencia à minha família e que eu podia ter vendido, mas desta vez decidi investir num conceito diferente. Tenho, eu e as pessoas à minha volta, um interesse genuíno pelo mundo da restauração. Então, em vez de pegar num edifício do século XIX e pô-lo no mercado, decidi recuperá-lo e explorá-lo."

Pascal Peusch à porta do seu restaurante em Beggen.
Pascal Peusch à porta do seu restaurante em Beggen.
Foto: António Pires

 Nos andares superiores, criou sete quartos para AirBnB. No piso térreo começou a montar uma espécie de gastrobar, onde quer servir refeições de bistrot e copos durante a noite. "Isto já era um espaço desse género, chamava-se Virus Café. Eu ainda pensei chamar-lhe Pandemic só pelo gozo”, zomba. “Em teoria, as obras que me propus a fazer deviam estar terminadas em março de 2020, e era então que eu ia abrir portas. Mas depois veio a pandemia, e agora estou agradecido pelos atrasos que houve na construção."

Se tivesse aberto na data prevista, acredita Peusch, neste momento estaria falido. "Eu planeei as coisas para 32 lugares sentados, mais oito ao balcão. Precisaria de contratar gente, para o bar, para as mesas, para a cozinha. Ora, se a pandemia me obrigasse a fechar, eu não teria ainda uma clientela fiel a quem servir take-away, nem teria possibilidade de pedir o desemprego parcial para os meus empregados porque eles ainda não teriam cumprido seis meses de casa."

O sonho luxemburguês esta a ser destruído por um sistema que diz que os pequenos negócios não interessam para nada.

Pascal Peusch

Peusch percebe que haja outros nomes no setor que mantenham as portas abertas. "Mas não tenho a mínima dúvida de que não estão a fazer dinheiro, estão a gastar as poupanças. Quer um exemplo de como as coisas não fazem sentido? Mesmo que os funcionários estejam no desemprego, cabe ao proprietário pagar-lhes a segurança social. Estando fechado, pelo menos, não acumulo despesa. Sei que isso só acontece porque não tenho de pagar renda, mas também sei que só vou abrir quando 70% da população estiver vacinada. Aí sim, quero estar aberto. Acredito que quando os cidadãos sentirem outra vez confiança vai haver uma explosão de alegria. Vão ser os anos sessenta, outra vez."

O que preocupa Pascal Peusch, mais do que tudo, são os negócios que abriram no último par de anos, e que acompanharam o crescimento exponencial do Grão-Ducado. "Qualquer negócio precisa de quatro ou cinco anos para pagar o investimento. Há muita gente que veio tentar abrir o seu negócio e agora não tem por onde se virar. O sonho luxemburguês esta a ser destruído por um sistema que diz que os pequenos negócios não interessam para nada."

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As luzes acesas
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Andrew Martin criou o movimento Lights On Luxembourg. Em pouco mais de uma semana, viu setenta restaurantes e 2500 trabalhadores do setor aderirem à sua ideia: deixar as luzes acesas para mostrar que estão prontos a abrir portas.
Andrew Martin criou o movimento Lights On Luxembourg. Em pouco mais de uma semana, viu setenta restaurantes e 2500 trabalhadores do setor aderirem à sua ideia: deixar as luzes acesas para mostrar que estão prontos a abrir portas.
Foto: António Pires

Há duas semanas, Andrew Martin decidiu criar o movimento Lights On Luxembourg. Martin é um dos DJ mais reputados do Luxemburgo, e não são raras as vezes em que atravessa as fronteiras para ir fazer gigs na Holanda, em Inglaterra ou Portugal. "Quando chegou a pandemia, vi-me sem trabalho. Ainda por cima, o meu trabalho diurno é numa empresa de marketing que trabalha essencialmente com restaurantes, discotecas em bares. Não só tive eu próprio as minhas dificuldades como tive vista, na cadeira da frente, para tudo o que estava a acontecer neste setor."

Martin rasga elogios à forma como a pandemia foi gerida. "A primeira fase ocorreu às apalpadelas, ninguém sabia muito bem o que estava a acontecer e estou bastante certo de que Bettel geriu a situação bastante bem, com a informação de que dispunha. Mas nestas últimas semanas as medidas têm-se revelado simplesmente ilógicas."

O que o DJ não consegue entender é como é que todo o comércio abre, menos o setor Horeca. "Caramba, fomos os primeiros a instalar barreiras de proteção, a reduzir o número de lugares, a comprar máscaras e desinfetantes. E o Luxemburgo até estava a liderar o caminho, mantendo os restaurantes abertos com a segurança adequada. Mas veio muito pressão de fora, à qual o país cedeu. E agora, temos 35 mil pessoas paradas de forma injusta."

A ideia do movimento Lights On tinha surgido por sugestão de um amigo. Mas foi a 11 de janeiro, quando todo o comércio, com exceção dos restaurantes e dos bares, voltou a abrir que a campanha foi lançada. "Pedimos às pessoas que colassem um cartaz na porta dos seus estabelecimentos e deixassem as luzes abertas, para mostrar que também estavam prontos a abrir. Numa semana, 70 restaurantes e 2.500 trabalhadores do setor tinham aderido. E continua a crescer."

Martin traz para a conversa um ponto que lhe parece estar a ser esquecido. "Não acredito em conspirações e sei que esta pandemia é uma coisa muito séria contra a qual temos de tomar todas as precauções. Mas há que ter conta, peso e medida nas medidas de isolamento. O próprio Governo admite que há neste momento um problema de saúde mental em deterioração por causa do isolamento. Divertirmo-nos, comer e beber, conviver e dançar são partes centrais da vida. Não podemos simplesmente aboli-los por tempo indeterminado e depois permitir outros comportamentos de risco."

Rui Malheiro ainda tentou aplicar uma fórmula: o sentido de humor. Quando os restaurantes voltaram a ser encerrados, em novembro, começou a fazer memes com cartazes diariamente, diante do seu restaurante. Brincava com a pandemia com frases como "Se não cheirar a Natal devias fazer um teste de covid" ou "Recolher às 23h? Estamos a combater um vírus ou um vampiro?" Mas isso durou até ao fim do ano. A partir do momento em que todo o comércio abriu, menos a restauração, resta-lhe um derradeiro cartaz, e é esse que quer envergar hoje: "Deixem-nos trabalhar".

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