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Elise Nunes. Por um comunismo melódico

Elise Nunes. Por um comunismo melódico

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 3 min. 19.09.2018

Elise Nunes. Por um comunismo melódico

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Filha de portugueses que nasceram no Luxemburgo, é candidata nas fileiras do Partido Comunista do Luxemburgo (KPL). É rocker, faz uma música alternativa e pretende juntar a sua voz à daqueles que combatem as desigualdades sociais no país.

Disseram-lhe que os comunistas tinha um partido só para senhores de idade, mas viu neles uma grande abertura: “Apostam nas mulheres e nos jovens, e não é fácil interessar as novas gerações pela política”. Elise sempre foi de esquerda, leu os programas dos vários partidos e foi o do KPL que a atraiu. Tem 21 anos, estuda Psicologia, é filha de portugueses nascidos no Luxemburgo e rocker: “Alguns dizem que a minha música soa a alternativa, outros que é rock melódico. Penso que é como eu, não cabe em gavetas, é feita com liberdade e resulta de fazer aquilo que eu quero”. Aquilo que a atraiu no programa dos comunistas foi o ênfase no social e na vida das pessoas num país em que se discute, segundo ela, demasiado as questões identitárias.

“Quando estava na escola brincávamos que éramos mais os portugueses que os luxemburgueses nas aulas”. Hoje, fala melhor luxemburguês do que português, mas aquilo que a preocupa é o facto de aqueles que têm menos posses não disporem do mesmo acesso ao ensino. “O KPL defende uma escola gratuita, onde o material escolar e as excursões escolares são igualmente sustentadas pelo Estado. Na minha turma, havia sempre colegas sem condições que não podiam ir às visitas de estudo, porque as famílias não tinham posses nem dinheiro”. Para ela, garantir igualdade de acesso ao ensino é uma forma eficiente de conseguir igualdade de oportunidades para todos.

Outras causas que a movem são o combate às desigualdades económicas e o acesso à habitação. “Nós propomos um aumento do salário mínimo de 20%, neste país faz-se muito dinheiro e é preciso redistribuí-lo com mais justiça”. E acha inadmissível a situação da habitação no Luxemburgo. “A maior parte dos jovens tem de viver em casa dos pais até muito tarde, mesmo que trabalhem e ganhem bem, não têm condições de ter uma casa”.

No lar, com a mãe e o pai, fala preferencialmente luxemburguês, com a avó comunica em francês e em português. Anda destreinada na língua de Camões: há oito anos que não vai a Portugal, mas quando ia até se desembaraçava. “Diziam que o meu português era bom mas soava a brasileiro, o que me irritava muito”, ri-se.

Digo-lhe a brincar que normalmente quem quer mudar o mundo escolhe estudar Sociologia e quem quer mudar-se a si próprio vai para Psicologia. Responde com um sorriso meio tímido. “É verdade, em mais nova sentia-me mal na minha própria pele, tinha problemas com isso. Vou para Psicologia para poder ajudar as pessoas a ultrapassar este tipo de situações, porque sei o que é sofrer com isso, cheguei a ficar anoréxica. Mas isso dava uma outra conversa”.

Aposta num Luxemburgo pacífico e desarmado. “Temos de sair da NATO, se defendemos a paz não podemos estar numa organização desse tipo”. Numa altura em que se fala que o contributo do Grão-Ducado para a NATO tem de ser aumentado para mais do dobro, segundo o acordado com a administração Trump, Elise Nunes tem uma outra proposta: “Esse dinheiro devia ser investido na habitação, no emprego e no ensino”.

É otimista e acha que o mais velho partido do Luxemburgo, fundado em 1921, tem futuro e vai voltar a ter deputados. “Há muitos preconceitos em relação ao comunismo, mas defender o comunismo hoje não é defender tudo o que aconteceu no passado”, argumenta.

Vai fazer campanha eleitoral e continuar a estudar e a tocar nos seus dois projetos musicais. A música é uma paixão de família. “O meu pai toca comigo na banda. O que me permite mandar nele algumas vezes”, ri-se. “A música é de família, tenho umas primas em Londres que tocaram com o Elton John, o que é top”.

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