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Elisabete Soares: “Nós fazemos parte desta sociedade: aceitem-nos”
Elisabete Soares é a nova presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo.

Elisabete Soares: “Nós fazemos parte desta sociedade: aceitem-nos”

Foto: Guy Jallay
Elisabete Soares é a nova presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo.
Luxemburgo 9 min. 12.07.2018

Elisabete Soares: “Nós fazemos parte desta sociedade: aceitem-nos”

A nova presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL) chama-se Elisabete Soares e chegou ao Luxemburgo há 24 anos. Foi candidata pelos socialistas nas últimas autárquicas, mas os votos não chegaram para ser eleita. Em 2015, zangou-se com o Luxemburgo por causa do referendo sobre o voto dos estrangeiros, mas já fez as pazes. E quer que os portugueses aumentem o seu peso político para mudar o que está mal nas políticas que os afetam.

Contacto: José Coimbra de Matos, que foi presidente e porta-voz da CCPL, tinha uma visão amargurada sobre a forma como os portugueses eram tratados. Queixava-se que eram ignorados e não tinham apoios suficientes. Faz suas estas críticas?

Elisabete Soares: Tento distanciar-me das afirmações dos outros, não temos de comungar das mesmas opiniões. Todo o percurso do José Coimbra de Matos é relativo a um histórico dele na comunidade. Hoje, a comunidade portuguesa é vista de forma diferente. É óbvio que há pessoas que se consideram ainda discriminadas, mas acho que isso sucede também às outras comunidades estrangeiras. Haverá sempre problemas relativos a uma primeira geração. As segundas e terceiras gerações já não têm os mesmos problemas.

Já fez contactos com as autoridades luxemburguesas?

Houve contactos informais. Agora o objetivo é estabelecer contactos oficiais, para dizer quais são os objetivos da direção da CCPL, até porque devemos aproveitar o facto de ser um ano de eleições.

E quais são as reivindicações?

Há reivindicações que a CCPL tem e já tinha. Provavelmente houve um interregno em termos de afirmação política e do papel que deve ser o da Confederação. Gostaríamos que as autoridades luxemburguesas considerassem a comunidade portuguesa em termos políticos. Fala-se de integração, e considero que é uma designação extremamente vasta: viver em conjunto, trabalhar em conjunto, decidir em conjunto. Quando um português chega a uma Câmara Municipal e se inscreve como residente no país, isso deve corresponder também a uma inscrição nos cadernos eleitorais.

A maioria dos partidos tem objeções ao recenseamento automático. Fazem algum sentido?

O facto de o ato eleitoral ser obrigatório pode assustar as pessoas – estamos a falar da comunidade portuguesa, que chega aqui com um histórico de não ter participação cívica. Isso pode assustar, só que o ato de votar não é todos os anos, e se isso é explicado convenientemente, não se justifica como reticência.

Os estrangeiros continuam sem poder votar nas legislativas, depois do “não” no referendo. Como é que reagiu ao resultado?

O referendo foi um choque. Pensávamos que havia uma série de barreiras que tinham sido ultrapassadas, e depois houve o resultado dos 80% [pelo ‘não’]. Foi um “não” pesado. Os luxemburgueses que votaram ‘sim’ também ficaram chocados.

Enquanto portuguesa, o que é que sentiu?

Foi uma rejeição, foi confirmar que ainda há muito medo em relação ao que podemos fazer. E depois há o reverso da medalha: “Ok, eles têm medo e há trabalho a fazer’”. Em termos pessoais, lancei-me nas eleições autárquicas, porque considero que é participação cidadã. Nós fazemos parte desta sociedade: aceitem-nos. Não estamos cá para roubar nada a ninguém, queremos é ser parte integrante da sociedade luxemburguesa. Em termos económicos, já o somos. Os nossos filhos estão integrados na escola. Grande parte daquilo que faz a vida de um cidadão na sociedade luxemburguesa, nós cumprimos. Então, por que não também decidirmos as políticas que nos dizem respeito?

Durante o referendo, houve tensões entre estrangeiros e luxemburgueses. Acha que se criou uma cisão na sociedade?

Ela já existia: aquilo que o referendo fez foi com que fosse necessário falar sobre isso. Houve pessoas entre os 80% que sentiram necessidade de se explicar, e penso que abriu a via a um diálogo que até então era tabu. Agora, daí até que se volte a um novo referendo, vai levar alguns anos.

Mas acha que a questão devia ser decidida por referendo?

Penso que não. Considero que se nós, enquanto comunidade portuguesa, formos ativos nas autárquicas, as autoridades políticas luxemburguesas vão encarar-nos de outra forma. Vão dizer: “Eles perceberam que podem ter um peso político, vamos aceitá-los”. Para os portugueses, é importante aproveitar a oportunidade que lhes é dada, participando ativamente nas autárquicas. Essa participação vai abrir novamente a porta a esse diálogo, até porque a questão linguística vai colocar-se sempre. Um português que vá viver para França tem uma língua oficial para aprender. Aqui, não: é muito mais complicado.

Em relação a essa ideia de os portugueses terem de fazer uma espécie de “prova de vida” política, coloco a questão ao contrário. O que a história mostra é que foram as autoridades luxemburguesas a pôr barreiras, primeiro com a exceção ao Tratado de Maastricht, porque o Luxemburgo tinha muitos estrangeiros, depois com prazos enormes, que na prática afastavam as pessoas das urnas. Há medo do voto dos estrangeiros?

É óbvio que há receios. A lei da nacionalidade, por exemplo, é um passo à frente e um passo atrás. Agora são cinco anos de residência, antes eram sete, mas antes [da lei que permitiu a dupla nacionalidade, em 2009] tinham sido cinco. Dá-se um passo à frente, um passo atrás…

O Coimbra de Matos é que dizia que era como na procissão de Echternach: “Um passo à frente e dois atrás”. Acha então que é assim?

Faz parte daquilo que é a especificidade do Luxemburgo e do facto de existirem muitos estrangeiros. O Luxemburgo é um país com particularidades muito específicas. Há o histórico da ocupação alemã, que fez com que os luxemburgueses se agarrassem tanto às suas raízes. Se tentarmos compreender por que é que eles reagem assim, vamos perceber por que é que houve 80% pelo ’não’ no referendo, e por que é que se anda uma vez para a frente e outra para trás. Mas na lei da nacionalidade andou-se para a frente: já não são sete anos, são cinco, e pode-se pedir a nacionalidade ao fim de 20 anos com 24 horas de aulas de língua luxemburguesa. O efeito do referendo para mim foi: “Ai é, vocês não querem que eu vote nas legislativas, tenho de ser luxemburguesa? Não, vou continuar a ser portuguesa!”. E depois digo: por que não pedir a nacionalidade?

Foi isso que sentiu?

Sim. Quando cheguei ao Luxemburgo, era preciso abdicar da nacionalidade portuguesa, e eu pensei: “Não”. Quando passou a existir a possibilidade da dupla nacionalidade, pensei: “Se vivi até agora desta forma, perfeitamente integrada na sociedade luxemburguesa, não será necessário”. Mas depois o referendo foi uma sacudidela. E depois digo: “Não, ok, vamos lá”. Até porque compreendo e falo luxemburguês, embora me exprima muito melhor em francês.

Pediu a nacionalidade luxemburguesa?

Está em curso. O meu filho é luxemburguês. Ele nasceu cá, estuda cá, mas também é português e fala português em casa. Ele chega a Portugal e fica chocado quando as pessoas lhe dizem: “Ah, falas português”. E ele diz: “Mas eu sou português!”. Tem esse orgulho, mas também é luxemburguês, evidentemente.

Foto: Guy Jallay

Os portugueses continuam a ser discriminados no ensino. Essa é uma das preocupações da CCPL?

É e será, porque uma criança que nasce no Luxemburgo e integra o ensino luxemburguês assim que começa a escola tem todas as possibilidades de evoluir no sistema escolar. Uma criança que chega já com uma certa idade é óbvio que terá mais dificuldades para aprender as línguas. As Câmaras Municipais, que assumem o pelouro do ensino fundamental [primário], têm um papel importante a desenvolver.

Como é que foi a integração do seu filho na escola? Sei que ele é sobredotado, porque há uns anos fiz uma reportagem com ele.

Ele tem uma capacidade especial para aprender línguas, e quando chegou à escola falava francês e português. Teve, como a maioria das crianças, alguma dificuldade com a língua alemã, mas noutras matérias estava acima da média. Fui falar com a professora e pedi que tivesse um apoio suplementar em alemão. O percurso depois correu bem, e tive oportunidade de o acompanhar, que é uma coisa que nem todos os pais podem fazer. Quando me perguntavam, há dias, se ainda existe essa diferença de não haver portugueses no clássico, e de serem todos dirigidos para o ensino técnico, já não há tanto. É óbvio que são uma minoria, mas ele não é o único português.

E teve dificuldades por ser sobredotado? Na reportagem que fiz com o seu filho, a responsável da MENSA dizia que era difícil fazer reconhecer portugueses sobredotados, porque os professores diziam: “Não pode ser sobredotado, é português”.

Ele era irrequieto, porque havia matérias que já conhecia, e depois há professores que não estão preparados para lidar com crianças sobredotadas, sejam elas de que origem forem. Alguns consideram que se calhar, por ser de origem estrangeira, não são sobredotados. Felizmente a MENSA tem um acompanhamento excelente e comunica com os professores.

Como é que está a situação financeira da CCPL?

Não é catastrófica, mas não está brilhante. A CCPL está numa altura de viragem importante. É um desafio grande, e entre as prioridades está rever profundamente a situação financeira e ter mais transparência.

Três prioridades?

Promover o ensino da língua e da cultura portuguesa no Luxemburgo e a participação cidadã, para que as pessoas possam perceber o peso que podem ter. Que peso é que nós podemos ter nas Câmaras Municipais, que são responsáveis pelo ensino fundamental? Inscrevendo-nos nos cadernos eleitorais, votando, as Câmaras vão perceber que há uma massa eleitoral importante que pode fazer mudar as coisas. E depois, ter voz ativa em termos políticos.

Não foi sempre o caso nos últimos anos.

Também foi. Veja aquele acordo que foi assinado entre Portugal e o Luxemburgo [sobre formação profissional em português]. O projeto foi apresentado pela CCPL, e não era do interesse do Nicolas Schmit [ministro do Trabalho]. Ficámos felizes com o acordo, mas…

Foi apresentado quando?

Há dois, três anos. Compreendo que há um ’timing’ para que as coisas aconteçam, mas o acordo agora existe e há questões que a CCPL quer manifestar. Os manuais são traduzidos em Portugal? Então e os tradutores que estão cá? E os formadores? Há pessoas no Luxemburgo com competências para dar formação, seja na construção, seja nas limpezas.

A formação passaria pela CCPL?

Isso passa por ver qual é a posição do Governo luxemburguês. Há pessoas formadas que enviam diariamente currículos para a CCPL, que não falam francês mas têm a língua inglesa e competência. Por que não uma formação em francês para os formadores?

Paula Telo Alves


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