Escolha as suas informações

Eles querem dar a conhecer os músicos cabo-verdianos do Luxemburgo

Eles querem dar a conhecer os músicos cabo-verdianos do Luxemburgo

Eles querem dar a conhecer os músicos cabo-verdianos do Luxemburgo

Eles querem dar a conhecer os músicos cabo-verdianos do Luxemburgo


por Sibila LIND/ 08.10.2019

Djamilo Gomes é músico e Rosy Santos é formada em gestão de eventos. Cabo-verdianos e apaixonados pela música, decidiram criar o projeto “Roda de Coladeira”, para dar mais visibilidade aos músicos cabo-verdianos do Luxemburgo. O objetivo é levá-los a subir ao palco, ao lado de grandes nomes da música de Cabo-Verde, como Princesito e Mário Lúcio, os convidados do primeiro concerto, no dia 19 de outubro.

Em 2018, Djamilo e Rosy escreveram uma ideia no papel. Um dia, gostavam de unir os músicos cabo-verdianos do Luxemburgo e dá-los a conhecer ao público. Durante um ano, a ideia ficou guardada na agenda de Rosy, que sentia que faltava algo para que o projeto pudesse ser colocado em prática. Até encontrar uma solução. Pegou no telemóvel e ligou a Djamilo: “Vamos fazer o nosso projeto, mas para ele funcionar, vamos chamar artistas que já têm nome no mercado e assim dar mais visibilidade ao evento”.

A dupla começou por contactar alguns músicos e cantores cabo-verdianos que estivessem interessados em fazer parte do projeto, e a reação foi desde logo positiva. “Quando há eventos grandes dão poucas oportunidades aos músicos daqui para participarem. Acontece muito irem buscá-los à Holanda e a Portugal, para acompanharem os concertos, em vez de os procurarem aqui”, critica Rosy. “No Luxemburgo, os músicos cabo-verdianos são quase que obrigados a ficar pelos cafés, mas eles não servem só para tocar em cafés”.

Eles [os músicos cabo-verdianos] não servem só para tocar em cafés.

Rosy Santos

Rosy conhece já grande parte dos músicos cabo-verdianos no país. Há quase dez anos, tempo que está no Luxemburgo, que os segue de concerto em concerto e acompanha as suas frustrações. “Há uma ideia formada [dos organizadores de eventos] de que não temos músicos para acompanhar os artistas, mas nós queremos provar o contrário”, diz Rosy. “E isso foi o que nos deu mais gás para avançar com o projeto. Há músicos que precisam de formação, de prática, mas a maioria precisa sobretudo de uma oportunidade”.

Djamilo Gomes no ensaio dos músicos na associação Amizade Cabo-verdiana
Foto: Sibila Lind

Levar a cultura cabo-verdiana o mais longe possível

Djamilo começou a tocar guitarra na Ilha de São Vicente, em Cabo-Verde, e trouxe a música consigo quando imigrou para o Luxemburgo, em 2009.

Em criança, a sua família e vizinhos tinham o hábito de se juntar e tocar pela noite fora. “Era quase todos os fins de semana, e uma noite acordei, ouvi o som da guitarra e ficou-me na cabeça”, recorda Djamilo. “E disse para mim próprio: um dia gostava de tocar isso”.

Com 14 anos, começou a aprender a tocar guitarra com o amigo, que era também seu vizinho. O instrumento era muito requisitado pelos moradores do bairro, o que fazia com que muitas vezes Djamilo tivesse de esperar para poder tocar. Foi quando tinha 18 anos que recebeu a sua primeira guitarra, um presente inesperado de um amigo e um gesto que ainda hoje lhe traz lágrimas aos olhos. Agora, tem-na guardada em Cabo-Verde, na casa do vizinho, com quem aprendeu a tocar.

Djamilo tinha 14 anos quando começou a aprender a tocar guitarra com um vizinho em Cabo-Verde
Djamilo tinha 14 anos quando começou a aprender a tocar guitarra com um vizinho em Cabo-Verde
Foto: Sibila Lind

No Luxemburgo, Djamilo começou por lavar pratos num restaurante, mas rapidamente encontrou outros músicos e foi convidado para fazer parte da banda portuguesa “Compacto”. Em julho deste ano, no “Weekend capverdien”, tocou com músicos de renome como Leonel de Almeida, Bob Mascarenhas e ainda Jaqueline Fortes, cantora que admira desde pequeno. “São estes momentos que fazem um artista. Estar a tocar com grandes músicos e eles gostarem do teu trabalho. É isso que valoriza um artista”, diz Djamilo.

Qualquer cabo-verdiano quer levar a sua cultura o mais longe que puder.

Rosy Santos

E é essa a base do projeto de Djamilo e Rosy, ao qual chamaram “Roda de Coladeira”: dar visibilidade aos músicos cabo-verdianos e, através deles, à música de Cabo-Verde. “Qualquer cabo-verdiano quer levar a sua cultura o mais longe que puder. E nós queremos fazer isso com os nossos músicos daqui. E vamos começar em grande”, garante Rosy, referindo-se à dupla de artistas convidados a participar no primeiro concerto, os irmãos Princesito e Mário Lúcio.

Djamilo vai ser um dos músicos que vai partilhar o palco com os dois artistas, e não esconde o entusiasmo. “Estou nervoso mas muito feliz, porque temos grandes músicos aqui, com muito valor”, conta. “Não podemos deixar que o seu potencial continue escondido”.

Foto: Sibila Lind

Um projeto musical onde cabem todos

A poucas semanas antes do concerto, os ensaios dos músicos e cantores começam na sede da Associação Amizade Cabo-verdiana. Pouco a pouco, a cave vai enchendo-se de instrumentos e de sons que se misturam. Djamilo, sentado com a guitarra ao colo, vai dando indicações aos outros músicos. A meio do ensaio, Rosy, que esteve encostada num canto a filmar, abre uma garrafa de champanhe e começa a distribuir os copos pelos músicos.

“A melhor coisa que este projeto me podia dar - mesmo que o projeto em si acabe e eu não esteja mais aqui -, é que qualquer músico que venha atuar ao Luxemburgo, atue com os músicos daqui”, diz Rosy. “Quero ver estes músicos nos palcos, a saltar de palco em palco, como saltam de café para café, com a mesma vontade e confiança. Porque eles são capazes. Só precisam de uma oportunidade”.

O primeiro concerto está agendado para o dia 19 de outubro, no “Am Home”, em Pétange. As portas abrem às 21h e o espetáculo começa às 22h. O bilhete de entrada custa 20 euros se for comprado de antemão e 25 euros se for comprado à porta. Princesito e Mário Lúcio vão apresentar o projeto “Mano a mano” e algumas das suas músicas vão ser acompanhadas por Djamilo, na guitarra, e Djoy D´Ninha, na percussão.

Mas antes, o momento vai ser dos músicos cabo-verdianos do Luxemburgo, que juntos vão tocar alguns clássicos de Cabo-Verde. Entre eles, vão poder ouvir Ney (violino), Ramiro (piano), Vadeka (percussão), Djoy Santos (baixo), Alcides (saxofone) e Duda (voz), mas há muito mais. “Todos os músicos do Luxemburgo fazem parte da Roda de Coladeira, a partir do momento que quiserem”, diz Rosy. “Agora chamámos uns, para o próximo concerto virão outros. A Roda de Coladeira está aberta a todos”.


Notícias relacionadas

Cabo Verde rima com música
A cultura cabo-verdiana é vasta e variada mas é na música que este povo encontra a sua essência. É através desta arte que este povo manifesta as suas alegrias, tristezas e sonhos.
Músico cabo-verdiano Djamilo Gomes, à direita, com alunos de guitarra