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Eleições sociais/Lita Santos. No meio de uma polémica sindical
Luxemburgo 4 min. 07.03.2019 Do nosso arquivo online

Eleições sociais/Lita Santos. No meio de uma polémica sindical

Eleições sociais/Lita Santos. No meio de uma polémica sindical

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 4 min. 07.03.2019 Do nosso arquivo online

Eleições sociais/Lita Santos. No meio de uma polémica sindical

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Delegada eleita pela OGBL foi excluída e reintegrada por ordem do tribunal, mas trocou para a LCGB e diz-se convicta de que vai ganhar.

Chegou ao Luxemburgo aos 20 anos acompanhada pelo ex-marido e pelo filho de um ano. Tinham informações de que o Luxemburgo poderia ser um bom país para aumentar os rendimentos e pensaram em arriscar durante alguns anos antes do regresso a Portugal. "A ideia era dar uma vida melhor ao meu filho. Tinha o sétimo ano de escolaridade e comecei a trabalhar no setor das limpezas. Em 1996 vim para a Dussman e sou delegada sindical há 15 anos", resume Lita Santos, sobre uma firma que, tendo cerca de "quatro mil trabalhadores, atua nos setores da segurança, limpeza, lavandarias e catering".

Lita revela que se candidata à Câmara dos Assalariados pela primeira vez nas eleições sociais do próximo dia 12. "Porque nunca me deram essa possibilidade antes", indica, remetendo para a situação de conflito com a OGBL e que a levou a mudar-se para a LCGB, originando uma troca de comunicados e acusações entre os dois sindicatos. A central pela qual foi eleita delegada acusa-a de "aproximação ao patrão" depois de "retirar do tribunal para benefício próprio" um processo que tinha contra a empresa sobre salário mínimo qualificado e Lita foi excluída do sindicato, tal como outras duas parceiras da delegação sindical.

O tribunal ordenou a sua reintegração, mas o caso prossegue e a sindicalista defende-se: "É mentira e difamatório. Afastei-me da OGBL porque a minha delegação não se sentia protegida, defendida ou identificada com um sindicato que só aplicava imposições, nunca propôs nada além disso. Como sou um pouco rebelde e não o fiz, vendo que existe um conflito pessoal entre OGBL e o diretor da Dussmann, enquanto eu estou aqui para fazer o meu trabalho e defender os trabalhadores, decidiram perseguir-me. Nunca tive qualquer benefício próprio – dizem que recebi, mas não têm provas de nada porque elas não existem. Tirei o caso do tribunal porque estava lá há 15 anos sem avançar. Ao ser excluída pela OGBL, eu não podia estar a pagar a um advogado para me defender do sindicato e do patrão".

Afastei-me da OGBL porque a minha delegação não se sentia protegida, defendida ou identificada com um sindicato que so aplicava imposições, nunca propos nada além disso.  

Dirigiu-se à LCGB "no mês de novembro" e foi “muito bem acolhida”. Nos últimos dois anos diz que, em termos sindicais, trabalhou "praticamente sozinha". "Com a LCGB tenho apoio, existe boa comunicação com a delegação e o diálogo social é o mais importante para mim", sintetiza. "Nunca escondi às pessoas o que se passava, todos conhecem o meu percurso, o meu trabalho e não estão reticentes. Posso ter errado, toda a gente erra, mas fiz sempre o meu melhor. Sempre olhei pelos interesses das pessoas e espero ganhar", indica, referindo-se à dupla candidatura. Defendendo que "sem um sindicato as pessoas não conseguem nada, porque é precisa uma voz ativa para fazer ver aos patrões os motivos de uma reivindicação", Lita reconhece a existência de "patrões que se fecham e não querem conversar de maneira nenhuma".

Os problemas nas limpezas

Sobre as principais dificuldades no setor das limpezas, a delegada sindical explica: "A flexibilização dos horários de trabalho é uma das questões, porque as pessoas que pretendam ter um contrato de oito horas têm de estar ao serviço de manhã e à noite, conforme pedido do cliente. Isto gera situações delicadas, sendo necessária uma boa organização para ultrapassar cada caso".

Lita lamenta que, no Luxemburgo, "o custo de vida seja muito elevado, com rendas altas e preços que colocam muitas pessoas à beira da precariedade". E enumera outras preocupações ao observar a sociedade luxemburguesa: "Não vejo resolver a situação das casas e do alojamento porque cada vez aumentam mais os preços. No setor dos transportes há muita coisa em construção, mas esqueceram-se das infraestruturas porque vão passar a ser grátis mas quem não morar ao lado de uma estação tem de levar o carro. E não há parques para estacionar ou o que existe é a pagar – o máximo são oito horas, se eu vier trabalhar para o Luxemburgo preciso de mais do que esse tempo. Até hoje, as infraestruturas estão muito mal pensadas. Quanto a questões de trabalho, as pessoas estão cada vez mais sujeitas ao que lhes aparece, uma vez que a procura é muito alta".

Divorciada em 2009, conheceu o futuro segundo marido (casaram-se em 2014) em ações de formação sindical – ele é delegado sindical da Luxair pela OGBL, ou seja, agora há rivais em casa. Lita sorri. "Ele é da OGBL, eu da LCGB; ele é do Benfica, eu sou do Sporting, mas tudo corre bem, não há qualquer problema", destaca. Natural da região de Aveiro onde a mãe ainda vive, todos os anos volta a Portugal, até porque os sogros, que chegaram a viver e trabalhar no Luxemburgo, regressaram e moram em Lisboa. Mas no Grão-Ducado estão o cunhado, o filho e os netos, pelo que Lita não pensa em voltar de forma definitiva ao país de origem.

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Nora Back.