Escolha as suas informações

Eleições sociais/Catherine Molitor. Em nome da igualdade e da formação
Luxemburgo 4 min. 07.03.2019 Do nosso arquivo online

Eleições sociais/Catherine Molitor. Em nome da igualdade e da formação

Eleições sociais/Catherine Molitor. Em nome da igualdade e da formação

Catherine Molitor identifica problemas na sociedade luxemburguesa em setores que vão da saúde ao alojamento. Foto: Alain Piron
Luxemburgo 4 min. 07.03.2019 Do nosso arquivo online

Eleições sociais/Catherine Molitor. Em nome da igualdade e da formação

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Enfermeira no Centro Hospitalar Émile Mayrisch lembra os conselhos dos pais sobre a vida sindical e sonha com o dia em que o Luxemburgo tenha uma mulher como primeira-ministra.

Catherine Molitor habituou-se a olhar o mundo através de diferentes ângulos, porque a mãe é alemã e o pai luxemburguês, uma diversidade que tem estado presente ao longo da sua vida. "Em casa falava alemão com a minha mãe e luxemburguês com o meu pai e a minha irmã", conta a candidata a delegada sindical no Centro Hospitalar Émile Mayrisch (CHEM), em Esch-sur-Alzette, e à Câmara dos Assalariados nas eleições sociais do próximo dia 12.

Feitos os estudos de enfermagem, Catherine foi aconselhada pelo pai, que trabalhara na siderúrgica ARBED, e também pela mãe a sindicalizar-se e logo optou pela OGBL, tornando-se uma das vice-presidentes da juventude (2014), além de delegada sindical a partir de 2013. "É muito importante o sindicalismo para que seja assegurada a defesa dos direitos dos trabalhadores – no meu setor, estivemos muitos anos sem aumentos salariais e só porque nos batemos sempre pela melhoria das condições conseguimos esse aumento no ano passado", destaca.

Sublinhando o papel da Câmara dos Assalariados no que diz respeito à questão "do diálogo, das leis e da formação", Molitor não esquece a necessidade de um intercâmbio permanente. "Seja entre delegados sindicais, seja na Câmara, é decisivo que os jovens ouçam os mais velhos, o arquivo, como costumo chamar-lhes, e que estes escutem os mais novos. Destas reflexões nas mais diferentes áreas resultam sempre caminhos de progresso", refere.

É muito importante o sindicalismo para assegurar a defesa dos direitos dos trabalhadores - no meu setor tivemos aumentos no ano passado porque nos batemos por isso. 

Aliás, Catherine não está apenas preocupada com o seu setor de atividade. "No CHEM dispomos de algumas boas condições, mas há um caminho a fazer. Porém, vejo problemas na construção, no alojamento – é tão difícil comprar ou alugar casa e não são apenas os estrangeiros que sofrem com isso, os mais jovens também enfrentam enormes obstáculos quando tentam obter empréstimos dos bancos, por exemplo – ou com os estagiários e, se não nos empenharmos, nada mudará para melhor."

"Temos de bater-nos pelo equilíbrio, por espíritos livres, pela igualdade entre homem e mulher, entre pessoas das mais variadas idades e de oportunidades, caso contrário ficamos sujeitos a abusos dos patrões, por exemplo, no plano da flexibilidade. É o medo que as pessoas possam sentir com a sua subsistência que leva muitas vezes alguns patrões ao exercício de uma certa chantagem com os trabalhadores. Os sindicatos são uma boa via para a proteção da vida privada e como pistas para o que fazer no futuro", continua.

Para que as mulheres tenham mais presença em lugares de relevo, Catherine Molitor explora várias ideias. "É preciso que sejam garantidas melhores condições de conjugação entre a vida familiar e o trabalho sem que se favoreçam os patrões. As mudanças nas licenças parentais foram muito positivas, mas deve investir-se mais nesse aspeto e estar mais atento às pressões que são tantas vezes exercidas sobre os pais que optam por gozar essas licenças", recomenda.

Sobre aqueles que preferem manter-se à margem do mundo sindical, a candidata comenta: "Pensam que os direitos adquiridos não tiveram custos, nem foram precisos inúmeros sacrifícios de muita gente e esquecem o papel das lutas dos trabalhadores ao longo do tempo". Pela sua parte, o diálogo com outros sindicatos nunca é deixado de parte, uma vez que "importante não é a bandeira, mas sim a união que faz a força".

As fronteiras e os perigos da extrema-direita

Outra experiência acumulada é a de muitas viagens, incluindo memórias de "visita à antiga RDA com seis horas em filas de automóveis para controlo pelas autoridades". Desde cedo ouviu a mãe explicar o significado dos nazis na Alemanha e o seu impacto no mundo e, quando observa hoje a Europa, receia que muita gente não perceba os perigos à espreita. 

"Não aprendemos com a História. Muitos desconhecem o que é haver fronteiras e não compreendem como o crescimento da extrema-direita representa uma séria ameaça a todos nós. Aliás, basta olharmos para o Brexit para se perceber que há muita gente a ignorar as consequências, porque não se trata apenas de deixar o projeto europeu, é tudo o que essa saída implica de negativo".

Aos 36 anos, para trás ficaram papéis como os de escuteira, praticante e treinadora de voleibol. Catherine realizou ainda formação em higiene hospitalar e a sua irmã, que é educadora e tem dois filhos, também chegou a desempenhar o papel de delegada sindical, seguindo os conselhos dos pais. Quanto à eleição de Nora Back como próxima presidente da OGBL, Molitor regozija-se: "Foi um momento de enorme emoção e um excelente movimento. 

Será a primeira mulher a desempenhar esse papel e isso surge na altura certa, não por uma qualquer obrigação e sim porque é fulcral fazer escolhas próprias. Um dia, quem sabe, o Luxemburgo terá uma mulher como primeira-ministra".