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EDITORIAL: Pobre Luxemburgo rico

EDITORIAL: Pobre Luxemburgo rico

Foto: Guy Wolff
Editorial Luxemburgo 2 min. 18.04.2018

EDITORIAL: Pobre Luxemburgo rico

Paulo Pereira
Paulo Pereira
É um péssimo sinal que a desigualdade salarial, a dificuldade no acesso a cuidados de saúde e o risco de pobreza aumentem. Perde-se qualidade de vida, alarga-se o fosso em relação aos mais ricos e aumenta o desequilíbrio social. Nenhuma sociedade democrática pode estar satisfeita com este panorama.

O crime diminui, mas aumentam os casos de roubos de casas e ligados a veículos . Em poucos dias, vários acidentes roubaram vidas nas estradas do país. E um estudo da Câmara dos Assalariados, o Panorama social, divulgado com periodicidade anual e relativo a 2016, revelou que, uma vez mais, cresceram as desigualdades no Luxemburgo, depois de anos em que a situação melhorou. É um péssimo sinal que a desigualdade salarial, as dificuldades no acesso a cuidados de saúde e o risco de pobreza aumentem. Perde-se qualidade de vida, alarga-se o fosso em relação aos mais ricos e aumenta o desequilíbrio social. Nenhuma sociedade democrática pode estar satisfeita com este panorama.

O problema agrava-se quando não se trata sequer de uma situação pontual – é uma tendência de anos, indiferente a conjunturas ou responsabilidades governamentais, uma vez que, durante todo este tempo, direita, centro e esquerda tiveram oportunidade de ocupar os lugares de maior responsabilidade política. E, no entanto, com mais ou menos preocupações de caráter social, o resultado final traduziu-se na mesma triste realidade: os mais desfavorecidos cada vez pior, os mais ricos cada vez melhor.

Quanto mais as desigualdades se agravarem, mais aumentam os sentimentos de injustiça e insegurança social entre a população. E este é o cenário ideal para que se alimentem as retóricas extremistas e populistas como se tem visto um pouco por todo o mundo.

Se nem sequer o facto de se estar empregado representa uma forma de escapar a este flagelo, conforme indica o estudo da Câmara dos Assalariados, o sentimento de mal-estar e desconforto instala-se na sociedade. E isto num país que, por paradoxal que pareça, não revela dificuldades na criação de riqueza.

Enquanto não se inverter a tendência e a situação não for encarada como um problema de todos nós, as soluções serão mais difíceis. É preciso que a igualdade de oportunidades prevaleça; que se promovam políticas para a criação de emprego; que se combatam a fraude, a fuga aos impostos e a impunidade dos mais poderosos, sejam pessoas individuais ou coletivas.

É por questões como esta que nenhum país será verdadeiramente rico se uma parte dos seus cidadãos não puder beneficiar das condições que a Constituição estabelece. Porque não basta ter capacidade para criar riqueza – é preciso assegurar que se estabelecem caminhos para uma distribuição equilibrada dessa riqueza. Os desequilíbrios que tornam os mais vulneráveis cada vez mais vulneráveis não podem eternizar-se, têm de ser combatidos numa batalha que é urgente ganhar.

Tudo o que não seja intensificar os esforços e apresentar resultados de efetivas conquistas neste domínio será pouco. E apetece escrever: pobre Luxemburgo rico...