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Editorial. O valor de uma pessoa

Editorial. O valor de uma pessoa

Foto: Pierre Matgé
Editorial Luxemburgo 3 min. 11.04.2019

Editorial. O valor de uma pessoa

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Sam Tanson é um dos mais recentes alvos de discursos de ódio e, além de criticada, foi mesmo aconselhada a mudar o corte de cabelo e a forma como se veste. Tudo isto feito por uma suposta mulher sob a capa do anonimato. Sinal dos tempos e dos estereótipos que ainda marcam as sociedades.

Os discursos de ódio estão espalhados pelas redes sociais e, mais ou menos, todos são atingidos, mesmo que alguns se encontrem mais expostos por causa do estatuto de figuras públicas. No Luxemburgo, uma das mais recentes vítimas desse tipo de dicursos foi Sam Tanson, ministra da Cultura e da Habitação – além de criticada, foi mesmo aconselhada a mudar o corte de cabelo e a forma como se veste. Conforme conta a jornalista Catarina Osório, tudo isto foi feito supostamente por uma mulher sob a capa do anonimato. Um sinal dos tempos, mas também dos estereótipos que continuam a marcar a vida em sociedade e que as redes sociais tornaram ainda mais vincado.

Tal como o fez Sam Tanson na reação à acusação de que o seu corte de cabelo e a sua roupa ridicularizavam o Luxemburgo, é importante sublinhar que o valor de uma pessoa, neste caso desempenhando um cargo público, não se avalia por elementos como o tratamento dado ao cabelo, às pestanas, às sobrancelhas, às unhas ou a qualquer outra área do corpo. E isto seja qual for o seu género, cor da pele, religião ou outra questão em análise. 

Os discursos de ódio atingem todos no Grão-Ducado ou no estrangeiro. 

Tanson escolheu o caminho certo ao não permanecer em silêncio, porque ignorar e fingir que nada se passara seria a pior sequência. Além disso, apontou o rumo mais indicado quando respondeu que deve ser julgada e avaliada pela sua competência, pelas suas propostas, pela forma como cuida dos setores que lhe foram confiados aquando da nomeação governamental. Porque, de facto, é isto que está sempre em causa, seja no caso de Sam Tanson ou no de outra qualquer pessoa: é pela competência do seu trabalho que deve existir uma avaliação e não por questões supérfluas. A não ser que, como ironicamente a própria ministra comentou, estivesse a desempenhar a sua missão no mundo da moda...

Por outro lado, Sam Tanson não é o único caso, também Corinne Cahen, ministra da Família, da Integração e da Grande Região, e Taina Bofferding, ministra da Igualdade de Oportunidades, já foram objeto de comentários semelhantes. O que acentua uma outra ideia característica das sociedades e das redes sociais: a de que as mulheres em cargos públicos são alvos preferenciais nestes comentários, porque não há quem dedique a sua atenção a emitir opiniões sobre a roupa, o corte decabelo, o tratamento das mãos ou das unhas de políticos do género masculino. Trata-se, portanto, de um duplo enviesamento quando aquilo que verdadeiramente importa é a qualidade do seu trabalho, a capacidade que revelam, as capacidades que demonstram em cada intervenção. Que sejam analisados sob esse prisma faz sentido; que haja quem se esconda e atire pedras sob pretextos sem pés nem cabeça é um sintoma de doença por parte de alguém que terá uma vida demasiado infeliz. Tão infeliz que pretende superar isso diminuindo outros.

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