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Editorial. O ensino deve ser um elevador social e não uma barreira
Luxemburgo 3 min. 07.10.2020 Do nosso arquivo online

Editorial. O ensino deve ser um elevador social e não uma barreira

Editorial. O ensino deve ser um elevador social e não uma barreira

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 3 min. 07.10.2020 Do nosso arquivo online

Editorial. O ensino deve ser um elevador social e não uma barreira

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O sistema de ensino não pode ser uma máquina para dividir a sociedade do Luxemburgo.

No romance "Fremde Heimat" ("Pátria Estranha" ou "Estrangeira", em alemão), Béatrice Peters, Jo (diminutivo de João) lidera um partido político que defende a igualdade de oportunidades para os estrangeiros, uma contestação que acaba em confrontos com a polícia e os sindicatos de professores. O objetivo é mudar o sistema escolar, tornando-o inclusivo para os estrangeiros, mas as suas propostas dividem o país, e Jo arrisca-se a ser processado por perturbação da ordem pública.

Trata-se de ficção, mas expõe um problema real no Luxemburgo: as dificuldades de integração escolar dos alunos filhos de imigrantes. E se o sistema de ensino luxemburguês serve para que toda a gente possa concretizar o seu potencial; ou se pelo contrário, é feito para garantir a reprodução de uma hierarquia social que coloca os imigrantes na base da sociedade e os luxemburgueses no topo.

A autora, que deu aulas no ensino primário no Luxemburgo defende que a manutenção da paz social depende da mudança no sistema de ensino, tornando-o mais justo. Numa entrevista, dada há bastante tempo, ao jornal Contacto, a autora explica a trama da história em que os filhos dos estrangeiros formam o partido "Liberdade, Igualdade e Solidariedade", para conseguirem mudar o ensino. "É um partido composto por luxemburgueses de origem estrangeira, formado por todos aqueles que tiveram dificuldades para chegar onde chegaram – e há tantos… É uma história que pode passar-se no futuro, quando o número de estrangeiros no Luxemburgo for superior aos luxemburgueses. Aí, as coisas poderão derrapar."

Esse cenário demográfico não está longe e não se vê soluções para resolver as desigualdades no sistema de ensino. Estudos recentes revelam que os alunos imigrantes, entre eles os portugueses, no Luxemburgo "têm quatro vezes menos probabilidades de acederem ao ensino clássico, direcionado para a via universitária, do que os estudantes luxemburgueses", indica o Relatório 2020 do Índice de Desenvolvimento Sustentável (SGI) dos 41 países da UE e OCDE, da Fundação Bertelsmann.

Numa reportagem, nesta edição do jornal, da jornalista Paula Santos Ferreira dá-se voz às vítimas deste processo seleção social que atinge sobretudo imigrantes. "O que me entristece é que eu não tive escolha própria, na escola escolheram por mim o meu futuro, e lá se foi o sonho de arquitetura. Hoje só desejo que sejam os meus filhos tenham oportunidade de escolherem o que querem da vida, que seja a sua escolha pessoal e não a dos professores ou sistema de ensino. Até pode nem passar pela universidade, mas têm de ter acesso a esta via, se assim quiserem e tiverem notas, para tal", declara um deles.


A dura batalha dos alunos portugueses numa escola que não os compreende
Porque continuam os alunos portugueses a sentirem-se "incompreendidos"? E os professores a decidir o seu futuro, baseados em noções "preconcebidas"? As respostas e as novas medidas do Ministério da Educação para combater o abandono escolar.

Para que o desenvolvimento da sociedade luxemburguesa seja harmonioso é preciso conseguir que haja uma real integração da metade da população que vem de fora do Grão-Ducado. Isso só é possível se o sistema de ensino for transformado num multiplicador de possibilidades de vida, e não num muro que impede a progressão social dos filhos do imigrantes.

Para além desta crise do coronavírus e da tempestade económica que se segue, há vários desafios que a nossa sociedade tem que vencer: o da habitação, o da participação política da totalidade dos residentes, o de conseguir corrigir as crescentes desigualdades de rendimento da população do país, e, dos mais importantes, conseguir um melhor e mais justo sistema de ensino.

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O romance conta muitos episódios reais passados com alunos portugueses, quando Béatrice Peters dava aulas no ensino primário.