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Editorial. Negócio com o cancro
Editorial Luxemburgo 2 min. 03.05.2019 Do nosso arquivo online

Editorial. Negócio com o cancro

Editorial. Negócio com o cancro

Foto: Pixabay
Editorial Luxemburgo 2 min. 03.05.2019 Do nosso arquivo online

Editorial. Negócio com o cancro

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Quando o cancro a atacou, Eva Silva tentou tudo para viver, inclusive tratamentos alternativos. E, por entre o desespero, até empréstimos pediu. O resultado foi que, apesar de se ter submetido ao tratamento, não houve solução, o cancro chegou ao baço, Eva está a perder a batalha da vida e receia não ter tempo para pagar as dívidas.

Eva Silva é uma imigrante portuguesa no Luxemburgo, cuja vida foi abalada, como seria a de qualquer pessoa, ao saber que sofria de cancro. Conforme relata a reportagem da jornalista Sibila Lind, enfrentou a batalha desigual com todas as forças que foi capaz de reunir, procurou a quimioterapia, tentou os cuidados médicos habituais, mas isso não resultou. Em desespero, procurando ganhar algum tempo para estar com os filhos, soube de uma clínica na Alemanha que propunha tratamentos alternativos, não reconhecidos pela comunidade científica e com preços proibitivos. Sem dinheiro para os pagar, recorreu a empréstimos bancários e até um peditório foi realizado com inúmeras contribuições de pessoas anónimas. Finalmente, conseguiu a verba e submeteu-se aos tratamentos. Mas os resultados foram desanimadores.

No passado dia 3, Eva recebeu a informação de que o cancro chegara ao baço, ou seja, as vacinas pelas quais pagara milhares de euros não estavam a resultar. Restavam-lhe apenas poucos meses de vida "se a quimioterapia" produzir efeitos. Entretanto, falta tempo para viver, claro, e tempo para que os empréstimos contraídos sejam pagos. A preocupação aumenta porque três filhos adolescentes, dois rapazes com 14 e 16 anos e uma rapariga com 19, também não têm condições para resolver o caso e precisam do seu apoio mais do que nunca. No auge da preocupação, Eva tenta não ceder ao desespero e, com uma coragem indescritível, está numa nova missão: a nobreza de, sabendo-se sem futuro, conseguir que o futuro dos filhos fique assegurado junto de uma família que os acolha.


O controverso tratamento para o cancro que arruinou uma mãe no Luxemburgo
Eva Silva pediu um empréstimo de 20 mil euros para fazer um tratamento com células dendríticas numa clínica na Alemanha. Em abril, a imigrante portuguesa soube que não funcionou. Agora, para além ter de procurar uma solução para os filhos, tem ainda de perceber como vai pagar as dívidas.

Para lá da luta comovente de Eva Silva, sobram aspetos preocupantes, sobretudo o do negócio que se gera à volta do cancro, tantas vezes se tirando partido de quem tenta tudo para lutar pela vida. Na reportagem de Sibila Lind, diversas situações com desfechos variados são relatadas, não havendo a possibilidade de perceber qual a influência positiva do tratamento alternativo. E, por muito que se diga que se trata de "uma área promissora" com "o problema de ainda estar em desenvolvimento", enquanto não houver demonstração científica da sua eficácia, tudo não passa de uma forma de explorar quem está em desespero e tudo faz para viver. E, neste caso, com tantas questões éticas que se colocam, é urgente que entidades médicas responsáveis protejam os doentes. Porque estes, em desespero de causa, tudo farão, mesmo que a razão aconselhe o contrário, para ter mais algum tempo. Com a família, os pais, os filhos, os amigos, a possibilidade, tantas vezes adiada, de conhecer alguns sítios inesquecíveis.