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Editorial. Depois da pandemia o pandemónimo
Editorial Luxemburgo 3 min. 20.05.2020

Editorial. Depois da pandemia o pandemónimo

Editorial. Depois da pandemia o pandemónimo

Ilustração: Florin Balaban
Editorial Luxemburgo 3 min. 20.05.2020

Editorial. Depois da pandemia o pandemónimo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Se os transfronteiriços são bons quando combatem a pandemia, também têm que ter a solidariedade da sociedade quando dela precisam.

Durante esta crise sanitária, o Governo luxemburguês fez todos os esforços para manter as fronteiras abertas, até porque a grande maioria dos trabalhadores do setor da saúde são transfronteiriços. Durante esta verdadeira batalha que estes trabalhadores defrontaram, o primeiro-ministro, Xavier Bettel, não deixou de sublinhar o papel destas mulheres e homens que, vivendo em França, Bélgica e Alemanha, deram tudo por tudo pela saúde das pessoas que residem no Grão-Ducado

A crise pandémica ainda não passou, mas é visível que a crise económica que chegou vai ser forte. Quase metade da mão de obra do Grão-Ducado está em desemprego parcial. As previsões falam de um número de pessoas sem trabalho que atingirá cerca de 7% da população ativa residente. Mais uma vez, tal como na crise de 2009-2013, isso é apenas uma ponta do icebergue: os trabalhadores transfronteiriços vão ser os primeiros a ser despedidos, até porque não contam nas estatísticas internas e não votam nas eleições.

O alerta é dado pelo porta-voz da ASTI, Sérgio Ferreira: "Os transfronteiriços são o balão de oxigénio do Luxemburgo. Quando é preciso contratar mais gente recorre-se a eles e quando é preciso despedir, são os primeiros a ser mandados embora". São os trabalhadores mais precários do país, são mais de metade da população ativa, mas são descartados em tempos de crise, até porque, até agora, o Luxemburgo nem lhes paga o subsídio de desemprego.


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 O Estado luxemburguês tem meios financeiros importantes, é preciso traçar uma política social que evite descartar os mais pobres e os transfronteiriços. Se eles são bons quando combatem a pandemia, também têm que ter a solidariedade da sociedade quando dela precisam.

Para traçar essa política é preciso conhecer devidamente de que maneira a covid-19 afeta as várias camadas sociais, os homens e as mulheres, os nacionais e os imigrantes, os residentes e os transfronteiriços. É isso que um conjunto de organizações sociais reivindicam do Executivo: acesso aos estudos que mostram que estando nós na mesma tempestade, não estamos todos no mesmo barco. Alguns estão seguros, mesmo nesta crise, outros são potenciais vítimas do mundo que continuará depois da pandemia.

O Grão-Ducado tem sido um país com um enorme sucesso económico, mas há aspetos antes do aparecimento do novo coronavírus que já eram preocupantes: entre 2003 e 2018, o risco de pobreza no Luxemburgo aumentou de 11,9% para 18,3%. A falta de habitação e o enorme crescimento nos preços dos alugueres e compras de casas tornaram quase impossível que os trabalhadores que ganham menos possam habitar no Grão-Ducado. Nenhuma destas questões está em vias de ser resolvida depois desta crise pandémica.

Dizia o economista Joseph Schumpeter que as crises eram momentos de destruição criativa. São de facto momentos em que tudo pode estar aberto, mas isso não é garantia de um final feliz.

O alargamento das desigualdades sociais, o aumento da divergência económica entre os países do sul e do norte da Europa têm em si os germes da implosão da União Europeia e do florescimento de novos regimes totalitários. Esta situação é anterior à pandemia e é fruto de uma integração europeia que privilegiou os mercados em detrimento da sua componente social.

Para sair desta espiral destrutiva são precisas novas soluções. Mesmo a Alemanha, que até agora comandou a UE, entende isso. O facto de, pela primeira vez, a chanceler Merkel aceitar a mutualização parcial de verbas a serem dadas aos países em maior dificuldade é um exemplo disso.

Sejamos claros, ainda falta muito para se conseguir as condições de harmonia social que impeçam conflitos e explosões cujas consequências sejam impossíveis de prever. Mas para que a catástrofe não suceda, em todos os países têm que se arranjar novas soluções. A forma como vão ser tratados os transfronteiriços é a pedra de toque do que será feito no Grão-Ducado.

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