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Babel-sur-Alzette
Editorial Luxemburgo 2 min. 30.11.2016 Do nosso arquivo online
EDITORIAL

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Foto: Marc Wilwert
Editorial Luxemburgo 2 min. 30.11.2016 Do nosso arquivo online
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Babel-sur-Alzette

A língua luxemburguesa tem sido usada muitas vezes como instrumento de exclusão: para obter a nacionalidade, para aceder à função pública, ou simplesmente para apontar o dedo aos estrangeiros, acusando-os de não estar integrados no país.

“Uma língua é um dialeto com exército e marinha”. A frase é do linguista Max Weinreich, e torna claro que a diferença entre “língua” e “dialeto” é sobretudo uma questão política.

Considerado um dialeto alemão no séc. XIX, o luxemburguês só receberia o estatuto de língua nacional em 1984. Mas desde então, este “dialeto bem sucedido”, na fórmula citada pelo sociolinguista luxemburguês Fernand Fehlen, que entrevistámos nesta edição, ganhou uma força que põe em causa o equilíbrio com as outras duas línguas oficiais do país.

Há trinta anos, os luxemburgueses não esperavam que os estrangeiros aprendessem a sua língua. Muitos portugueses que chegaram nos anos 1970 foram desencorajados de aprender o idioma: “Falem antes francês”. É verdade que o conselho favorecia talvez outros interesses, que o linguista Fernand Fehlen põe a nu: como não falavam luxemburguês, os estrangeiros ficavam excluídos dos círculos do poder.

A língua luxemburguesa – expressão de um povo que merece o nosso respeito – tem sido usada muitas vezes como instrumento de exclusão: para obter a nacionalidade, para aceder à função pública, ou simplesmente para apontar o dedo aos estrangeiros, acusando-os de não estar integrados no país.

Apesar de o número de falantes de luxemburguês ter aumentado nos últimos anos, graças aos muitos estrangeiros que o aprendem, e de a sua legitimação enquanto língua da classe dominante ser hoje inquestionável, há quem pretenda que está em perigo, como fez o autor da petição n° 698. E quem procure tirar dividendos destes medos, ateando sentimentos nacionalistas que podem voltar-se contra os estrangeiros.

Estas vozes serão talvez isoladas – a contra-petição n° 725, que diz “não” ao luxemburguês como língua maioritária e defende o multilinguismo, obteve na semana passada as assinaturas necessárias para também ser debatida no Parlamento, mostrando que há mais opiniões no país. Mas o Governo luxemburguês parece estar refém das vozes mais extremas. É ver quantas garantias e justificações o ministro da Educação teve de dar no Parlamento para defender a mera introdução nas creches públicas da língua francesa – que é, recorde-se, uma das línguas oficiais do Luxemburgo e o idioma mais falado no país.

O fim dos cursos integrados de português em Esch-sur-Alzette é mais um dano colateral nestas lutas linguísticas. Acabar com o ensino da língua materna serve apenas para tranquilizar quem acha que esta é um obstáculo à aprendizagem do luxemburguês. Uma opinião que faz orelhas moucas aos estudos científicos que demonstram o contrário, prejudicando o sucesso dos alunos estrangeiros.

Paula Telo Alves

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