EDITORIAL: A fatura dos imigrantes

“Mais de metade do eleitorado trabalha na Função Pública. São estes que escolhem quem governa o país e enquanto isto não mudar, vão ser sempre os mesmos a pagar a fatura.”

Foto: Pierre Matge

Por José Campinho - Durante o pico da crise, entre 2007 e 2011, o governo luxemburguês optou por aumentar o investimento público de forma a compensar o desinvestimento privado e evitar assim uma desaceleração abrupta da atividade económica. Uma estratégia de contraciclo que, no caso do Luxemburgo, não implicou um aumento do endividamento, já que os cofres do Estado estavam na altura bem recheados.

Na prática, o setor da construção, um dos alicerces da economia, manteve-se ativo graças ao aumento das obras públicas e das ajudas concedidas às empresas. O emprego interno (excluindo o dos trabalhadores fronteiriços) manteve-se também estável, apesar da diminuição progressiva dos salários e de uma queda do poder de compra, motivada sobretudo pelo aumento constante da maior fatia da despesa privada: o imobiliário.

Mas nem todos foram afetados pela queda do poder de compra. Durante os anos de crise, o Estado não só aumentou os salários dos seus funcionários como cresceu bastante em número. Ou seja, durante os anos de crise houve quem visse o seu poder de compra subir em flecha. Poucos deles são imigrantes.

Dez anos após o ’crash’ financeiro e económico, o Luxemburgo atravessa um novo momento de prosperidade económica, com o produto interno bruto a crescer entre 4% e 5%, em parte, graças à estratégia de investimento público adotada na altura. Mas, como sempre, alguém teve de pagar a fatura e esse alguém foi a metade da população que trabalha no setor privado, e que é composta na sua esmagadora maioria por cidadãos de nacionalidade estrangeira.

No seu mais recente relatório sobre a economia do Grão-Ducado, a OCDE coloca o dedo em duas feridas que durante a última década têm vindo a alastrar e que põem cada vez mais em causa a coesão social do país: a presença diminuta de estrangeiros na Função Pública e o aumento do endividamento das famílias.

Existe uma correlação negativa entre estas duas feridas. Isto é, quem trabalha na Função Pública corre poucos riscos de sobre-endividamento (os salários são bastante mais elevados). A conclusão é simples e a própria OCDE não foge à questão: o Luxemburgo é hoje em dia um país com um forte desequilíbrio entre cidadãos autóctones e estrangeiros, em prejuízo destes últimos.

De acordo com os dados recolhidos por este organismo, mais de metade da população luxemburguesa trabalha na função pública – sinónimo de estabilidade financeira. Já os imigrantes são apenas 15%, o que constitui a quinta percentagem mais baixa da União Europeia.

Com o aumento constante da população, motivado pela chegada de novos imigrantes, o problema tende a agravar-se. São necessários cada vez mais funcionários e, a manter-se esta discriminação no acesso à função pública, a percentagem de imigrantes no setor pode inclusive diminuir. Isto apesar de cada vez haver menos luxemburgueses para contratar.

Mas a verdadeira questão é outra. Porquê esta diferença entre os trabalhadores da Função Pública e os do setor privado? Poucos são os países com uma diferença tão acentuada como o Luxemburgo em termos salariais e privilégios concedidos aos trabalhadores.

Para além da questão da nacionalidade, há outra explicação para privilegiar esta classe: mais de metade do eleitorado trabalha na Função Pública. São estes que escolhem quem governa o país e enquanto isto não mudar, vão ser sempre os mesmos a pagar a fatura.

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