Escolha as suas informações

E tu também detestas Portugal?
Opinião Luxemburgo 6 min. 30.10.2020

E tu também detestas Portugal?

E tu também detestas Portugal?

Foto: DR
Opinião Luxemburgo 6 min. 30.10.2020

E tu também detestas Portugal?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Apesar de tudo, não podemos viver sem Portugal e sem ir lá abaixo sempre que possível.

Um amigo ex-emigrante disse-me um dia destes que há tantas coisas que detestamos em Portugal mas que não podemos deixar de amar o nosso país. José Antunes, conhecido produtor de espetáculos e agente de artistas, queixa-se daquilo que não funciona no nosso país de origem com veemência, nomeadamente no que respeita à atual situação do setor da cultura, mas conclui com bonomia que, apesar de tudo, não podemos viver sem Portugal e sem ir lá abaixo sempre que possível.

Esta relação de amor-ódio é uma realidade. Sobretudo quando tentamos organizar, fazer, construir, empreender o que quer que seja. Não é preciso abrir uma empresa ou comprar uma casa. Basta ir à terra natal pedir o cartão do cidadão.

Fica aqui a ressalva que eu não faço nunca Portugal-bashing gratuito. Adoro o meu país e defendo-o com unhas e dentes diante do mais pintado. Ainda há umas semanas me zanguei com uma pessoa porque ela passou uns dias no nosso jardim à beira-mar plantado durante os quais não parou de dizer bem de Itália, apesar de ser russa. Mas por que diabos se compararia Portugal e Itália?

“Volta lá para os teus que tu não mereces isto!” Não, não disse isto, mas pensei. Quem nos desdenha não nos merece!

Nós, portugueses, podemos criticar Portugal porque o país é nosso. Nós podemos dizer com desdém a expressão “este país não tem futuro” ou “só neste país é que isto é possível!”. Os estrangeiros não têm direito a queixas porque Portugal – todos sabemos e o mundo descobre-o lentamente – é o máximo!

A mesma turista, em visita a Sintra e ao original palácio da Pena, soltou repetidos “uaus” e acrescentou que nunca tinha visto nada assim e que não tinha sequer ouvido falar deste monumento único. Acrescentou que, se calhar, Portugal não se sabe promover.

Nisso tive de concordar. Expliquei que nós não somos como os italianos (e aqui peço às almas mais sensíveis que saltem o parágrafo seguinte) e demonstrei com uma metáfora.

Se um italiano vai à casa de banho para fazer o número dois, sai de lá excitado e chama toda a gente para anunciar que depositou um dejeto fabuloso, uma perfeita obra de arte. Se um português for à casa de banho com a mesma finalidade, pode até obrar uma pérola engolida por engano e que terá o efeito de uma cereja no topo do bolo, mas o mais provável é que se limite a dizer: “olha que engraçado!” E vai à sua vida. Entretanto, o italiano já vendeu o que fez a várias pessoas diferentes, prometendo a todas elas entregar a encomenda nos dias que se seguem, assegurando elevado potencial de investimento.

A minha amiga não percebeu bem a imagem, ou simplesmente não achou elegante. Limitou-se a concordar com uma conclusão: “sim, os italianos dão demasiado importância a coisa banais só porque são deles”. Esta frase não tem a virtude explicativa da minha metáfora, mas, reconheço, é mais graciosa, tendo ainda a vantagem de poder ser encaixada em qualquer discussão de jantar mundano.

Antes de continuar, saliento que não tenho nada contra italianos, mas penso que deveríamos adotar alguns dos seus defeitos, sendo a presunção (mas com moderação) o principal.

A minha mais recente experiência de zanga com Portugal e a sua forma de funcionar teve a ver com um pedido de cartão do cidadão. Como sabem, os consulados estão sobrecarregados por causa da falta de pessoal, mas também porque a pandemia complicou as coisas. Os novos meios tecnológicos ao nosso dispor permitem solicitar a renovação do

CC através da internet, sobretudo para quem mantém a residência em território luso, que é o meu caso.

Lá foi ao site e tratei de fazer o pedido. Fiquei felicíssimo porque até há uma opção urgente que garante a entrega do novo cartão em três dias úteis. Custa 33 euros, mas como sou rico escolhi esse serviço.

Meti-me no avião para passar uma semana lá em baixo e passado 24 horas, ou pouco mais, recebi na aplicação id.gov.pt o meu novo cartão. Uau, que eficácia! Esperei os três dias previstos e dirigi-me ao IRN da minha localidade para dar de caras com um papel na porta a dizer que tinha de fazer marcação online ou por telefone para efetuar o levantamento. Felizmente, uma senhora do serviço saiu à rua para fumar e perguntou-me o que eu desejava: expliquei ao que vinha e ela respondeu que preciso de trazer “a carta com os códigos”. Qual carta? Quais códigos? A simpática funcionária recordou-me que há uma cartinha sem a qual não podemos ativar o CC e foi mais longe: entrou na repartição e confirmou que o meu CC já lá estava, mas “sem a carta e sem marcação não posso fazer nada”.

Mas se eu paguei urgente – ou seja, entrega em três dias – como é possível explicar que a carta ainda não tenha chegado? Tanto eu como a senhora, cuja identidade obviamente não revelarei para não colocar em perigo a sua carreira, chegamos à conclusão de que o Estado não é uma pessoa de bem e que vende banha da cobra como qualquer anunciante de frascos de Mangustan Plus.

“Como é que o senhor vai viajar?”, preocupou-se a solícita funcionária. Como podem adivinhar, regressei ao Luxemburgo com o passaporte que, esse, ainda estava dentro do prazo de validade. Posso ser emigrante mas não sou parvo. Já vi muita gente ficar entalada no check-in do aeroporto ao tentar viajar com a carta de condução ou com o cartão de sócio do Tirsense porque, “minha senhora, tem fotografia e tudo...”

Sem querer fazer desta simples crónica uma novela de suspense, sou obrigado a contar que um mês depois, tendo de fazer nova viagem à terra, dirigi-me antecipadamente ao site para fazer uma marcação no IRN esperando poder finalmente levantar o meu cartão do cidadão. A próxima data disponível era daí a cinco meses! Cinco meses?! Sim, cinco meses. Não havia outra data disponível antes para efetuar uma operação que dura menos do que pedir dois croissants com fiambre aquecidos e prensados.

Apesar de não ser italiano, tenho o famoso gene lusitano do desenrascanço que, de vez em quando, é ainda melhor do que a presunção. Voltei ao IRN por volta da hora de almoço, tal como tinha feito na primeira visita um mês antes, e aguardei diante da porta como se estivesse à espera da minha vez. Cá fora ninguém à espera, lá dentro uma funcionária sozinha, aparentemente pouco ocupada. Ao ver-me, a senhora dirigiu-se à porta e disparou: “o senhor não tem marcação!”.

“Ai é preciso marcação?”, retorqui como se fosse um idiota, exercício que não me exige grande esforço. “Pois é, é preciso marcação!”, repetiu a senhora, abrindo uma frincha na porta e dando-me uma oportunidade: “era para quê?”.

Expliquei que vinha levantar o cartão do cidadão e que tinha ali a cartinha e tudo (sim, entretanto a carta chegou), e que era emigrante, e que se não fosse agora não quando seria que lá no chantier por causa da pandemia arriscávamo-nos a não ter férias...

“Entre”, disse ela, “vou-lhe fazer isso num instante”.

Eu adoro Portugal. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.