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E se o nome das localidades mudasse para luxemburguês?

E se o nome das localidades mudasse para luxemburguês?

Luxemburgo 3 min. 11.07.2018

E se o nome das localidades mudasse para luxemburguês?

Mudar o nome das localidades nas placas das estradas para luxemburguês é uma das propostas que foram apresentadas numa consulta à população organizada pelo Governo, uma iniciativa para promover o idioma.

Sabe onde fica Fiels? E Larochette? São a mesma localidade, mas no primeiro caso o nome está em luxemburguês. Converter o nome das localidades para luxemburguês nas placas rodoviárias é uma das propostas apresentadas numa consulta à população organizada pelo Governo.

As propostas – cerca de uma centena - foram feitas em encontros em várias localidades do país e num site na internet, e vão ser tidas em conta na estratégia governamental para promover o idioma. O documento que reúne as sugestões feitas por cidadãos vai ser entregue ao futuro comissário para a língua luxemburguesa para "alimentar o plano plurianual" para promover o idioma, aprovado há duas semanas. 

Entre as sugestões, apresentadas esta terça-feira pelo ministro da Educação, Claude Meisch, está a mudança dos nomes das localidades. “Fiquei surpreendido por ver os nomes das localidades nas estradas em francês", diz uma das propostas citada no relatório do Governo. E dá um exemplo: "Vivo em Schuttrange – por que é que os sinais não dizem Schëtter? A minha sugestão é começar a fazer isso”.

Há quem proponha que os médicos e enfermeiros tenham cursos de luxemburguês. E quem queira que o luxemburguês seja mais utilizado nos documentos administrativos, bem como na comunicação com as autarquias.

“Todas estas propostas, apresentadas tanto por luxemburgueses como não-luxemburgueses, mostram, não que as pessoas se fecham, mas uma vontade comum de abrir o acesso da nossa língua ao maior número dos nossos concidadãos”, considerou o ministro, citado no site do Governo. Mas se há propostas para aumentar a oferta de cursos e materiais pedagógicos, nem sempre as sugestões primam pela “abertura”. Há mesmo quem defenda que não devia ser necessário “aprender francês” para viver ou trabalhar no Luxemburgo. “Desta forma, os estrangeiros vão poder concentrar-se em primeiro lugar na aprendizagem do luxemburguês”, diz uma das sugestões citadas no documento do governo.

Outra sugestão: os luxemburgueses deviam responder em luxemburguês quando falam com não-nacionais, em vez de mudarem para outras línguas. “Quando um estrangeiro fala em luxemburguês, deve-se responder em luxemburguês”, de forma a “encorajar os estrangeiros a tentar falar a língua”.

Mas também há críticas ao favorecimento do luxemburguês. Uma das propostas defende que, para obter a nacionalidade luxemburguesa, deve bastar uma das três línguas oficiais, em vez de se exigir apenas o idioma luxemburguês. “O luxemburguês não devia ser imposto”, defende-se, num comentário escrito em inglês.

Segundo uma sondagem encomendada pelo governo, divulgada no mês de junho, o francês continua a ser a língua mais popular no país: é falada por 98% dos inquiridos. Segue-se o inglês (80%), alemão (78%) e o luxemburguês (77%). O português é falado por 22%. Cerca de 70% dos inquiridos fala as três línguas oficiais do país e mesmo quatro idiomas.

Os estrangeiros e os luxemburgueses estão em lados opostos da barricada quanto à importância do luxemburguês. Setenta por cento dos luxemburgueses acham que o idioma nacional deveria ser a primeira língua de integração. Os estrangeiros não concordam: só 24% quer ver esse papel atribuído ao luxemburguês. Para 67% dos estrangeiros, o idioma de integração deve ser o francês. O alemão recolhe apenas 2% a 3% dos votos dos luxemburgueses e estrangeiros, respetivamente.

A maioria dos luxemburgueses (86%) também defende que é preciso aumentar o uso do luxemburguês no dia-a-dia, contra apenas 52% dos estrangeiros.

A sondagem, realizada pelo instituto de sondagens TNS Ilres, contou com 1.053 pessoas. A maioria (60%) tinha nacionalidade luxemburguesa, sendo 40% dos inquiridos estrangeiros.

O Governo aprovou em 27 de junho um projeto-lei para reforçar a língua luxemburguesa, que prevê a criação de um comissário e de um prémio literário, entre outras medidas que deverão ser postas em prática nos próximos 20 anos. Em simultâneo, o Executivo organizou uma consulta em várias localidades do país e no site Sproocheronn.lu (“mesa-redonda sobre a língua”). O site esteve ativo entre 27 de fevereiro e 20 de março para recolher propostas sobre como aumentar a utilização da língua e melhorar a sua aprendizagem. Cerca de 150 pessoas participaram e fizeram uma centena de propostas, que o Executivo vai transmitir ao futuro comissário para a língua luxemburguesa - um cargo previsto no projeto-lei aprovado há duas semanas.

Paula Telo Alves


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