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E se o jihadista português voltar ao Luxemburgo?

E se o jihadista português voltar ao Luxemburgo?

Luxemburgo 1 7 min. 14.02.2019

E se o jihadista português voltar ao Luxemburgo?

Com a derrocada do Estado Islâmico na Síria, confinado a duas aldeias, ninguém sabe quantos jihadistas europeus poderão regressar aos seus países. O lusodescendente Steve Duarte, filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo, poderá estar entre eles.

Do Luxemburgo partiram pelo menos seis residentes no país para se juntarem ao grupo terrorista Estado Islâmico, na Síria. Entre eles estava o rapper Steve Duarte, filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo. Dos seis, dois sabe-se que morreram em 2014 e três terão regressado ao Grão-Ducado. De Steve Duarte, o sexto residente no país a converter-se ao jihadismo, nada se sabe, mas tudo indica que será ele o homem que continua na mira da justiça luxemburguesa.

Segundo o jornal l'Essentiel, que cita fonte do Ministério da Justiça, haverá apenas um suspeito ainda "em zona de conflito", e poderá tratar-se do lusodescendente. A questão chegou esta semana ao parlamento luxemburguês. Numa questão parlamentar assinada pelo deputado Laurent Mosar, do CSV, questiona-se se, entre os jihadistas detidos em prisões curdas, há residentes do Luxemburgo, e se poderão beneficiar de "apoio consular", ou se o Governo estará a organizar o seu repatriamento para os levar a julgamento.   

O caso de Steve Duarte encheu páginas de jornais em 2014, quando o jovem lusodescendente, então com 25 anos, deixou o país para se juntar ao Estado Islâmico, na Síria. O português originário de Meispelt, na comuna de Kehlen, a 20 km da capital luxemburguesa, adoptou o nome de guerra Abu Muhadjir Al Purtughali.

Steve Duarte ter-se-á convertido ao Islão após uma viagem à Argélia, em 2010. Frequentava uma mesquita em Esch-sur-Alzette, na rue du Brill, conhecida como o ponto de encontro dos muçulmanos radicais no Grão-Ducado, segundo o Luxemburger Wort. A mesquita de Esch-sur-Alzette frequentada pelo lusodescendente é a mesma onde o ’jihadista’ belga de origem espanhola Davide de Angelis, detido pelas autoridades luxemburguesas, recrutaria membros para combater na Síria.

O lusodescendente era rapper, tendo adotado o pseudónimo Pollo. Chegou a editar um disco no Luxemburgo em 2011, intitulado ’En Attendant”, pela editora ZobiboZ Records. O single com o mesmo nome, cujo vídeo está disponível na internet, descreve um massacre numa escola perpetrado por um franco-atirador, mas os amigos do ex-rapper português recusaram ver na letra um indício de violência. “Era um rapaz calmo, que falava pouco, mas não me parecia de todo uma pessoa radical”, contou ao Contacto um dos mais conhecidos rapper do Luxemburgo, Rafael Possing, conhecido como T The Boss, num artigo publicado em 2014.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Os dois conheceram-se “em 2008 ou 2009”, quando Rafael Possing organizava sessões de “freestyle”, encontros “de microfone aberto para os rappers que quiserem participar”, em Hollerich e em Esch. O rapper luxemburguês diz que perdeu o contacto com Steve Duarte durante algum tempo. Quando os dois se reencontraram, “ele tinha-se convertido ao Islão”, mas o luxemburguês nunca se apercebeu de que “fosse um radical”.

“É verdade que ele mudou, levava a religião muito a sério, mas fiquei chocado quando soube que ele estava na Síria”, contou então ao CONTACTO, recordando uma improvisação em Esch, “em 2010 ou 2011”, em que Steve terá declarado ao microfone, em ritmo de rap, “Eu sou muçulmano”. “Mas nunca lhe ouvi mensagens radicais. O rap tem muitas vezes mensagens violentas, duras, e não era o caso dele: ele fazia rap de uma forma muito consciente”, garantiu Rafael Possing, recusando ver na letra do disco “En Attendant”, sobre um massacre numa escola, sinais que fizessem adivinhar o fascínio perigoso de Steve Duarte pela violência. “Com o que se sabe hoje, é fácil fazer leituras desse tipo, mas na altura o disco, que teve algum sucesso, não levantou qualquer questão”, recordou.

Chocado ficou também o rapper e ator de origem cabo-verdiana Armando “Last Ar” Medina, que participou em dois vídeos com Steve Duarte, entretanto “desaparecidos da internet”. “Ele era uma pessoa super simpática, uma pessoa super correta, e não percebo como pôde ser influenciado para ir para a Síria”, disse ao CONTACTO o luxemburguês de origem cabo-verdiana. “Não é uma pessoa má”, garantiu. “Não sei se ele fez alguma coisa má na Síria, mas eu gostava que ele voltasse vivo e inteiro e que regressasse para junto da família. Mas acho que o Governo [luxemburguês] não o vai deixar tranquilo, porque agora isto tornou-se um caso de Estado”.

O código penal luxemburguês pune as pessoas que fazem parte de grupos terroristas com penas até oito anos de prisão. A pena eleva-se para vinte anos, em caso de prática de atos terroristas, e pode ir até prisão perpétua, se os atos de terrorismo tiverem provocado a morte de "pelo menos uma pessoa", ao abrigo do artigo 135-2.  São estas as penas a que se arrisca Steve Duarte se regressar ao Luxemburgo.     

Dos problemas na escola a líder do departamento de Educação do Estado Islâmico

O lusodescendente foi visto em 2016 num vídeo do Daesh, em que mata um dos cinco reféns, dizendo querer reconquistar a Península Ibérica e ameaçando Portugal e Espanha. Steve Duarte seria uma figura influente do Estado Islâmico, revelou durante um interrogatório um jihadista belga preso no Iraque, que diz ter sido padrinho de casamento de Steve Duarte com uma argelina. Segundo o prisioneiro, citado pelo Expresso, o português do Luxemburgo teria sido escolhido para liderar o departamento de comunicação de Raqqa e o pelouro da Educação do Daesh naquela localidade, por falar várias línguas, incluindo francês, português, árabe e alemão.

Steve Duarte é filho de imigrantes portugueses naturais da Figueira da Foz. O pai morreu quando era pequeno. Segundo a revista Sábado, que cita um amigo de infância, Steve Duarte terá tido problemas na escola, tendo frequentado depois um liceu em Arlon, na Bélgica. Em 2006 reprovou e foi obrigado a trabalhar numa empresa de cosméticos.

Ao Contacto, Carla, uma imigrante portuguesa que chegou a ser vizinha da família em Meispelt e frequentou a mesma escola primária que Steve, em Kehlen, recordou em 2014 “uma criança muito calma e retirada, que pouco falava“. “Era muito tímido e tinha poucos amigos, e os poucos que tinha não eram as melhores companhias“, lembrou então a imigrante portuguesa, que pediu para não ser identificada.

Na escola, quando chegou, Carla não falava nenhuma das línguas do país, o que levou um grupo de colegas luxemburgueses um ano mais novos do que ela a recorrerem a Steve Duarte, que lhes servia de intérprete para a insultarem com palavrões em português. “Perguntavam-lhe a ele palavrões e insultos em português para mos dizerem a mim, e ele estava com eles quando mos diziam, mas não dizia nada. Ficava no canto dele a ouvir o que eles diziam e não dizia nada“.

A perseguição só terminou quando a imigrante portuguesa se queixou à professora. “Eles pararam imediatamente e os luxemburgueses vieram pedir-me desculpa, mas o Steve não“.

A notícia de que o antigo colega estaria na Síria chocou Carla. “A minha mãe conhece bem a mãe dele, éramos vizinhos em Meispelt, morávamos a 200 metros um do outro, e também ficou sem palavras“.

O rapper Armando Medina diz que a última vez que viu Steve “ele fazia entregas”. “Lembro-me de o ver sempre com embrulhos, mas não me lembro para que empresa”. O CONTACTO tentou falar com a família do imigrante português, que não quis prestar declarações.

Steve Duarte foi o sexto residente no Luxemburgo a alistar-se no grupo Estado Islâmico. Todos terão passado pela mesquita da rua do Brill, em Esch, gerida pela Associação Multicultural do Oeste (AMCO).

O português reagiu às notícias publicadas no Luxemburgo com uma mensagem numa página do Facebook, entretanto apagada. No comentário, citado pelo Wort.lu, Steve Duarte disse que tomou a decisão de aderir ao Estado Islâmico “de forma livre”, negando a influência de “qualquer guru, qualquer forma de lavagem cerebral ou de endoutrinamento”.

O Contacto questionou o Ministério da Justiça do Luxemburgo sobre o número de 'jihadistas' do Grão-Ducado que ainda estarão em território sírio, e se Steve Duarte estará entre eles. Em resposta, Luc Reding, do Ministério da Justiça, limitou-se a dizer que "a pessoa que se suspeita estar em zona de conflito foi assinalada conforme a lei e a situação é reavaliada pelas instâncias competentes". No mais, silêncio rádio: se por um lado confirma que se trata de apenas um jihadista, o Ministério da Justiça, questionado sobre se se trata de Steve Duarte, recusa "comunicar sobre casos concretos".  Tudo o que diz é que "qualquer pessoa que tenha viajado para uma zona de combate para participar nas atividades da organização terrorista Daech pode ser objeto de processo penal". 

P.T.A.


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