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“É preciso dançar”

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“É preciso dançar”

“É preciso dançar”

“É preciso dançar”


por Ricardo J. RODRIGUES/ 03.06.2020

Foto: António Pires

A conversa sobre o momento que vive o negócio da noite em Clausen, bairro histórico da capital com uma das maiores densidades de estabelecimentos noturnos do Luxemburgo.


Os clubes estão de portas fechadas em Clausen
Os clubes estão de portas fechadas em Clausen
Foto: António Pires

Os relógios tinham acabado de passar as duas da manhã quando começou aquela pequena festa. Aconteceu sábado à noite num pequeno parque de estacionamento na rua Tour Jacob, em Clausen. O volume do rádio de um dos carros ali parados subiu para o máximo e a miúda que se sentava no banco de trás saiu para a rua e começar a rodopiar de braços abertos: “Dança, Sara, dança”, gritavam em português dois amigos no banco da frente, enquanto ecoavam Tame Impala, primeiro, e Bee Gees, depois. 

Os estabelecimentos fechados, o bairro a mergulhar no sossego mas na vizinhança ninguém levantou a voz para protestar contra o baile improvisado de uma adolescente portuguesa ao som de ‘Staying Alive’. Era como se Clausen inteira estivesse ali a matar as saudades de coreografia. “Dança, Sara, dança.” E ela dançava.

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Mesas na pista de dança
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Dino Estevão, proprietário do Zulu.
Dino Estevão, proprietário do Zulu.
Foto: António Pires

Há quase três meses que o bairro histórico da capital não consegue bailar. Clausen tem provavelmente a maior densidade de estabelecimentos noturnos per capita do Grão Ducado. Não é raro que, numa noite de sexta ou sábado, as ruas se tornem dancefloor depois das três – quando fecham os últimos clubes de Clausen e a multidão entorpecida que abandona o Ikki, o Zulu, o Rock Box ou o Melusina segue em celebração ao ar livre. 

Mas isso não tinha voltado a acontecer desde o início da pandemia. O estado de emergência fechou bares e discotecas durante dois meses e meio, e esta semana eles puderam finalmente reabrir, mas apenas até à meia-noite – o que, queixam-se os empresários, deixa todo um setor da economia em suspenso.

“Oh, habitualmente era a partir das 23h30 que as coisas começavam a aquecer”, diz Dino Estevão, proprietário do Zulu, um clube por onde passavam em média 500 pessoas numa noite de sábado, e cuja frequência deste fim de de semana não somou mais de umas dezenas de clientes – muitos deles amigos da casa, que ocuparam a esplanada durante a tarde e preferiram o menu de restaurante à carta de bebidas. 

Clausen é o bairro da vida noturna.
Clausen é o bairro da vida noturna.
Foto: António Pires

“Tivemos de nos adaptar, claro, mas o nosso negócio é a dança e, não só ela agora está parada, como não fazemos ideia de quando as coisas voltarão ao normal”, continua Dino. “O governo vai-nos apoiando até ao final do ano, sim, e percebemos que numa pandemia as discotecas são o elo mais fraco. Mas se até ao fim do ano as coisas não estiverem resolvidas, não sei como vamos poder continuar. Nem nós nem ninguém em Clausen. É bem possível que todos tenhamos de fechar, mais tarde ou mais cedo.”

No centro do que era a pista de dança está agora posta uma mesa para quatro, onde se pode jantar sob luzes de discoteca e debaixo de uma bola de cristal. O mesmo acontece nos outros estabelecimentos das Rives de Clausen – o quarteirão que em 2008 converteu a centenária fábrica de cerveja Mousel numa rua de restaurantes, bares e discotecas. Do outro lado do rio, o mítico Melusina decidiu nem sequer abrir portas. Então, nesta parte da cidade, há uma pergunta a tomar conta da noite: se não chegar uma cura nem uma vacina para a Covid-19, quando é que poderemos voltar a dançar?

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A urgência do baile
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Arséne, aliás DJ Ars, no seu posto habitual no IKKI, mas agora sem ninguém a ouvi-lo.
Arséne, aliás DJ Ars, no seu posto habitual no IKKI, mas agora sem ninguém a ouvi-lo.
Foto: António Pires

“Sabes aquela sensação de acabar uma noite e estar toda a gente em festa, tocas a última música, as pessoas levantam o copo, brindam contigo”, pergunta Arsène, aliàs DJ Ars, que tem 30 anos e tem residência habitual atrás dos pratos de clubes como o Ikki ou o Zulu. “Quando é que vamos poder fazer isso outra vez?” Está preocupado com o seu futuro, porque há cinco anos que vive exclusivamente da batida. 

“Já começo a pensar que outra atividade vou ter de arranjar na vida, porque esta pode bem ter os dias contados. Mas não é só comigo que estou inquieto, é com o mundo inteiro. É preciso dançar. Porque é assim que os dias se tornam felizes, que os romances se consolidam, que as pessoas se libertam. Depois do confinamento devia ser até obrigatório. Mas não podemos. A alegria tornou-se perigosa.”

Nem o Statec, nem os sindicatos, nem sequer a federação luxemburguesa da alimentação e distribuição têm números de quantas pessoas trabalham no setor dos bares e discotecas – ou que valor o setor representa para a economia do país. Mas DJ Ars traz um ponto interessante para a conversa, que depressa é confirmado por Dino Estevão, do Zulu: “Uma boa fatia das pessoas que vêm aos Rives de Clausen vivem nos países em volta e vêm aqui gastar o seu dinheiro.” 

As Rives de Clausen vivem desde 2008 na antiga fábrica de cerveja Mousel. Desde o século XVI que se produz cerveja no bairro de Clausen, classificado como património da humanidade pela UNESCO.
As Rives de Clausen vivem desde 2008 na antiga fábrica de cerveja Mousel. Desde o século XVI que se produz cerveja no bairro de Clausen, classificado como património da humanidade pela UNESCO.
Foto: António Pires

As limitações de passagem nas fronteiras (em França, de onde chega o grosso da clientela, elas estão restritas até 15 de junho) vêm por isso acrescentar receios. “Mas o pior de tudo vai ser o medo das ajuntamentos, e esse vai durar muito tempo. Se durar tempo de mais”, diz Arsène, “Clausen já não será Clausen.”

O bairro, note-se, integra a lista de património da Humanidade da UNESCO – é o coração da cidade medieval, juntamente com os vizinhos Grund e Pfaffenthal, na cidade baixa, e do Plateau du Saint-Esprit, na parte alta. Mas o que é extraordinário aqui é a sua tradição ébria.

As primeiras fábricas de cerveja instalaram-se em Clausen no século XVI, por mão do conde de Mansfeld – que construiu não só a cervejaria como um dos mais belos castelos renascentistas da Europa, hoje em ruínas. Os monges da Ordem Teutónica encarregaram-se da produção da bebida até ao final do século XVIII, sendo depois a família Thyel a ocupar o seu lugar. Hoje, a pertence ao maior grupo do mundo, a Anheuser-Bursch.

A arquitetura industrial desses primeiros anos de tradição cervejeira sobrevive nas ruas e nas casas do bairro (já a produção foi relocalizada em Diekirch). Há de ter sido também por isso que Clausen se tornou num dos epicentros da vida noturna luxemburguesa. A abertura das Rives em 2008 deu um fôlego a toda a vizinhança, com os novos estabelecimentos a multiplicarem-se desde então. E agora veio uma pandemia, que está longe de terminar para quem fez da vida por os outros a dançar.

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Cidade velha, cidade nova
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O Britannia tem 27 anos de história. É uma instituição de Clausen.
O Britannia tem 27 anos de história. É uma instituição de Clausen.
Foto: António Pires

Do outro lado da ponte, na esquina onde o caminho se divide em direção a Neudorf ou Pfaffenthal, está uma instituição luxemburguesa. O Brittania Pub leva 27 anos de portas abertas e Alex Irvinne toma conta do balcão há duas décadas certinhas. “Estou demotivado com tudo isto, sabes? Não temos terraço, não temos futebol e somos um bar de desporto, os horários estão mais curtos e não sei como isto vai funcionar.”

Quando Alex chegou a Clausen havia três bares de referência em Clausen: o inglês Britannia, o irlandês Pygmalleon (hoje Pyg) e o defunto L’Écosse (A Escócia). “Era um lugar de referência da comunidade anglófona, que com os anos se foi tornando mais e mais multicultural. Um pouco à semelhança do país e da cidade, vamos.” Os dados confirmam a sua teoria, porque a freguesia é uma das mais diversas do Luxemburgo: segundo o Statec, dos seus 963 habitantes, 75% por cento são estrangeiros.

Alex Irvine, dono do Britannia Pub.
Alex Irvine, dono do Britannia Pub.
Foto: António Pires

 A abertura das Rives de Clausen há 12 anos criou uma bolha de oxigénio para o negócio da noite. “Começaram a proliferar os bares e os restaurantes dos dois lados do Alzette, e agora já havia transportes para aqui toda a noite, então as coisas foram animando. Mas um golpe como o que sofremos hoje é duro, porque tenho a sensação de que as pessoas vão mudar o seu comportamento durante muito tempo. Demasiado.” Beber-se-á mais em casa, diz ele, porque é mais barato, mais seguro e é um hábito que ganhou raízes durante o confinamento. “A renda sobe. Temos de gastar cada vez mais dinheiro em contratos televisivos para ver os jogos. Se os clientes não vierem, faço o que toda a gente aqui já pensou fazer num momento ou outro: fechar.”

Uns metros adiante, no número 61 da rua de Clausen, fica o bar mais recente que abriu portas no bairro. “Começámos numa sexta-feira, 13, em dezembro do ano passado”, conta Tiago Mendes, um dos três proprietários do Culture Bar. Os outros são Madalena Matias e Vítor Lopes, portugueses de Felgueiras que pegaram num antigo espaço degradado da noite luxemburguesa, o Popkorn, investiram na sua recuperação e arregaçaram as mangas para torná-lo numa nova centralidade da festa. “Achámos que íamos contrariar a superstição, mas no fundo não tivemos assim tanta sorte. Três meses depois da abertura tivemos de fechar por causa da pandemia.”

Tiago, Vítor e Madalena abriram o Culture Bar três meses antes de o terem de fechar por causa da pandemia.
Tiago, Vítor e Madalena abriram o Culture Bar três meses antes de o terem de fechar por causa da pandemia.
Foto: António Pires

 Quem assoma à porta do Culture não imagina o que está lá dentro: tem um café, uma sala para jogar Quilles (uma espécie de bowling tradicional no país), e uma enorme esplanada com vista para o parque de Mansfeld. Servem-se petiscos e refeições ligeiras, entre eles uma francesinha francamente boa e servem-se copos noite dentro. “O nosso objetivo sempre ter aqui uma porta aberta para expor o trabalho dos artistas locais, dar a conhecer as novas bandas de música”, explica Madalena, “e essa é a única forma de conseguirmos funcionar a partir de agora.” É que, antes da pandemia, uma boa parte do seu negócio fazia-se com o aluguer do espaço para eventos e festas. “Mas quem é que quer organizar uma festa agora?”

Então tratam disso eles, ou tentam. No fim de semana tiveram bandas a tocar à tarde numa parceira que fizeram com o Grund Club, e lá compuseram a casa. Nas prateleiras da espalanada puseram livros para motivar os clientes a ficar mais tempo. Apostam mais no menu de comida do que antes, porque por enquanto é isso que pode trazer mais gente. A dança, e como eles têm um espaço bom para a dança, agora não pode acontecer. Nem ali nem em nenhuma outra parte de Clausen, e se calhar em nenhum lugar do mundo. O baile, por estes dias, só é possível quando uma miúda portuguesa se põe a rodopiar ao som do rádio de um carro, numa rua deserta, depois das duas da manhã.

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