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“É inaceitável”. Reações à reportagem do Contacto nas cidades onde Braz nasceu e cresceu
Luxemburgo 2 5 min. 14.10.2021
Exclusivo

“É inaceitável”. Reações à reportagem do Contacto nas cidades onde Braz nasceu e cresceu

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“É inaceitável”. Reações à reportagem do Contacto nas cidades onde Braz nasceu e cresceu

Luxemburgo 2 5 min. 14.10.2021
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“É inaceitável”. Reações à reportagem do Contacto nas cidades onde Braz nasceu e cresceu

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
No dia em que o Contacto publicou a reportagem da luta de Felix Braz para recuperar a sua dignidade, fomos até às cidades onde o antigo vice-primeiro-ministro nasceu, cresceu e trabalhou. Em Differdange, Belvaux e Esch-sur-Alzette, o sentimento é de injustiça.

Apesar do sol de outono, na manhã de quarta-feira, Differdange acordou fria e com pouca gente nas ruas. Foi ali que há 55 anos nasceu Felix Braz, filho de algarvios que chegou a vice-primeiro-ministro do Luxemburgo. O Contacto acabava de publicar uma reportagem sobre a luta do político dois anos depois de ter sofrido uma paragem cardíaca e ter estado em coma. Foi demitido do cargo e decidiu processar o Estado em maio deste ano.

Entre os portugueses de Differdange, havia quem conhecesse o nome de Felix Braz pela sua carreira política, mas poucos ou nenhuns haviam privado com ele. Apesar de ter nascido ali, o lusodescendente passou a infância numa cidade ao lado, Belvaux. Numa rua do centro de Differdange, dois homens conversavam sobre as rotinas do dia a dia, mas não estavam “por dentro” do assunto que ali nos levou. “Tente ali na casa do Sporting, que o dono se interessa mais por política”, sugeriram. Lá fomos.


A segunda vida de Felix Braz
"Quando um homem cai, cai sozinho." Dois anos depois do ataque cardíaco e do coma, o lusodescendente que chegou a vice-primeiro-ministro do Luxemburgo fala de traição e amor, combate e sobrevivência. Uma reportagem com depoimentos, vídeos e imagens exclusivas.

Mal entramos no café Roude Leiw, lá estava José Fernandes, 52 anos, sentado sozinho numa das mesas, a folhear as páginas do jornal Contacto. “Estava agora mesmo a ler a reportagem”, disse, sorridente. O proprietário do espaço, que serve também de sede do Núcleo do Sporting no Luxemburgo, do qual é presidente, depressa se prestou a comentar o tema do dia. Não conheceu Felix pessoalmente, mas acompanhou a sua ascensão na política. E a sua queda. “A reportagem faz-nos compreender que quando estamos bem, todos são nossos amigos e estão connosco. Quando estamos mal, desaparecem todos e alguns tentam aproveitar-se da situação e passam por cima”, lamentou.

José Fernandes, proprietário do café Roude Leiw, em Differdange.
José Fernandes, proprietário do café Roude Leiw, em Differdange.

Para José, o facto de Felix Braz ter sido demitido durante a fase mais frágil da sua vida é “moral e eticamente inaceitável”. “Demitir alguém de um cargo daqueles sem dar o tempo - por muito que na política o tempo seja apertado - é sempre delicado. Parece ser uma situação injusta”, afirmou, reconhecendo, no entanto, que com “incapacidades daquelas” o lusodescendente talvez não pudesse exercer “nem daqui a dez anos, ainda mais na política”.

Do que conhece do antigo vice-primeiro-ministro, José considera que ele “tinha muito potencial” para chegar mais longe. “Ele pertencia ao partido Os Verdes, mas não era um ecologista radical e, para mim, era isso que fazia dele um bom político. Ia aos problemas reais e tentava solucionar”. Porém, o proprietário do café não acredita que ele chegasse a primeiro-ministro, “porque é o Luxemburgo e ele é de origem portuguesa e isso pesa sempre”. “À mínima oportunidade afastaram-no das funções”, apontou.


Bettel recusa comentar reportagem do Contacto
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Uma “figura da terra” que visitou restaurante português

Da terra onde Felix Braz nasceu, fomos para a cidade vizinha onde estudou e cresceu. Em Belvaux, perto da hora de almoço, havia crianças a brincar no parque da escola primária e os cafés e restaurantes começavam a servir as refeições do dia. Num desses, o Am Duerf, o dono dizia lembrar-se bem do antigo ministro. “Já o recebi aqui na minha casa duas vezes”, contou Delfim Ferreira, 60 anos. O português está há mais de 30 anos no Luxemburgo e ali em Belvaux o nome Felix Braz não é estranho. “Ele é uma figura aqui da terra, toda a gente o conhece. Tive o prazer de estar com ele e foi simpático”.

Numa das vezes que o político visitou o restaurante, em abril de 2017, Delfim foi ter com ele ao terraço, porque um amigo luxemburguês lhe disse quem era. “Conhecia-o da política, sabia que era ministro da Justiça e que era de origem portuguesa. Esteve aqui durante uma hora ou duas, fiz-lhe umas perguntas e ele foi muito pronto a responder”, recordou o proprietário, descrevendo-o como um “homem inteligente e com caráter”. Uma das perguntas que fez a Felix foi sobre como é que poderia conseguir a nacionalidade luxemburguesa e o antigo ministro explicou de “forma interessante” e conseguiu esclarecer a dúvida.

Delfim ainda não tinha lido a reportagem, mas sabia que Felix Braz tinha tido um “problema gravíssimo” e que processou o Estado por causa da demissão do cargo, que associou a uma possível discriminação. “É uma injustiça. É descendente de portugueses e possivelmente isso influenciou. Nasceu e cresceu aqui, tornou-se um homem importante, mas isso continua a ter muita influência”. Se não tivesse acontecido o que aconteceu, “talvez chegasse a primeiro-ministro, mas era difícil”, porque apesar de ser “um dos melhores países do mundo”, ainda há “muita discriminação”, explicou o dono do restaurante.

O português é da opinião de que “não deviam ter cortado os benefícios” do antigo vice-primeiro-ministro e que ele devia ter “mais apoio e ser mais protegido” por tudo aquilo que fez pelo país e pelas pessoas. “É alguém que deu muito de si ao Estado e à população, em particular à comunidade portuguesa. Merecia mais respeito”, concluiu.


Vídeo. Amor & traição
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O português de Esch que o conhecia bem

À tarde, o caminho fez-se até Esch-sur-Alzette, cidade onde Felix Braz trabalhou durante anos e onde ainda hoje vive. Pelas ruas do centro, apesar de o sol se ter escondido atrás das nuvens e começarem a cair uns pingos de chuva, caminhava Serafim Gomes, de 59 anos. O português vive naquela cidade há 20 anos e conheceu pessoalmente o antigo ministro. “Conheci-o quando ele trabalhava em Esch e depois mais tarde fiquei feliz de o ver como ministro da Justiça”.

Uma felicidade que deu lugar à tristeza quando naquela manhã leu o jornal em casa e percebeu o que acontecera. “Fiquei triste, porque não contava que estivesse nesta situação. Sabia que tinha tido o problema de saúde, mas pensei que conseguisse voltar ao ativo”, explicou. Serafim relembrou que se dava bem com Felix e que falavam por vezes. “Conhecíamo-nos bem. É uma pessoa boa, amiga do seu amigo e sempre prestável. É raro encontrar aqui alguém assim”.

Serafim Gomes, habitante de Esch-sur-Alzette há 20 anos.
Serafim Gomes, habitante de Esch-sur-Alzette há 20 anos.

O português acredita que, “pela forma como ele estava a subir, podia ter chegado ainda mais alto”. Até mesmo a primeiro-ministro. “Tinha capacidades e mentalidade para isso”, garantiu. Acerca do processo que Felix Braz moveu contra o Estado devido à sua demissão do cargo, Serafim acha que ele “fez bem” e está a torcer para que ganhe. “É triste o que lhe estão a fazer. Uma grande injustiça. É inadmissível, não tem lógica”, protestou.

As pessoas de Esch esperam voltar a vê-lo em breve. Com saúde. As de Differdange e Belvaux também. Para lhe retribuir todo o apoio e carinho que dele receberam. Agora mais do que nunca.

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