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Dona Lia canta todas as semanas para a vida ser um bocadinho maior

Dona Lia canta todas as semanas para a vida ser um bocadinho maior

Dona Lia canta todas as semanas para a vida ser um bocadinho maior

Dona Lia canta todas as semanas para a vida ser um bocadinho maior


por Ricardo J. RODRIGUES/ 16.09.2019

Foto: Sibila Lind

Sempre a fizeram pequena, até no nome. Avigília Monteiro é cabo-verdiana, tem 71 anos de vida e 53 de Luxemburgo. Num coro onde canta gente de todo o mundo encontrou finalmente a voz para se tornar grande.

Estão 20 pessoas sentadas nos bancos de madeira de uma capela anglicana no centro do Luxemburgo. Hoje não há missa, mas há coro. De frente para aquela gente, o regente dedilha um djambé, dando a batida para a próxima música. Tum, tum, tum e começa a cantoria: “I will bless your name, I will bless your name.”

Os homens e as mulheres que estão diante dele são quase todos reformados e às quintas-feiras desembocam no número cinco da avenida Marie-Thérèse para cantar gospel. Vem gente da Rússia e da Eritreia, de Portugal e do Burkina Faso, do México, da Alemanha, dos Camarões.

No centro da primeira fila, está uma mulher baixinha, de carnes secas e pele escura, é a mais velha do grupo. A sua voz não é mais do que um fio, mas vai crescendo à medida que o ensaio progride. Ela é dona Lia, na verdade Avigília Monteiro, e a sua história justifica um orfeão inteiro.

Foto: Sibila Lind

 “A música faz-me esquecer as dores”, diz do alto dos seus 71 anos, e ninguém aqui tem dúvidas de que ela fala verdade. Quando entra na capela, aliás, forma-se quase uma fila de gente para cumprimentá-la, ritual reiterado no final do ensaio. E ela ri, conta histórias, às vezes até abana um bocadinho a anca. “Meus Deus”, contará horas mais tarde, “a música trouxe-me alegria e esta gente toda. Há muito tempo que não me sentia tão feliz.”

Mulher, negra, migrante, mãe

Lá na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, não faltava festa. Quando Avigília Monteiro nasceu, a 5 de junho de 1948, o arquipélago ainda era português mas já era país diferente – talhado a ritmo morno e com sotaque crioulo. “Mas, para mim, aquela alegria toda era uma coisa proibida.”

Cresceu em casa dos avós. A matriarca tinha um grande salão que alugava para festas todos os fins de semana. Mas nunca a deixavam ir aos bailes. “Então eu ia às escondidas ver aquilo tudo, ficava a olhar e a cantar baixinho aquelas mornas, aquele funaná, aquelas coladeras. Cantar não era coisa que uma menina devesse fazer.”

Aos 19 anos meteu-se no avião a caminho do Luxemburgo. A prima chegara dois anos antes, em 1965 – foi aliás a primeira mulher cabo-verdiana a aterrar no Grão-Ducado. “Vim para um restaurante que queria gente para servir às mesas, mas naquele tempo mulher negra tinha de ficar escondida dentro da cozinha, podia assustar a clientela.” Demorou tempo até a passarem para as traseiras do balcão.

Foto: Sibila Lind

O patrão aceitou-a sim, mas quando lhe inquiriu pelo nome – Avigília – considerou-o demasiado complicado. “Passamos a chamar-te Lia e pronto.” Então tornou-se o que haveria de ser toda a vida. Dona Lia, assim mesmo, com a nomenclatura amputada. Ela não se queixa, diz que teve mais sorte do que muitas mulheres que nem da copa conseguiram sair.

Restaurantes, limpezas e o dobro do trabalho em casa. Em 1975 casou com um luxemburguês, que lhe deu dois filhos. E durante duas décadas, mesmo que a vida fosse uma canseira, as coisas corriam bem. Educou os rapazes, comprou uma casa no Mindelo, na ilha de São Vicente, onde Cesária se havia feito diva de pés descalços. Faltava música, sim, mas também não havia ruído.

A música trouxe-me alegria e esta gente toda. Há muito tempo que não me sentia tão feliz.

A vida deu uma volta em 1994, quando foi atropelada numa passadeira à saída do trabalho. “Estive muito tempo hospitalizada e fiquei com muitas marcas, físicas e psicológicas. Mas isso não é nada comparado com o que aconteceu depois.” O que aconteceu foi o pior pesadelo de uma mãe: a 29 de dezembro de 2000 um dos seus filhos morreu num acidente de viação. E o mundo parecia desabar debaixo dos seus pés.

Uma nova luz

Os sorrisos já não eram muitos, mas nos últimos 20 anos foram-se de vez. Dona Lia encolhia. Maria João Mascarenhas, que trabalha na Amitié Plurielle Luxembourg e organiza o Café des Rencontres para combater a solidão dos migrantes que chegaram à terceira idade, convenceu-a a entrar no coro. “Eu não sei cantar, nunca cantei”, respondeu num tiro. Mas foi o togolês que dirigia as vozes quem lhe deu a volta: “Se tens boca, sabes cantar. Anda.”

Então ela foi. E a voz que no princípio era só um fio fez-se pela primeira vez potente. Era na verdade isto que Guy Reger queria. O presidente da organização não-governamental Amitié Plurielle Luxembourg (a antiga Amizade Portugal-Luxemburgo, que este ano mudou de nome para se tornar mais inclusiva) fartou-se de pensar como haveria de celebrar o 50° aniversário da associação. “Queríamos fazer algo original e muito percebemos que a música não é uma língua, antes uma linguagem.”

Alguém conhecia Robert Bodjca, um refugiado togolês de 58 anos que tinha chegado ao país em 1991 pela Amnistia Internacional e que, de há uns anos para cá, desenvolvera projetos musicais com lares de terceira idade. E se formassem um coro de gospel com gente do mundo inteiro?

“Gospel significa boas notícias, nós por acaso praticamo-lo numa igreja mas não é de religião que se trata. É de música, pura e simples música. A primeira e maior ferramenta para unir os povos”, diz Robert.

Os ensaios começaram em março e culminarão numa apresentação em novembro no Cube 521, o centro cultural de Marnach. Mas, para o presidente da Amitié, mais importante do que o concerto é o caminho que se cumpriu para lá chegar. “Repare, temos aqui 25 pessoas de 16 nacionalidades. E a maioria são imigrantes que chegaram ao país nos anos 1960. A vida deles foi tudo menos fácil.”

Repare, temos aqui 25 pessoas de 16 nacionalidades. E a maioria são imigrantes que chegaram ao país nos anos 1960. A vida deles foi tudo menos fácil.

Contextualiza os elementos: “O Luxemburgo chamou trabalhadores mas o que vieram foram seres humanos. Pessoas que tiveram vidas muito duras, com grandes sacrifícios.” Este coro, acredita ele, é uma forma de empoderá-las. E em nenhuma outra personagem ele vê isso como numa mulher baixinha, de carnes secas e pele escura.

Guy Reger põe as coisas nestes termos: “Aconteceu uma coisa extraordinária, que foi ver uma pessoa que sofreu a vida toda renascer através da música.” E, agora, no meio de um coro onde cantam vozes de todo o mundo, dona Lia é dona Avigília. E é enorme.