Escolha as suas informações

Doença transmitida pela carraça: Portuguesa quer mais comparticipações para tratamento da doença de Lyme
Tania Silva

Doença transmitida pela carraça: Portuguesa quer mais comparticipações para tratamento da doença de Lyme

Chris Karaba
Tania Silva
Luxemburgo 5 min. 23.10.2015

Doença transmitida pela carraça: Portuguesa quer mais comparticipações para tratamento da doença de Lyme

Uma portuguesa apresentou uma petição no Parlamento luxemburguês para reclamar que os tratamentos da doença de Lyme tenham mais comparticipação do Estado, uma iniciativa que já recolheu 567 assinaturas desde que foi admitida no site da Câmara dos Deputados, na quinta-feira. A autora da petição, a portuguesa Tânia Silva, encontra-se na fase crónica da doença transmitida pela carraça e diz que não consegue suportar os cerca de mil euros mensais dos tratamentos.

Uma portuguesa apresentou uma petição no Parlamento luxemburguês para reclamar que os tratamentos da doença de Lyme tenham mais comparticipação do Estado, uma iniciativa que já recolheu 567 assinaturas desde que foi admitida no site da Câmara dos Deputados, na quinta-feira. A autora da petição, a portuguesa Tânia Silva, encontra-se na fase crónica da doença transmitida pela carraça e diz que não consegue suportar os cerca de mil euros mensais dos tratamentos.

“O que eu peço é que os tratamentos que os médicos prescrevem tenham uma melhor comparticipação. Estou na fase crónica da doença e mal consigo andar. Gasto cerca de mil euros mensais em tratamentos, o que é muito caro. O medicamento para as articulações Flexofytol, por exemplo, não é reembolsado. A comparticipação podia cobrir também os complementos alimentares ou alguns tratamentos homeopáticos, à semelhança do que fazem com o reembolso quando compramos vitamina B ou magnésio, por exemplo”, propõe a autora da petição.

A jovem portuguesa de 23 anos mostra as gavetas cheias de medicamentos
A jovem portuguesa de 23 anos mostra as gavetas cheias de medicamentos
Foto: Christelle Raineri

“Também há protocolos existentes noutros países que o Luxemburgo poderia aplicar. Os Estados Unidos fizeram, por exemplo, um protocolo com o International Lyme and Associated Diseases Society, que é um organismo reconhecido por médicos da área, e há acompanhamento médico e comparticipação. Se não houver ajuda nessa fase crónica, quem não tiver condições para pagar o tratamento vai piorando”, diz a imigrante portuguesa.

A doença de Lyme é provocada por uma bactéria transmitida pela picada de uma carraça infectada. Os sintomas mais comuns são o cansaço e as dores corporais. Com o tempo, alguns doentes infectados podem passar para a fase crónica, com sintomas duradouros que podem deixar as pessoas debilitadas física e mentalmente.

Tânia Silva foi diagnosticada com a doença no início do ano, depois de ter sido picada por uma carraça. Em Dezembro de 2014 foi obrigada a deixar as aulas nocturnas que frequentava num liceu da capital, por causa dos sintomas da doença: fortes enxaquecas, problemas de memória e nas articulações. Quando foi ao médico, diz que a diagnosticaram com esclerose múltipla e que depois a mandaram para um psicólogo.

Tânia da Silva lançou a petição no site da Câmara dos Deputados
Tânia da Silva lançou a petição no site da Câmara dos Deputados
Foto: Chris Karaba

“Esse primeiro médico deu-me antibióticos para três semanas e depois desse tempo regressei, mas sem melhorias. Fui depois diagnosticada com esclerose múltipla, mas também não havia melhoras com os tratamentos. Até que um dia, quando estava na rua com o meu filho mais novo, deixei de sentir as pernas. Voltei ao médico e ele disse-me que se não estava a melhorar é porque o problema estava na minha cabeça. Receitou-me anti-depressivos e mandou-me para um psicólogo, mas nunca fui à farmácia nem ao psicólogo”, conta Tânia Silva, mãe de duas crianças, de quatro e seis anos.

E sem acompanhamento médico, o estado de saúde da jovem portuguesa começou a agravar-se e Tânia decidiu procurar outro médico. A partir daí, as coisas começaram a mudar.

“Este segundo médico conhecia bem a doença de Lyme e ajudou-me bastante. Tomei antibiótico por via intra-venosa e comecei a sentir as pernas. Mandou-me fazer várias análises para ver se tinha co-infecção com outros microrganismos transmitidos pela carraça. É graças a ele que comecei a ver melhorias”, diz a jovem de 23 anos, residente em Kirchberg.

Tânia faz todos os meses sessões de tratamento de duas horas. Em casa, passa grande parte do tempo acamada e não pode trabalhar. Depende fisicamente e financeiramente do companheiro para conseguir fazer os tratamentos à base de antibióticos e produtos alternativos.

“Há pessoas que trabalham para poder pagar o tratamento, mas o meu caso e de outras pessoas que conheço não me permite trabalhar, e tenho de depender do meu companheiro”, desabafa Tânia, que conta com o apoio da associação francesa Lyme Sans Frontières.

“OS MÉDICOS É QUE
 DEVEM DAR A RESPOSTA”

Confrontada com este caso, a responsável de comunicação da Caisse Nationale de Santé (CNS), Caroline de Hoog, disse ao CONTACTO que “não há medicamentos comparticipados em função da doença” e que os casos de doenças raras são acompanhados caso a caso.

“Comparticipamos os antibióticos ou outros medicamentos que os médicos prescrevem sem ter em conta o tipo de doença. Se há algum medicamento ou tratamento específico para esses casos de doenças mais raras, temos de ver caso a caso, e cabe sempre à administração do ’contrôle médical’ dar a autorização para a comparticipação dos tratamentos médicos. A doença de Lyme não é diferente das demais doenças raras e está prevista na nossa convenção”, refere Caroline de Hoog.

A doença de Lyme, transmitida pela carraça, pode ser apanhada nas florestas ou parques públicos
A doença de Lyme, transmitida pela carraça, pode ser apanhada nas florestas ou parques públicos
Foto: Pierre Heiliger

Ouvida sobre esta petição, a presidente da Associação Luxemburguesa Borreliose de Lyme, a portuguesa Sofia Araújo, distancia-se da iniciativa.

“Acho bem que ela mobilize as pessoas por esta causa, mas vai ser difícil obter mais ajudas do que aquelas que o Ministério da Saúde oferece. O problema não é tanto político, mas sim dos médicos. Eles é que têm de dar as respostas e não, por exemplo, um ministro”, disse ao CONTACTO Sofia Araújo, que vai ainda ouvir a opinião dos restantes membros sobre esta petição.

Além de apoio financeiro, a petição de Tânia Silva propõe ainda formação sobre a doença para os profissionais de saúde, e a título preventivo, a colocação de painéis informativos à entrada dos parques públicos e florestas sobre os perigos da transmissão da bactéria através das carraças.

No Luxemburgo, de acordo com dados de 2013 do Centro de Investigação Pública da Saúde (CRPS, na sigla em francês) e do Laboratório Nacional de Saúde, 16% das carraças estão infectadas com o agente da doença de Lyme. Trinta e oito por cento dos trabalhadores florestais e 8% da população já esteve em contacto com a bactéria. Se a petição conseguir alcançar as 4.500 assinaturas até 3 de Dezembro, Tânia Silva poderá ter mais razões para sorrir.

Além da batalha pela petição, se o tratamento continuar a evoluir, a imigrante portuguesa espera voltar para o ano à escola para terminar o ensino secundário e “ter uma vida minimamente organizada, mais dependente de produtos naturais do que dos químicos”.

Henrique de Burgo



Notícias relacionadas

Doença de Lyme tratada com pinças no Luxemburgo
A doença de Lyme é provocada por uma bactéria transmitida pela picada de uma carraça infectada. Os sintomas mais comuns são o cansaço e as dores corporais. Com o tempo, alguns doentes infectados podem passar para a fase crónica, com sintomas duradouros que podem deixar as pessoas debilitadas física e mentalmente. Saiba mais sobre esta doença.
8% da população já esteve em contacto com bactéria transmitida pela carraça
Chama-se Associação Luxemburguesa Borreliose de Lyme, foi criada no início de Junho deste ano, e tem por objectivos promover a investigação, o diagnóstico e tratamento da doença de Lyme. Uma doença causada por uma bactéria transmitida pela carraça. No Luxemburgo, 8% da população já esteve em contacto com a bactéria.
31.7. Contacto / ITV Sofia Araujo , association luxembourgeoise Borreliose de Lyme foto: Guy Jallay