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Doces palavras
Editorial Luxemburgo 2 min. 26.06.2019

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Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 2 min. 26.06.2019

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Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Lavam-nos o cérebro diariamente para nos convencer que o ambiente é uma questão de nos portarmos bem individualmente, comermos mais saladas, separarmos o lixo e declararmos guerra aos sacos de plástico. Quando, mesmo que aqui no Luxemburgo se cumprissem todas as normas do escuteiro ecologista, o país continuaria a poluir demasiado.

O primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, afirmou na festa nacional que “temos grandes responsabilidades em relação às novas gerações”, em relação à mudança climática. O chefe do executivo do Grão-Ducado relembrou que o país não pode resolver sozinho a crise ambiental, mas que pode “aumentar a pressão sobres os países que se mostram mais reticentes sobre esta questão”. Simpáticos pensamentos, não fosse o Luxemburgo um dos países com a maior pegada ecológica do mundo. Em 19 de fevereiro de 2019, como anunciou o Contacto, o Luxemburgo entrou em bacarrota ecológica. Foram precisos menos de dois meses para o Grão-Ducado ter gasto todos os recursos que tinha direito se o planeta fosse gerido com sabedoria e preservando para as gerações futuras os seus recursos. Segundo a Global Footprint Network, a pegada ecológica do Luxemburgo é a segunda pior do mundo, só sendo ultrapassada pelo Qatar.

Lavam-nos o cérebro diariamente para nos convencer que o ambiente é uma questão de nos portarmos bem individualmente, comermos mais saladas, separarmos o lixo e declararmos guerra aos sacos de plástico. Quando, mesmo que aqui no Luxemburgo se cumprissem todas as normas do escuteiro ecologista, o país continuaria a poluir demasiado.

A questão ambiental coloca toda a humanidade perante um desafio: ou rompe decididamente com o modelo económico baseado no lucro e na desigualdade ou a maior parte da população do planeta vai sofrer e morrer em consequência disso.

Por isso, o grande problema desta época, citando Fredric Jameson, é que “ninguém considera seriamente possíveis as alternativas ao capitalismo, enquanto a imaginação popular é assombrada pelas visões do futuro ‘colapso da natureza’, da eliminação da vida sobre a Terra. Parece mais fácil imaginar o ‘fim do mundo’ que uma mudança muito mais modesta no modo de produção.”

Na sua encíclica sobre o meio ambiente, “Laudato si” o Papa Francisco colocava o dedo na ferida: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos atuais de produção e consumo.”, e concluía: hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.”

Não haverá sobrevivência em termos ambientais sem uma maior igualdade e justiça social, impedindo que os 26 mais ricos do mundo tenham tanto como os 3,8 mil milhões mais pobres do planeta. Essa injustiça e desperdício é a base de toda a poluição.

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