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Do mercado imobiliário e outras histórias
Opinião Luxemburgo 8 min. 05.03.2021

Do mercado imobiliário e outras histórias

Do mercado imobiliário e outras histórias

Foto: Guy Wolff
Opinião Luxemburgo 8 min. 05.03.2021

Do mercado imobiliário e outras histórias

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Perdoem-me a divagação, o meu objetivo é contar a história do apartamento da Maria Rita que ela comprou com muito esforço e dedicação e alguma ajuda do Zé Carlos.

Os preços das casas no Luxemburgo estão pela hora da morte. Ao que parece, todos os anos o valor de um apartamento aumenta não sei quantos por cento. Uma loucura! Eu não queria acreditar nos números que vou ouvindo e vendo, mas um dia destes a Maria Rita disse-me que ia vender o apartamento que tem em Beggen e que comprou com muito esforço e dedicação.

Bem, com muito esforço e dedicação, mas também com a ajuda do Zé Carlos que, um dia, conheceu a Maria Rita num bar e, desde então, fazem uns fins de semana juntos sempre que o Zé Carlos não tem obrigações familiares. Ou seja, quando a mulher dele vai ver a mãe a Paris e leva os miúdos com ela. Perdoem-me a divagação, o meu objetivo é contar a história do apartamento da Maria Rita que ela comprou com muito esforço e dedicação e alguma ajuda do Zé Carlos. Só que isto aconteceu anos depois muito depois de se terem conhecido e é importante contextualizar.

Inicialmente, eles nem repararam um no outro. Ele foi beber uns copos com um grupo de amigos ao centro do Luxemburgo e, por volta das duas da manhã, a Neusa apresentou-lhe a Maria Rita. E, como é típico da Neusa, ela foi dizer olá a não sei quem e deixou o Zé Carlos e a Maria Rita juntos, plantados junto ao bar. A Maria Rita, que não estava a perceber bem por que razão a Neusa lhe apresentava um tipo muito mais velho, interrogava-se sobre as companhias da Neusa: nunca pensei que ela tivesse amigos desta idade. O homem tem pelo menos 50 anos... Já estava a preparar uma boa desculpa para vazar quando, entre o ruído da música, percebeu finalmente o nome do Zé Carlos. Ai que bom! Português?! Eu ainda falo tão mal francês que me canso a tentar conversar com as pessoas! Foi a língua que os uniu. 

Trocaram perfis Facebook. O Zé Carlos é mesmo cota e quase que lhe pediu o número de telefone mas acabou por achar que o Facebook chegava. Desde que ela não me peça o Snapchat tudo bem, pensou, lamentando nunca ter conseguido perceber como funciona aquela app. Um shot e uma conversa sobre se vale a pena comprar carros durante o Autofestival depois, a Maria Rita declarou a sua firme intenção de ir para casa e deixou o Zé Carlos a perguntar-se se ela era mesmo larga de ancas ou se seria apenas uma impressão causada pelo casaco grosso. Entretanto, a Neusa aproximou-se do Zé Carlos e pediu-lhe que a levasse a casa que estava muito cansada e que a música já não estava mesmo nada boa. Durante os 7 minutos que demorou a chegar ao apartamento em Cessange ainda pensou que ia ter sorte, mas a Neusa agradeceu a boleia ainda antes de virarem para a rua dela e saiu do carro com um sonoro temos de fazer isto de novo.

Perdoem-me a divagação, o meu objetivo é contar a história do apartamento da Maria Rita que ela comprou com muito esforço e dedicação e alguma ajuda do Zé Carlos. Só que isto aconteceu anos depois muito depois de se terem conhecido e é importante contextualizar. Na noite em que conheceu a Maria Rita, o Zé Carlos foi para casa ver um filme Netflix porque afinal ainda só eram três da manhã de sábado. Quando acordou foi à Honda ver carros; afinal era tempo de Autofestival. Foi lá que se lembrou da Maria Rita. Como é que ela se chama? Foi ver as últimas pesquisas no Facebook e lá deu com ela. Maria Rita Só. Mas que raio de nome. Chamar-se-á Sousa? Ou será um apelo ao amor? 

A meia dúzia de fotos que a Maria Rita tinha publicado não devam para ver se tinha ancas largas ou não. Entretanto, o vendedor da Honda disse que iam fechar e se o senhor quiser pode vir cá amanhã que estamos abertos e até pode ser que lhe consiga emprestar o carro para fazer um ensaio. O Zé Carlos agradeceu mas jurou nunca mais comprar um Honda, juntando está marca à lista de tantas outras onde foi tratado como uma merda. Pior que os vendedores de carros só os agentes imobiliários que te tratam de alto.

Por falar nisso, o meu objetivo era contar a história do apartamento da Maria Rita que ela comprou com muito esforço e dedicação e alguma ajuda do Zé Carlos. Já lá vamos! A Maria Rita já tinha quase esquecido o Zé Carlos quando ele, mais de uma semana depois, lhe enviou uma mensagem a propor comerem juntos. Matreirola, o Zé Carlos não disse almoço nem disse jantar. Deixou-a decidir para saber com que fios se cosia. A resposta não se fez esperar. Podemos almoçar na segunda-feira? O Zé Carlos ficou desiludido mas, como tem os pés bem assentes na terra, percebeu que a Maria Rita não queria dar confiança. Por outro lado, um almoço seria mais fácil do que um jantar porque não precisava de explicar nada à mulher. 

O almoço correu bem. Ela parecia um bocado acelerada porque estava em plena mudança de trabalho. Vou para uma nova empresa daqui a uma semana e tenho tantas coisas para acabar até sexta, queixou-se. O Zé Carlos lamentou, mas ficou feliz já que no dia seguinte ia esquiar na Áustria com a mulher e os miúdos. Que pena não nos podermos ver esta semana, mas mal tu estejas instalada no novo trabalho tens de me avisar para nos encontrarmos de novo. Ela disse que sim e o Zé Carlos tomou nota mental para lhe enviar um whatsapp quando voltasse do esqui. 

A partir daí houve dois ou três jantares. Conversa puxa conversa. Vinho puxa vinho. Beijo puxa beijo e o Zé Carlos e a Maria Rita acabaram por passar uma noite juntos. Uma noite é como quem diz porque o Zé Carlos teve de ir para casa às duas para que a mulher não desconfiasse. A Maria Rita no dia seguinte enviou mensagem a agradecer o jantar e perguntou-lhe o que é que ele fazia no fim-de-semana seguinte. O Zé Carlos respondeu-lhe radiante que, se ela quisesse iam passar o fim-de-semana a um hotel romântico na Suíça. Calhava bem porque a mulher dele tinha previsto uma visita à mãe acompanhado pelas crianças. E este foi um de muitos fins-de-semana. Depois houve passeios românticos que o Zé Carlos financiou. Muitas compras caras para ela que o Zé Carlos ofereceu. 

Muitos restaurantes com vinhos estupidamente inflacionados que o Zé Carlos pagou. Já para não falar em mais alguns euros aqui e ali para trocar os pneus do Renault da Maria Rita ou para pagar uma revisão porque o carro estava com 150 mil quilómetros e cada vez mais problemas. Até que um dia a Maria Rita começou a falar em comprar um apartamento. O Zé Carlos foi sempre ouvindo distraído e talvez tenha dito que sim em determinados momentos da conversa. Talvez por isso a Maria Rita tenha interpretado que o Zé Carlos iria contribuir para a compra.

Já tratei de tudo, explicou excitada uns dias depois. Mostrou os planos ao Zé Carlos e afirmou que em menos de um ano poderiam ter um novo ninho de amor. Sem refletir, o Zé Carlos perguntou o preço e ela disse-lho explicando que era uma excelente oportunidade e que ele só precisava de a ajudar com 50 ou 60 mil euros que é o capital próprio que o banco exige. O Zé Carlos engasgou sem engasgar, ficou branco sem ficar e disse ok, sem saber onde poderia ir desencantar o dinheiro sem explicar à sua mulher.

Mas tudo se acabou por resolver e a Maria Rita comprou o apartamento em 2019 com o financiamento parcial do Zé Carlos. E ela adorava o seu apartamento... até há pouco tempo quando descobriu que iam construir um enorme projeto urbanístico na Cloche d'Or. Mostrou os planos ao Zé Carlos e até lhe propôs comprarem a maior penthouse e viverem lá juntos quando ele, finalmente, deixasse a mulher.

O Zé Carlos achou muito giros os apartamentos e até foi com ela à Caixa de Espargos para saber se a Maria Rita precisava de fiador. Pelos vistos não. Os preços no Luxemburgo estão pela hora da morte. Ao que parece, todos os anos o valor de um apartamento aumenta não sei quantos por cento. Uma loucura! O apartamento que a Maria Rita tem em Beggen e que comprou com muito esforço e dedicação e a ajuda do Zé Carlos vale mais 25% do que ela pagou há três anos!

E graças à mais-valia que realizou, desta vez ela nem sequer precisa do esforço e da dedicação do Zé Carlos.


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