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Destino comum
Editorial Luxemburgo 3 min. 12.09.2019

Destino comum

Destino comum

Foto: REUTERS
Editorial Luxemburgo 3 min. 12.09.2019

Destino comum

A primeira visita à China (há quase duas décadas) proporcionou-me, obviamente, umas quantas surpresas interessantes. Uma delas foi a comida – deliciosa, variada e saudável –, outra a ausência de arquitectura tradicional em Pequim; tudo, ou quase tudo, é novo.

Também foi agradavelmente inesperado ouvir bastantes macaenses a falar (pelo menos algo de) português; esse espanto é maior ao saber que os chineses têm uma visão sino-centrista do mundo. Não é difícil encontrar ali um planisfério em que, em vez da habitual distribuição dos continentes com a Europa a meio, aparece uma China gigantesca bem no centro do planeta (e todos os outros, incluindo a vizinha Rússia, estão encolhidos para parecerem mais pequenos).

A China de hoje, apontada por muitos como a substituta dos EUA no papel de grande potência do século XXI, começa a comportar-se exactamente como tal. Há no país um gosto, quase uma obsessão, pelos recordes; ali tudo é “o maior” ou “o mais”. A título de exemplo: enquanto há países em que uma curta linha de metro ligeiro demora três décadas a terminar, Pequim (uma das quatro maiores cidades do mundo – duas das outras, Xangai e Xunquim, também são chinesas) inaugurou em um só dia de 2015 cinco novas linhas de metro que tinha construído em pouco mais de um ano, passando imediatamente a contar com a maior rede do mundo.

Com esta ambição e dinâmica, não admira que o passo seguinte tenha sido anunciado pelo líder do país, Xi Jinping, mal este chegou ao poder em 2013: um megalómano projecto de infraestruturas para ligar a Ásia à África e à Europa, vendido de forma quase cândida como “uma recriação das milenares rotas da Seda” mas visando precisamente recolocar o país bem no centro da economia global – e já não apenas nos mapas. Assim como o plano Marshall, no fim da Segunda Guerra, sublinhou que o centro de gravidade mundial se tinha deslocado da Europa para os EUA, também agora o plano chinês almeja derrubar a hegemonia americana. Os números são absolutamente impressionantes: no total, o Estado chinês deverá investir um milhão de milhões de euros (e já gastou um quinto desse valor) em estradas, linhas férreas, portos, edifícios públicos e etc. construídos em nada menos de 71 países diferentes tocando metade – metade! – de toda a população global. Tudo isto entra no âmbito de uma designação bastante confusa, “a Iniciativa Via e Estrada”, em que a primeira parte se refere a vias terrestres e a segunda a rotas marítimas.

Será chinês o financiamento do nosso destino comum?

Devemos levar a sério um plano com um nome tão estranho? Claramente, sim: o seu objectivo último é “conquistar” a Europa, o maior bloco comercial do mundo (pelo menos até ao Brexit). Mais um superlativo: há dois anos foi inaugurado o comboio directo mais longo do mundo, 12000 km a transportar mercadorias de Pequim a Londres – e se este dado soa vagamente inquietante, é talvez porque o seja mesmo. Afinal, como alguns analistas sussurram apontando para a nova base militar chinesa no Djibuti, os portos e vias férreas que servem para transportar mercadorias também podem servir para transportar soldados… A verdade inegável é que à medida que o plano se expande, também vão aumentando a influência e o poder da China sobre diferentes países – por enquanto os mais pequenos e pobres, mas no futuro talvez os restantes. Em março último, a Itália, apesar do seu governo populista de direita, foi a primeira grande economia europeia a embarcar na iniciativa liderada pelo partido comunista chinês, perante o desagrado evidente – e unânime – de Macron e Trump, de Berlim ou de Londres.

A China percebe que tem um problema de imagem, e lembrou-se que Hollywood sempre fez maravilhas como instrumento de marketing do “American way of life”; logo, acaba de estrear (na semana passada) um “blockbuster” propagandístico sobre a Via e Estrada, realizado por Martin Campbell, um neozelandês até aqui conhecido por fazer filmes de James Bond. O filme, sem aparente fio condutor, é composto por diversas histórias de vidas bafejadas pela generosidade chinesa. Só que até aqui as receitas têm sido péssimas – ninguém parece ter entusiasmo pelo tema, e isto apesar do título da obra ser inspirado na própria descrição que o presidente vitalício Xi Jinping faz do programa: “Uma comunidade de um destino comum para a Humanidade”. Mas se um nome tão celestialmente chamativo não é suficiente para convencer o mundo dos benefícios da iniciativa, um milhão de milhões de euros é bem capaz de ajudar. 

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