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Despertar dos latinos aos sábados de manhã
Luxemburgo 5 1 7 min. 15.10.2019

Despertar dos latinos aos sábados de manhã

Despertar dos latinos aos sábados de manhã

Foto: Tiago Figueiredo
Luxemburgo 5 1 7 min. 15.10.2019

Despertar dos latinos aos sábados de manhã

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Uma dupla divertida fala na rádio para todos os latinos de língua castelhana que vivem no Luxemburgo. Entre risos e músicas podemos ficar a saber mais sobre os imigrantes de Espanha e da América Latina hispânica que vivem no Grão-Ducado.
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 “Hoy es sábado y mañana domingo/La vida llega en olas como el mar./Los tranvías van por las vías”, cantava Vinicius de Moraes no “Dia da Criação”, na versão da música em castelhano.

Para os que falam castelhano pelo mundo, ou “hispanohablantes” do Luxemburgo há o programa “Despertar” que vai para o ar todos os sábados das 9:00 às 10:00 da manhã, apresentado por uma dupla bem humorada e com ironia na língua, constituída por uma espanhola de Malaga e um peruano de Lima, de seus nomes Irene Jimenez e Jonathan Diez. Passa desde 16 de fevereiro de 2019. Primeiro só com Irene e depois, em maio, aterrou Jonathan.

Irene tem 29 anos, vive no Luxemburgo desde a adolescência. Habita em Howald. Diz-se uma cidadã do mundo, parece a célebre canção do António Variações, “só estou bem onde eu não estou”, sendo que para Irene é o contrário, parece estar à vontade em todo o lado, embora se sinta permanentemente estrangeira. “Aqui sinto-me espanhola, mas quando estou em Espanha dou por mim a ser luxemburguesa”, diz com um sorriso irónico que raramente lhe sai dos lábios.

Estudou tradução e interpretação em Bruxelas. Aí apeteceu-lhe estudar Russo. Viveu dois anos em Moscovo para aprofundar a língua. “Vim-me embora porque faz demasiado frio para meu gosto”, comenta a sorrir de novo. Fala francês, russo e o seu idioma de Espanha. O luxemburguês é que é por enquanto mais difícil. Em casa sempre ouviu rádio, “não tínhamos televisão e estávamos sempre a ouvir rádio”. Em casa anda sempre de auscultadores em cima da cabeça: “estou sempre a ouvir algo, pode ser música ou até Podcasts de línguas”. Antes de leccionar línguas numa escola foi freelance, “tinha muito tempo livre e por isso propus à Rádio Latina fazer um programa em língua espanhola para as pessoas que vêm de Espanha e da América Latina”.

A vinda de Jonathan para o programa foi um acaso. Conheceram-se na escola de línguas na qual ambos trabalham. Ele foi convidado para uma entrevista, porque tem uma banda punk, e ficou. “Foi uma coincidência tipo romance do Paul Auster”, diz o peruano que é uma espécie de homem dos sete instrumentos. Jornalista, escritor, músico, homem da rádio, professor e “cozinheiro medíocre”, confessa. O que não o impediu de ter como primeiro emprego no Grão-Ducado trabalhar num restaurante peruano na cidade do Luxemburgo. “Estava em Milão em férias, com a minha irmã que lá vive, e um amigo que é chefe de um restaurante no Luxemburgo desafiou-me a vir para cá e assim foi”, relata.

No Peru teve uma vida agitada. Em jovem fez reportagem nas selvas do seu país e do Brasil. Gostava muito de fazer reportagem, mas também fazia jornalismo político e cultural. Hoje dá aulas de alemão e faz com Irene o “Despertar” na Rádio Latina. De vez em quando ainda colabora com jornais no Peru. O último texto que fez foi uma recensão crítica sobre o livro “4321”, de Paul Auster. “Um grande livro e não só por ter 800 páginas. É um pouco a história do século XX, através do relato da vida de um americano que fugiu da Rússia”, explica.

Quem são os “hispanohablantes” do Luxemburgo? Irene e Jonathan acham que não pertencem a uma única comunidade. Têm a língua como chão comum, mas são de países diferentes e pessoas de origens sociais distintas. “Os espanhóis que vieram para o Luxemburgo são sobretudo gente que veio trabalhar para as instituições europeias, penso que as pessoas da América Latina ocupam postos na sociedade luxemburguesa tendencialmente mais modestos”, defende Irene. “Como cozinheiros, pessoas que trabalham na construção”, acrescenta o peruano. “Embora essas pessoas quando não estão a trabalhar gostem de ouvir e conviver na sua língua nativa. Muitas vezes buscam espaços em que se possa ouvir a nossa música e a nossa língua”, conclui Irene.

O tango dança-se na horizontal?

“Tengo miedo del encuentro/Con el pasado que vuelve/A enfrentarse con mi vida/ Tengo miedo de las noches/Que pobladas de recuerdos/Encadenan mi soñar”, canta Estrella Morente, o famoso tema de Carlos Gardel “Volver”.

A música soa na edição do Despertar no qual são convidados o casal de professores argentinos de tango, Eugenia e Leo. O primeiro tema escolhido pela dupla espanhola e peruana fez franzir o sobrolho aos convidados, era o “Adios muchachos”. Leo e Eugenia acharam que era demasiado caricatural para ser boa música. Era uma espécie de touro Osborne ou Galo de Barcelos do tango, bom só para turistas.

Jonathan com o habitual olhar provocador coloca a questão do dia: “O que é o tango?” Irene reage: “o Jonathan é muito filosófico, aqui as perguntas tontas só faço eu”.

Leo e Eugenia conheceram-se há muitos anos na Argentina. Bailaram juntos. Mas só tempos depois se tornaram um casal, já tinha Leo emigrado. “A princípio foi difícil. É sempre duro abandonar os teus lugares, os teus amigos e os teus amores. Quando parti não pensei que partia, apenas que ia viajar, depois dei-me conta que já estava noutro mundo e pouco a pouco fui assumindo novos compromissos”, conta Leo.

Eugenia juntou-se a Leo um ano depois. Estão há 25 anos fora da Argentina. Passaram 16 anos em Espanha, país de onde saíram quando a crise começou. “De repente as pessoas começaram a cortar nas despesas e nós que tínhamos muito trabalho, vimo-nos com crianças e uma casa para pagar”, recorda Eugenia.

Foram para Itália, para o sul do país. Começaram a dar aulas duas vezes por semana também no Luxemburgo. “Era uma canseira, viajávamos todas as semanas, os nossos amigos já não sabiam onde nos encontrar”, relata Leo. Quando, depois de uma viagem de trabalho à Argentina, regressaram, encontraram a casa, que ficava entre a montanha e o rio, completamente alagada. “Pareceu-nos um sinal para nos irmos embora”, assinala Eugenia. Das poucas coisas que conseguiram salvar da inundação foi uma fotografia da capa de um livro de Manuel Vázquez de Montalban, “Quinteto de Buenos Aires”, em que os dois aparecem num sensual movimento de tango.

“No tango um guia e o outro é aparentemente guiado, mas existe um processo de sedução e conquista que é feito a dois”, explica Eugenia contestando que esta dança seja obrigatoriamente machista. “Quem é machista na vida é machista na dança, uma mulher que é mais dominadora na realidade também se traduz na dança”, explica Leo.

A pergunta se a dança é uma projeção na vertical do que se costuma fazer na horizontal, faz o casal rir. “Isso dizia-nos Julio Iglesias, quando trabalhávamos como bailarinos nos seus espetáculos”, comentou Leo. “Pode-se dizer isso, mas também se pode dar a definição clássica do ‘tango é um sentimento triste que se baila’. Para falar verdade ele expressa o que sentimos no momento”, conclui.

Hoje, Eugenia e Leo dividem-se a dar classes de tango entre Luxemburgo, Nanci e Metz, onde habitam.

Má dançarina e a reabilitação da pélvis

Como não só de tango vive a dança, Irene tenta bailar salsa, na Brasserie Cubana. “O professor, Toni, diz que não sei dançar, mas com muito trabalho e uma enorme paciência dele ainda conseguirei qualquer coisa”, ri Irene. É na Bresserie Cubana que encontra Ana Carmona a dançar. “Começamos a falar e ela disse-me: ‘sabes que faço reabilitação da pélvis’, e fugiu para dançar, o que me levou a ir atrás dela para a convidar para o programa”, conta Irene.

Ana chegou ao Luxemburgo pelo caminho de Santiago. Não foi propriamente para pagar uma promessa, mas por convite de um amigo que encontrou por esses caminhos. “Tratei dos papéis. Mas quando cheguei o amigo já cá não estava, mas resolvi ficar na mesma”. Vive em França, perto da fronteira do Luxemburgo. “O meu trabalho é sobretudo em Petange. Fica perto. E as rendas são mais acessíveis. Aqui no Luxemburgo elas são incomportáveis para a maioria das pessoas que trabalha. Ao contrário de Berlim, onde a municipalidade e o Estado expropriaram casas a grandes proprietários para garantir preços acessíveis, aqui o governo não faz nada para resolver o problema”, protesta Ana Carmona.

Não sente um problema linguístico. “A maior parte dos meus pacientes são portugueses”, ri. “Falamos com quase toda a gente em francês, e em inglês para alguns dos que costumam falar alemão”, explica.

Divide o seu tempo no trabalho e com amigos, maioritariamente espanhóis e imigrantes. “Temos um grupo de teatro. Recentemente fizemos uma série de coisas para denunciar a violência contra as mulheres”, conta. Confessa sentir-se mais segura onde vive atualmente do que em Madrid. “Na minha terra, a determinadas horas e em determinados lugares tinha medo de circular. Aqui tudo me parece mais calmo”, garante.

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