Escolha as suas informações

Desobediência climática à moda do Luxemburgo
Luxemburgo 4 min. 30.05.2019

Desobediência climática à moda do Luxemburgo

Desobediência climática à moda do Luxemburgo

Foto: Guy Wolff
Luxemburgo 4 min. 30.05.2019

Desobediência climática à moda do Luxemburgo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Cerca de dois mil jovens manifestaram-se nas ruas da cidade do Luxemburgo a dois dias das eleições europeias.

Sabe-se que se está numa manifestação no Luxemburgo por algumas particularidades próprias locais, pelo menos para um latino habituado a demonstrações em outras latitudes: os manifestantes começam a chegar 20 minutos antes da hora, dirigem-se pacatamente pelo passeio para o local de concentração e param em todos os sinais vermelhos das passadeiras, mesmo que não estejam a passar os carros. Foi pelo menos isso que um grupo de uma centena de estudantes fez , quando saiu do funicular e se dirigiu às escadarias da Philharmonie em que se iam juntando centenas de jovens. Félix, 17 anos, vem neste grupo, eles e os amigos levam um panda de peluche como cartaz. Explica rapidamente as razões que o fizeram aderir a esta greve ambiental: “É preciso demonstrar aos políticos que a juventude quer mudar as coisas e que isso é fundamental para garantir que haja mesmo futuro. Sem se conseguir mudar em termos ambientais. Nada disso é possível”.

Para ele, até agora os governos não fizeram quase nada, porque não havia “movimento suficiente nas ruas”. A sua participação nas duas greves ambientais teve consequências políticas e alterou mesmo o seu comportamento pessoal. “Desde da última manifestação, passei a comer muito menos carne”. Quando confrontado se o problema do ambiente tem que ver com o sistema ou com os comportamentos individuais, responde de uma forma equilibrada: “É um problema global, tem que ver com o sistema que vivemos, mas isso também se muda por decisões individuais, elas passam por estar aqui, mas também por ter comportamentos que defendam o ambiente”.

A multidão já ultrapassa um milhar de pessoas. Desta vez, o Ministério da Educação não deu dispensa aos estudantes. A organização do protesto afirmou não ter pedido autorização para a manifestação e pretender radicalizar o protesto, fazendo uma ação de desobediência civil.

No cimo das escadas, seguem-se as intervenções que informam o que está previsto fazer. As ações vão começar por uma tentativa para paralisar o trânsito na ponte vermelha que liga Kirchberg ao centro da cidade do Luxemburgo.

Passa uma rapariga da organização que distribui um folheto pequeno, para guardar nos bolsos, intitulado “If (E)U Don’t Move, We Won’t Move!”. O folheto é em inglês, até agora todos os discursos foram em inglês e quase todas as palavras de ordem foram gritadas nessa língua. O papel explica o que é uma ação de desobediência civil, quais são os riscos legais, o que fazer em caso de detenção, e dá o número de telefone dos advogados que apoiam os ativistas envolvidos na ação. As pessoas ficam a saber que podem legalmente ser detidas, sem ser presentes a um juiz, até 24 horas.

Na tribuna improvisada um dos organizadores pede às pessoas que não façam nenhum ato violento. “Não queremos violentos aqui”, garante.

Uma rapariga posa para as câmaras dos jornalistas com um cartaz que garante que “os dinossauros também pensavam que tinham tempo”. Um rapaz passeia um cartaz em que reutiliza, comportamento tão ecológico, um slogan de outras latitudes, assim como se recicla o lixo: “Make the Earth Greate Again”. “Estamos aqui pelo futuro, isso é importante para nós, até porque os adultos visivelmente não estão a ligar a isso. Pretendemos ter impacto sobre estas eleições”, explica Matisse de 14 anos, o portador do cartaz.

Uma das jovens do grupo que organiza esta ação diz ao Contacto que a data escolhida para as manifestações em muitos países não é um acaso: “Queremos que todo o mundo saiba que estas são umas eleições climáticas. As pessoas têm que ter o clima na cabeça quando estiverem a votar”. Selma Vicent, 16 anos, garante também que se a data foi escolhida, o espaço da demonstração também: “Aqui em Kirchberg está o Banco de Investimento Europeu. É preciso que eles nos oiçam e saibam que não queremos que eles invistam em formas de energia não renováveis, como as energias fósseis, porque isso vai causar a perda da vida no planeta”.

Os ativistas exigem que o Governo do Luxemburgo declare o estado de emergência climática. “Não vamos desistir. Já marcamos, para setembro, uma semana de greve climática em todo o mundo”, informa a ativista.

Paulatinamente os manifestantes vão caminhando para a ponte sob o olhar vigilante dos polícias que os dirigem de forma a poderem apenas ocupar uma das faixas de circulação. À medida que avançam, vão tentando interromper o trânsito , ocupando a outra faixa. Tudo isso até chegar um polícia a sorrir que lhes pede para saírem, coisa que eles rapidamente obedecem até o polícia se ir embora. É um jogo que se prolonga até a demonstração acabar. Sem violência. Sem detidos. E com o trânsito a passar calmamente. Com tempo para o oficial responsável da polícia dar uma espécie de conferência de imprensa a meio da ponte. Em setembro a luta continua.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

Milhões marcharam pelo ambiente (fotogaleria)
O Comité das Nações Unidas para os Direitos das Crianças saudou a participação de crianças de todo o mundo nas manifestações de luta contra as alterações climáticas, apoiando que "as suas vozes sejam ouvidas e levadas em conta".