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Descurar língua materna pode provocar patologias da fala em crianças portuguesas
Luxemburgo 6 min. 25.05.2016 Do nosso arquivo online
Entrevista

Descurar língua materna pode provocar patologias da fala em crianças portuguesas

Entrevista

Descurar língua materna pode provocar patologias da fala em crianças portuguesas

Luxemburgo 6 min. 25.05.2016 Do nosso arquivo online
Entrevista

Descurar língua materna pode provocar patologias da fala em crianças portuguesas

Descurar a língua materna pode prejudicar o sucesso escolar, mas também originar patologias que obrigam as crianças portuguesas no Luxemburgo a frequentar terapeutas da fala. Metade dos portugueses que passam pelo consultório da ortofonista Ângela Ferreira sofrem de atrasos na linguagem: têm um vocabulário tão pobre que não conseguem nomear as frutas mais conhecidas ou contar o que fizeram durante o dia.

CONTACTO - A Universidade do Luxemburgo lançou um projecto para reforçar o português no precoce, porque os investigadores concluíram que as crianças tinham um vocabulário muito pobre, que depois dificulta a aprendizagem do luxemburguês. Pelo seu consultório passam muitos casos de crianças nesta situação?

Ângela Ferreira (ortofonista) - Sim. Têm um vocabulário muito pobre. Nas frutas, há crianças que nem reconhecem a laranja ou o pêssego, que é uma fruta comum. É um vocabulário muito restrito: maçã, banana... A maior parte das vezes não sabem nomear a maioria das frutas, como a uva ou o kiwi.

Estamos a falar de crianças com que idade?

A maioria entre os três e os seis anos. Os professores também me contactam muitas vezes para ver se eu em português noto a mesma falta de vocabulário que eles notam em luxemburguês. O trabalho é feito em português. Se eles não sabem em português, como é que vão saber em luxemburguês? A não ser que a criança tenha sido muito estimulada em luxemburguês desde a creche, e reconheça [as frutas] em luxemburguês e não em português.

Mas isso é menos problemático do que não saber de todo?

É. As crianças multilingues têm sempre um vocabulário mais reduzido, mas o que eu vejo é que têm um vocabulário muito, muito pobre. E eu tenho crianças também da Escola Europeia, e a diferença é notória: o português está muito mais presente.

O facto de as crianças na Escola Europeia serem mais estimuladas na língua materna facilita a aprendizagem de outras línguas?

Sim, claro que sim. A língua materna deve ser bem estimulada e aprendida, para depois conseguirmos usar as outras. As outras vêm por acréscimo. Se eu não souber bem a minha língua, muito provavelmente vou ter um défice na outra, ou não vou saber dizer determinada palavra na outra língua, vou andar à volta. Em vez de nomear directamente uma coisa, tesoura, por exemplo, vou dizer "é para cortar, é para o papel".

É curioso, porque há pessoas que pensam que a língua materna ocupa espaço e impede a aprendizagem de outras línguas.

Facilita, e os estudos apontam cada vez mais para isso. Mesmo no Ministério da Saúde, procuram-me a mim e a outras ortofonistas portuguesas, porque sempre que podem fazem o trabalho primeiro com a criança em português. Só que nem sempre os pais percebem isso. Muitas vezes a estrutura frásica não é suficiente e falta vocabulário. A maioria das crianças que eu tenho têm muita dificuldade em contar a rotina diária: "Levantei-me, tomei o pequeno-almoço, lavei os dentes", essas palavras falham muitas vezes. E isto em crianças sem nenhuma patologia extra, como problemas genéticos.

A que é que atribui essa pobreza de vocabulário?

É multifactorial. Passa também pela vida corrida que os emigrantes levam aqui, e acabam por não ter muito tempo quando chegam a casa. Depois são os telemóveis e os 'tablets' que acabam por entreter as crianças a maior parte do tempo. É preciso sentar ao pé da criança, falar, brincar, contar o dia, contar histórias, fazer repetir, puxar por eles. E falar português, porque se falarmos português em casa é a língua materna que estamos a treinar, e a criança quando chega à escola tem tempo e plasticidade cerebral suficiente para aprender outras línguas, e vai aprendê-las mais facilmente. Muitas vezes os pais acham que se falarem luxemburguês ou francês mais cedo a criança vai integrar-se mais facilmente na escola, e põem desenhos animados em alemão ou em francês, e depois acaba por ser uma confusão na cabeça das crianças.

E quando os pais têm duas nacionalidades?

Quando a mãe é portuguesa e o pai é francês, por exemplo, se cada um dos pais lhe falar na sua língua, a criança percebe ambos e não mistura.

Há cada vez mais pais portugueses que dizem que falar português em casa já é suficiente e não inscrevem os filhos nos cursos de língua portuguesa. É dessa opinião?

Não, sou da opinião que devem. Já tive vários pais a perguntar-me o que é que eu achava, e eu aconselho a frequentarem os cursos de português. Quando a consciência fonológica está bem, é mais fácil aprender outras línguas. Há muitas crianças com problemas de dislexia, que não andam nas aulas de português, e depois os pais não têm como as ajudar, porque não falam outras línguas.

Que percentagem de crianças tem com pobreza de vocabulário?

Metade.

Esses casos seriam evitados se falassem mais português?

Sim. A língua materna tem de ser bem desenvolvida.

Descurar a língua materna pode então trazer patologias?

Sim, e se não forem detectadas precocemente torna-se mais difícil. Eu tenho algumas professoras que estão preocupadas e me ligam, porque a criança não consegue aprender luxemburguês. Eles insistem muito, também, querem logo que a criança aprenda a língua em seis meses, quando o ensino, a chamada Spielschoul, nem é obrigatório. E muitas vezes, quando vamos ver, o défice está na língua portuguesa.

Estamos a falar de que tipo de patologias?

Atraso da linguagem, que depois se pode converter aos cinco, seis, sete anos, em  perturbação específica da linguagem, que tem a ver mais com a semântica.

Esta semana soube-se que não vai haver turma de português no primário na Escola Internacional de Differdange, por falta de inscritos.

Pois. A maioria das pessoas acha que o português não é útil, quando há imensos estudos e mesmo apelos aqui para estimular a língua materna.

Ainda há professores que dizem aos pais para não falarem português em casa?

Sim, sei de professores que dizem para os pais falarem em luxemburguês com os filhos. E eu digo-lhes que não, que têm de falar na língua que conhecem.

Quando tem uma criança com pobreza de vocabulário, o que é que faz com ela?

Jogos, brincar. Nomeação, de maneira lúdica: a fruta, os legumes... E tem de se trabalhar a memória, também, para conseguirem memorizar. Muitas vezes peço aos pais para abrirem o frigorífico e pedirem à criança para trazer os legumes para a sopa, ou envolverem-na nas compras: pedir-lhe para pôr a fruta no saco e aproveitar para nomear.

Tem muitas crianças portuguesas nas consultas?

Tenho lista de espera, é uma realidade.

Paula Telo Alves


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