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Desculpe, minha senhora
Opinião Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

Desculpe, minha senhora

Desculpe, minha senhora

Opinião Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

Desculpe, minha senhora

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Depois de tanta conversa sobre humidade e frio, hoje alguma coisa me disse que devia falar de neve.

Na semana passada decidi falar do frio em Portugal e de como nós, emigrantes, sofremos ainda mais quando vamos lá no inverno pois já não estamos habituados aquela humidade atlântica e aos edifícios sem aquecimento.

Como sempre, partilhei o meu artigo no Facebook e, de repente, aconteceu aquilo que tantes vezes acontece nas redes sociais: alguém se irritou.

Uma senhora decidiu que a utilização da palavra emigrante era depreciativa, e coisa e tal. Achei graça e decidi explicar-me, mas não continuei a participar na batalha que muitos dos meus amigos (obrigado!) continuaram. Aqui ficam as minhas desculpas, minha senhora, se a choquei com o uso da palavra emigrante.

Entretanto, sobre o mesmo artigo, outro Porto-Benfica começou: há quem ache que as casas em Portugal não são frias. E há quem ache que é tudo tiopatinhismo dos seus donos, que não querem gastar dinheiro para as aquecer. Mas é curioso como, no calor do debate, as posições se extremam e gente inteligente perde de vista a única coisa que eu queria dizer: que a humidade no litoral português é brutal e que a grande maioria das casas (e locais públicos) não têm os meios para combater essa humidade que resulta em frio de rachar. E que nós, emigrantes (desculpe, minha senhora), sentimos o frio na pele porque estamos desabituados.

Depois de tanta conversa sobre humidade e frio, hoje alguma coisa me disse que devia falar de neve. Talvez o facto de terem caído uns flocos? Talvez? E também pelo fascínio que a queda de neve exerce sobre nós emigrantes (desculpe, minha senhora), mesmo quando o convívio com o manto branco seja já antigo.

Eu já vivo no Luxemburgo há tempo que chegue para não o dizer. Cheguei ao grão-ducado quando ainda nevava a sério. Os mais antigos emigrantes (desculpe, minha senhora) recordarão que, no século passado, este país registava temperaturas invernais a sério – abaixo de 10 graus negativos – e muitas vezes havia nevões de vários dias que deixavam o Luxemburgo em estado de sítio.

Há uns bons vinte anos que isso não acontece. E foi exatamente há dez invernos que, num dia de dezembro, o Luxemburgo parou por causa de um nevão inesperado e de grandes dimensões. Pessoalmente, estive quatro horas parado no centro da cidade e decidi entrar num restaurante, como se estivesse numa expedição de montanha, como quem entra num albergue a 3.500 metros de altitude. E fui recebido como se fosse o caso, como se estivéssemos em estado de emergência: hoje não temos ementa, estamos a servir salmão grelhado com puré a todos dos clientes.

O país estava parado, e muita gente procurou refúgio nos restaurantes esperando que a situação melhorasse. Houve quem dormisse no escritório onde trabalhava ou em casa de amigos.

Mas este tipo de extremos meteorológicos é coisa rara no Luxemburgo há bastante tempo. E ainda bem. A neve só tem graça nas montanhas ou quando estamos em casa e não temos de sair para fazer absolutamente nada nos próximos dias, esperando que ela derreta.

Um português emigrante (desculpe, minha senhora) como eu, que aprendeu a conduzir em Portugal, considera que o mais escorregadio que uma estrada pode ficar é no outono depois de uma chuva miudinha. Por isso, emigrar (desculpe, minha senhora) para um país com neve nas estradas pode ser ou divertido ou dramático.

O meu amigo Carlos sempre considerou que a neve era um divertimento. Sempre que caiam uns flocos, ia procurar o parque de estacionamento mais próximo para fazer uns piões. E depois íamos até ao centro da capital, descendo muitas vezes do Kirchberg para o centro da cidade com o carro de lado, esperando que a divisória central da ponte vermelha travasse o automóvel sem estragar a carroçaria e sem partir um eixo.

Eu faço parte dos automobilistas emigrantes (desculpe, minha senhora) que quando têm de conduzir numa estrada coberta de neve e que ficam, inclusivamente, com os joelhos a tremer.

Uma das minhas primeiras – e traumáticas – experiências foi um trajeto matinal para o trabalho entre Bertrange e a Gare. Na minha defesa tenho de começar por dizer que tinha um carro de tração traseira sem absolutamente nenhuma ajuda eletrónica e que não tinha pneus adaptados. Acresce o facto de a neve ter começado a cair brutalmente duas horas antes, sem parar, tendo criado um tapete altíssimo.

Nas ruas residenciais de Bertrange, devagarinho, ainda me fui sentindo como o meu amigo Carlos, divertido, deixando o carro derrapar numa e noutra curva. Mas chegado à route de Longwy, no meio do trânsito, e com dificuldades para arrancar nos semáforos, comecei a preocupar-me, até porque os outros automobilistas não apreciavam o facto de eu demorar uns segundos a mais a retomar a marcha. Esses segundos pareciam-me a mim eternidades, como quando deixamos o carro ir abaixo no momento de arrancar...

À medida que ia avançando, o pânico aumentava. Será que vou conseguir descer aquela rua sem perigo? Será que na curva o carro não vai fugir de traseira? Será que alguém vai parar no cruzamento e depois eu não vou conseguir arrancar?

Desesperado por todos estes pensamentos, e observando o meu entorno em 360 graus como uma mosca, reparei que atrás de mim vinha um autocarro. E que dizia Gare Centrale. E se eu o apanhasse? Mas que fazer com este carro que se tornou um empecilho? Nem é tarde nem é cedo: amando-me para cima do passeio e deixo o automóvel num espaço livre que poderia ser ou não estacionamento autorizado. Já me imaginava a dizer: oh senhor guarda, eu sou emigrante (desculpe, minha senhora), não estou habituado à neve e com esta camada nem sequer se vêem as marcações no chão...

Meti-me no autocarro e fui para o trabalho a pensar que o meu próximo veículo teria obrigatoriamente tração às quatro rodas.

Eu devia estar branco como a neve com os nervos. Todos os meus colegas, à chegada ao trabalho, me perguntaram se estava bem. Contei a todos a minha aventura. Disse-lhes como quase tinha morrido ao subir a route de Longwy, naquele cruzamento perigosíssimo onde os carros escorregavam para trás e para os lados. E depois nos semáforos, havia um táxi todo de lado que não conseguia avançar. E que eu ainda tinha os joelhos a tremer só de ver toda esta neve.

Neve, que neve?, disse o meu amigo Vesa, um emigrante (desculpe, minha senhora) originário da Finlândia. Ó Raúl, isto não é neve, não caíram nem 10 centímetros!

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