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Deputada belga contra requisição de enfermeiros transfronteiros do Luxemburgo
Luxemburgo 6 min. 23.10.2020

Deputada belga contra requisição de enfermeiros transfronteiros do Luxemburgo

Deputada belga contra requisição de enfermeiros transfronteiros do Luxemburgo

Luxemburgo 6 min. 23.10.2020

Deputada belga contra requisição de enfermeiros transfronteiros do Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Catherine Fonck alertou num tweet polémico sobre a contratação de enfermeiros belgas pelo Grão-Ducado, quando há cuidados intensivos a fechar no seu país por falta destes profissionais. Em declarações ao Contacto pede para uma "maior colaboração" entre os dois países.

“Sr. Primeiro-Ministro Alexander De Croo. Os enfermeiros dos nossos hospitais são recrutados pelo Luxemburgo, com base em contratos atrativos. Isto penaliza os nossos hospitais. Algumas camas já estão a ser fechadas. Obrigado pela sua intervenção urgente junto das autoridades do GDL! #covid19”, escreveu a deputada belga Catherine Fonck no Twitter dia 17.

“Sim. Não pretendo ficar sentada a ver as unidades de cuidados intensivos fecharem e depois só me restar olhar para os números de mortes. A casa está a arder”, declarou em resposta a um internauta que lhe lembrou que estes profissionais têm o direito de escolher ser pagos “decentemente”, e para a Bélgica aumentar os salários.

O tweet da deputada do Parlamento belga, líder do Centro Democrático Humanista (cdH) na Câmara de Representantes, incendiou as redes sociais e lançou a polémica sobre a urgência de enfermeiros numa altura em que a Bélgica se debate com o número mais elevado de infeções até agora registado.

Em declarações exclusivas ao Contacto Catherine Fonck explica que o seu tweet polémico foi mal-interpretado e que não pediu ao primeiro-ministro belga para impor a requisição dos enfermeiros residentes no seu país que trabalham no Luxemburgo.

“Sou contra estas requisições destes profissionais e já na primeira fase da epidemia me manifestei contra esta medida que o governo penso em tomar. A minha declaração no Tweet foi mal-interpretada. O que eu defendo é uma maior colaboração entre os nossos dois países ao nível dos cuidados de saúde a começar nesta altura gravíssima da doença e que se prolongue depois da pandemia”, explicou ao Contacto esta deputada, que é médica de formação.

Catherine Fonck está alarmada com a evolução do vírus na Bélgica, que só na quinta-feira fez mais de 10 mil novas infeções e está a deixar os hospitais “saturados” e em situação crítica. “A falta de enfermeiros é um dos graves problemas”, vinca.

"Há cuidados intensivos a fechar"

“Já há unidades de cuidados intensivos dos nossos hospitais que fecharam por falta de enfermeiros e isso não pode acontecer. Fechar estes serviços significa colocar os doentes em perigo de vida. Os internamentos de doentes covid-19 nestas unidades são elevados e continuam a aumentar”, alerta esta deputada sublinhando que que o “sistema de saúde precisa de mais profissionais urgentemente”.

“Os números galopam a uma grande velocidade e a prioridade absoluta é não chegar à situação em que temos de escolher quem tratar”, tal como aconteceu na Itália na primeira fase da epidemia, diz.

“Temos de reagir já e tomar medidas fortes para evitar que o pior aconteça. É a prioridade absoluta”, pede.

Perante a falta de recursos humanos na saúde, nomeadamente de enfermeiros Catherine Fonck sugere ao seu governo que se apresse a “recrutar enfermeiros que já não ativos que possam agora reforçar os hospitais e lares em todas as estruturas da saúde”.

Hospitais belgas sobrelotados

Neste momento, há hospitais belgas que já estão a transferir doentes covid-19 para outras regiões, porque a “situação é diferente de região para região ao nível de casos e recursos”. E como aconteceu no Grand Est francês na primeira fase da epidemia pode haver necessidade de transferir doentes para hospitais dos países vizinhos, nomeadamente para o Luxemburgo. Ou vice-versa.

“Poderemos agora vir a precisar da colaboração do Grão-Ducado ou da Alemanha e daqui a uns tempos serem os nossos vizinhos a precisar da nossa colaboração. Deve existir uma verdadeira cooperação entre países”, precisa Catherine Fonck.

Neste momento, a deputada federal já contactou a Comissão Corona, grupo que na Bélgica faz a gestão da epidemia para iniciar diálogo com o Luxemburgo para intensificar a colaboração nesta crise pandémica. “Tem de existir uma forte cooperação e não concorrência entre os hospitais e de modo mais geral na forma como se organiza a saúde nesta grande pressão da pandemia, os pacientes estão em primeiro lugar”.

 “A Bélgica e o Luxemburgo e a Alemanha têm de lutar juntos, lado a lado contra a covid-19. Os números já são alarmantes e podem piorar”.

Para resolver a falta de enfermeiros, a líder do cdH na Câmara dos Representantes defende que a Bélgica tem de tornar a profissão mais atrativa, rever os salários, as condições fiscais que são mais baixos do que os do Luxemburgo e melhorar as condições de trabalho desta classe.

Contra o fecho das fronteiras

Catherine Fonck defende a livre circulação de pessoas na Europa”: “Sou contra o fecho das fronteiras, assim me manifestei quando a Bélgica fechou as fronteiras por causa da pandemia. O vírus não recua nas fronteiras”.

“A cooperação é crucial neste momento tão grave da epidemia, e entre Bélgica e o Luxemburgo já houve colaborações positivas, mas há muito mais a ser feito. Podemos antecipar juntos problemas, prevenir e resolver problemas mais precocemente”, concluiu.

O êxodo dos enfermeiros para o Luxemburgo

 “Já este ano de 2020, 25 enfermeiros da intermunicipal Vivalia foram trabalhar para o Grão-Ducado. E 57% das demissões no ano passado foram pela mesma razão. Este ano estamos a 62,5%”, enumera ao jornal Le Soir Bénédicte Leroy, a diretora do departamento de enfermagem da empresa intermunicipal que gere os serviços hospitalares nos municípios belgas. Trata-se de um fenómeno que se intensificou nos últimos três a quatro anos, diz esta responsável.

O salário muito mais elevado é a principal razão. "As pessoas que costumavam trabalhar a tempo inteiro no nosso país podem, por exemplo, dar-se ao luxo de lá trabalhar a tempo parcial e ainda ganhar mais", realça Bénédicte Leroy.

"E não há nada que possamos fazer quanto a isso. Além disso, estão a exercer muita pressão para encurtarmos os pré-avisos. Decidimos agora parar de libertar pessoal mais cedo", acrescenta esta responsável sabendo que a questão é de difícil resolução porque a Bélgica não consegue equiparar os salários com o Grão-Ducado.

Além de que, sublinha, a questão é sensível e quase impossível combater este êxodo, devido à mobilidade dos trabalhadores na União Europeia. "Temos de ter cuidado porque em Arlon, 30% do nosso pessoal é francês”.

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