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De Limpertsberg vê-se a imortalidade de Bowie
Opinião Luxemburgo 3 min. 21.01.2023
A fava

De Limpertsberg vê-se a imortalidade de Bowie

Opinião Luxemburgo 3 min. 21.01.2023
A fava

De Limpertsberg vê-se a imortalidade de Bowie

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Já não se fazem artistas como Bowie – e talvez ele nunca nos faça tanta falta como agora.

Eram os anos da Liz e tínhamos combinado encontro para celebrar num bar de Limpertsberg. Agenda marcada para as 20h30, o que significa que ninguém chegou antes das 21h15. Mas aconteceu uma coisa engraçada. Quando chegámos, os altifalantes tocavam o "Absolute Beginners", do David Bowie. 

Três horas antes, uma parte do grupo tinha-se encontrado no bar onde costumamos ir no centro e a mesmíssima cantiga havia saudado a reunião. Tenho a impressão de ainda ter ouvido o "The Jean Genie" e o "China Girl" na playlist. E tenho a certeza absoluta de que ainda passou o "Heroes" no clube onde acabámos a noite.

Bowie não foi só um artista, foi uma forma de expressão para gerações inteiras que queriam desafiar as normas.

Ouvir tanto Bowie na mesma saída noturna soa a sinal do além. A semana passada, aliás, cumpriram-se sete anos da sua morte. Mas tenho a impressão de que o cantor britânico continua a parecer estar tão presente neste planeta como se estivesse vivo e a dar concertos por todo o lado. Na noite em que ele ascendeu às estrelas, lembro-me bem, chamaram-me do jornal para escrever o seu obituário. E eu passei o dia todo a fazer aquilo com um peso-pesado no peito. Bowie não foi só um artista, foi uma forma de expressão para gerações inteiras que queriam desafiar as normas.

Ele começou por ser o Ziggi Stardust andrógeno que chegou do espaço sideral para mudar a Terra. Foi o louco Aladdin Sane que pintava um raio no rosto e atirava loucura para o meio da normalidade dos dias. Foi o Halloween Jack que meteu uma pala no olho e transportava a estética d'A Laranja Mecânica para o mundo inteiro. E depois foi o Thin White Duke, que passava as vibrações do funk e não escondia a dependência da cocaína. Personagens imaginadas para pôr em causa todas as convenções e tudo o que soasse a politicamente correto.

Já não se fazem artistas como Bowie – e talvez ele nunca nos faça tanta falta como agora. A cultura de cancelamento é uma realidade. Vemos políticos, artistas, cantores, produtores e atletas a serem julgados em tribunais de opinião pública que às vezes têm razão e outras vezes não têm razão nenhuma. E, acreditem em mim, não tenho nada contra alguém lutar pelos seus direitos, sobretudo quando se sente oprimido. Mas a demonização dos comportamentos está a tornar-se perigosa – e há relatos de gente a ver vidas inteiras destruídas por pura insinuação.

Venham mais Bowies, venham mais escritores como Hunter S. Thompson – que um dia se candidatou a xerife de Aspen, no estado norte-americano do Colorado, e quase ganhou a promessa de punir os traficantes que vendessem droga de má qualidade – e que venha mais gente trazer um pedaço de infâmia, de ambiguidade, de paradoxo para cima da mesa. É isso que nos torna humanos. E é isso que nos torna sobre-humanos, também.

E é por isso que David Bowie viverá para sempre. Porque era infame e absurdo – e isso só mostra que ele não era realmente deste mundo, era maior do que ele. Há um facto que prova isso para além de qualquer dúvida: o único videoclipe alguma vez feito fora do planeta Terra foi precisamente uma versão de "Space Oddity", de Bowie – que o astronauta canadiano Chris Hadfield gravou a bordo da Estação Espacial Internacional. E, seja numa noite em Limpertsberg ou numa nave que circula fora da atmosfera, parece-me bastante certo perceber isto: David Bowie viverá para sempre.

(Grande Repórter)

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