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De Kirchberg a Nova Deli, passando por Lisboa, um olhar sobre a Índia

De Kirchberg a Nova Deli, passando por Lisboa, um olhar sobre a Índia

Foto: DR
Luxemburgo 11 min. 07.09.2018

De Kirchberg a Nova Deli, passando por Lisboa, um olhar sobre a Índia

Jessica Lopes nasceu no Luxemburgo, filha de pai transmontano e de mãe siciliana, mas mudou-se para Lisboa em 2014, onde fez parte da direção da Associação Solidariedade Imigrante (SOLIM), uma organização política que se bate pelos direitos dos estrangeiros. Um caminho que a levou à Índia, onde está a estudar na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Deli. Um texto na primeira pessoa, um dia depois de a Índia ter despenalizado a homossexualidade.

Foi aos 17 anos que tropecei pela primeira vez na Índia. Foi a minha professora Madame Carmes que me contou as primeiras histórias desse país. Adorava as aulas dela de Conhecimento do Mundo Contemporâneo, na minha escola do Luxemburgo. A minha professora era uma mulher inteligente que parecia já ter viajado pelo mundo inteiro. Falava da Índia com paixão, enriquecendo a matéria com a sua própria experiência. Ensinou-nos que a Índia é a maior democracia do mundo e que conquistou a independência aos últimos colonizadores britânicos em 1947. Também nos falou sobre o sistema de castas, que dividia as pessoas de forma hereditária em quatro grupos sociais. Além desses, havia ainda os sem-casta, designados por intocáveis ou párias. Em 1950, foi proibida a discriminação em função de castas e há hoje políticas de afirmação positiva para criar oportunidades para pessoas de grupos que enfrentaram uma opressão histórica. Falou-nos também de Mahatma Gandhi, Jawaharlal Nehru e Indira Gandhi.

Depois li o livro “Orientalismo”, de Edward W. Said, no meu primeiro ano de licenciatura. O autor definiu orientalismo como uma maneira de ver as coisas que enfatiza, exagera e distorce as diferenças das culturas orientais em relação à Europa e aos Estados Unidos. O Oriente é visto como uma cultura exótica, retrógrada, incivilizada e mesmo perigosa. Esse livro despertou em mim a vontade de questionar os meus próprios preconceitos. Todo o meu fascínio por países distantes, e em especial pela Índia, pareceram-me de repente clichés. Senti que precisava de amadurecer a minha relação face ao Outro. Foi nessa altura que descobri pela primeira vez que gostava da escola. Em vez de sufocar com um programa rígido, podia concentrar-me em tópicos que me interessavam. Ganhei curiosidade em perceber como funciona a sociedade, e sem muita ordem nem lógica, comecei a ler as grandes teorias das ciências sociais. Foi uma altura emocionante em que ganhei novas lentes para olhar para o mundo e percebê-lo melhor.

A Índia voltou a ser um tema de reflexão quando me interessei pelo colonialismo e a história de Portugal. Já tinha algumas bases. Sabia por exemplo onde os portugueses tinham estado: bastava recordar aquela música dos Da Vinci, cantada nas festas de verão, quando ia a Portugal de férias: “Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, Angola e Moçambique, Goa e Macau, ai fui até Timor, já fui um conquistador”. Essa nostalgia de quando Portugal era um país poderoso, dono de metade do mundo, deixou-me desconfortável, e de forma instintiva nunca gostei dessa canção.

Lisboa, imigrantes e a descoberta dos iguais

Manifestação no campus depois de ser despenalizada a homossexualidade na índia.
Manifestação no campus depois de ser despenalizada a homossexualidade na índia.
Foto: DR

Foi depois da minha licenciatura, no Luxemburgo, que me mudei para Lisboa para trabalhar na Solidariedade Imigrante, a maior associação de imigrantes do país. Queria experimentar viver em Portugal para poder explorar esse lado da minha identidade, e dedicar-me à defesa dos direitos dos imigrantes pareceu-me uma escolha óbvia. Sou filha de imigrantes, mudei-me para outro país, e naturalmente sou a favor da livre circulação dos seres humanos no mundo e da igualdade de direitos. Foi nessa altura, de forma inesperada, que a Índia voltou a aparecer na minha vida. Durante os quatro anos que trabalhei como mediadora cultural, a comunidade indiana tornou-se a mais importante dentro da associação. Os indianos que procuram apoio em Lisboa são normalmente do estado do Punjab, no norte da Índia, e pertencem à minoria religiosa Sikh. Muitos trabalham em mini-mercados, lojas de telemóveis, na agricultura ou na construção civil, mas não têm a sua situação legal regularizada em Portugal. Foi com eles que conheci uma outra Índia: falavam da crise na agricultura e de suicídios em massa de agricultores, de uma epidemia de drogas, principalmente opióides provenientes do Afeganistão que entram pela fronteira com o Paquistão, da seca dos rios, da falta de oportunidades de trabalho para jovens e das tensões políticas. Num contexto de falta de perspetivas, a emigração legal ou ilegal tem sido a oposta de muitas famílias, investindo na viagem de um membro, habitualmente homem, com o objetivo de depois facilitar a emigração do resto da família, uma vez que a situação esteja estabilizada no país de acolhimento.

Foram anos de muita luta e partilha em que dificilmente consegui separar o meu ativismo da minha vida pessoal. Foi depois de ter perguntado a uma das associadas por que é que tinham todos o mesmo apelido, Singh para os homens e Kaur para as mulheres, que fui convidada a visitar a Gurdwara (templo Sikh). Ela explicou-me que esse nome tinha-lhes sido dado por um dos dez gurus do Sikhismo e que simbolizavam a igualdade de todos. Achei interessante, aceitei o convite e nunca mais deixei de me interessar por essa cultura. Comecei a participar em eventos culturais e religiosos, a ir a festas de aniversário, chás de fraldas e outras celebrações. Ganhei grandes amigas e amigos e tornei-me 'massi ji' (tia materna) de muitos bebés indianos. Foi essa proximidade com esta comunidade que acabou por dar origem a duas viagens à Índia.

Ir conhecer o norte da Índia, visitando as famílias dos meus amigos indianos em Portugal, foi um privilégio. Tive a sorte de não ter de perder tempo com mapas ou guias, deixando-me guiar pelas famílias, que me acolheram calorosamente. "O convidado é equivalente a Deus" é tirado de uma antiga escritura hindu que se tornou parte do código de conduta para a sociedade indiana. De facto, a hospitalidade indiana não é um mito. Apesar de ainda não falar nem punjabi, nem hindi, a língua nunca foi uma barreira, mesmo com as famílias que não falavam inglês. Comunicávamos de outras formas, com o corpo, com gestos, muitas vezes envolvendo por video-chamada os filhos e maridos ainda em Portugal. Visitei zonas rurais em que as dinâmicas me faziam lembrar a vida nas aldeias de Trás-os-Montes, onde o meu pai nasceu. Em todos os lares, independentemente do conforto financeiro das famílias, ofereciam-me os melhores pitéus da comida indiana e 'chai' (chá de leite com especiarias) e insistiam (sempre) que tinha de comer mais. Vi aldeias e bairros sem homens jovens, porque todos tinham emigrado, alguns para as grandes metrópoles indianas, outros para fora do país. Vi pobreza, casas degradadas e más condições sanitárias, mas também vi grandes riquezas, casas enormes e carros de luxo. É um país cheio de contradições e de extremos. Fiquei boquiaberta com a beleza das paisagens e dos monumentos históricos e religiosos. Também percebi que no Punjab não foi Gandhi quem mais marcou a história e que se ouve falar muito mais de personagens que eram para mim desconhecidas, como Shaheed Baghat Singh, um dos mais influentes revolucionários no movimento da independência, ou Bhimrao Ramji Ambedkar, o pai da Constituição indiana, que combateu o sistema de castas.

Das famílias migrantes separadas por metade do mundo até à Jawahrlal Nehru University

Vivem mais de 8.000 pessoas na Jawahrlal Nehru University, numa área de 404, 69 hectares (quase 405 vezes a praça do Rossio).
Vivem mais de 8.000 pessoas na Jawahrlal Nehru University, numa área de 404, 69 hectares (quase 405 vezes a praça do Rossio).
Foto: DR

Em Portugal mantive um pé no meio académico: fiz uma pós-graduação em Crises Humanitárias no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), fui investigadora comunitária num projeto sobre super-diversidade e saúde no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) e optei pelo mestrado em sociologia. Foi nessa altura que decidi focar-me no que realmente me cativava: as famílias Sikh. Interessou-me a dimensão transnacional das relações de parentesco; como, mesmo estando separados, os membros continuam a manter laços e funções além-fronteiras. A história de muitos dos homens indianos que conheci em Portugal e que deixaram para trás mulher e filhos é em muito aspetos parecida com a do meu avô e de muitos outros emigrantes portugueses que partiram e ainda partem inicialmente sozinhos.

Resolvi também candidatar-me a um semestre de investigação numa universidade indiana e fui aceite na Jawaharlal Nehru University (JNU), em Nova Deli, onde estou atualmente.

Faz agora um mês e meio que cheguei ao campus e estamos a uma semana das eleições do sindicato dos estudantes, o evento mais importante do ano nesta universidade conhecida como o centro da política estudantil no Sul da Ásia. Diariamente há debates e reuniões e todos os alunos estão envolvidos. As paredes dos edifícios falam por si: slogans políticos e rostos de personagens revolucionárias decoram o espaço. Ao longo da sua existência, a universidade tem estado envolvida em várias polémicas, e os seus detratores acusam-na de ser um bastião indisciplinado da extrema-esquerda. No entanto, os resultados académicos falam por si: tem sempre das melhores pontuações nas classificações das universidades indianas. A justiça social, o combate à discriminação contra as minorias e o feminismo são algumas das grandes causas dos estudantes. Tradicionalmente, a política estudantil tem sido dominada pela esquerda e pelo centro, embora, nos últimos anos, grupos de estudantes de direita tenham entrado no campus.

A JNU é uma universidade pública que tem alunos de toda a Índia, com um sistema de quotas para permitir o acesso à educação de alunos marginalizados. As rendas dos quartos são simbólicas (cerca de 3€/mês) e as refeições dentro do campus custam menos de metade do que fora da universidade. O espaço é incrível: é um terreno fechado de 404,69 hectares onde só podem entrar estudantes, professores, funcionários e convidados e onde vivem cerca de 8.000 estudantes. As escolas, residências dos estudantes e outras instalações, como mini-mercados, lavandarias, tascas de 'chai', sapateiros ou cabeleireiros, ficam numa espécie de selva onde também vivem cães, gatos, pavões, cervos e muitos animais. É um sítio verde, com pouca confusão ou trânsito e muita segurança, um pequeno paraíso dentro de uma cidade caótica como Nova Deli.

O mais fascinante são os alunos e investigadores, que se destacam pelo grande conhecimento que têm sobre os assuntos em que trabalham. São em geral estudiosos e as salas de trabalho da biblioteca estão cheias 24 horas por dia. Dão-me listas de livros que tenho de ler, aconselham-me filmes e documentários que tenho de ver e recomendam-me eventos dentro da cidade. As palavras do Nelson Mandela inscritas na Escola de Ciências Sociais são levadas a sério: “A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”. Mas o que está realmente a acontecer na Índia?

Um país em Estado de Emergência não declarado

Vista do campus da JNL, um espaço muito politizado em que tudo é discutido.
Vista do campus da JNL, um espaço muito politizado em que tudo é discutido.

O discurso oficial é optimista e a situação do país é considerada a melhor nos últimos 25 anos, mas segundo alguns académicos e colegas, e o que ouço das minorias e dos grupos e comunidades marginalizadas, a Índia está num “Estado de Emergência não declarado”, como lhe chamam por cá. Não é o que vejo nas notícias, nem o que ouvi sobre a Índia quando ainda estava em Portugal, mas o descontentamento do povo é gritante. O país tem uma demografia e uma economia em expansão e ambições nacionalistas cada vez mais afirmadas por um governo marcado pelo hinduísmo radical. A estrutura social da Índia e o sistema de castas continua a ser um dos pilares que mantem profundas divisões étnicas e religiosas. Confrontos periódicos ocorrem entre hinduístas (80% da população) e muçulmanos (14,2%) e os riscos de tensões violentas são alimentados pelo nacionalismo militante do primeiro-ministro Narendra Modi. Quem critica o governo arrisca-se a ser preso e há um grande debate sobre o “direito de discordar”.

O campus da JNU não escapa a essas tensões e o crescimento da direita dentro da universidade faz com que, pelo segundo ano consecutivo, os partidos de esquerda tenham formado uma aliança para combater o que consideram “valentões da extrema-direita que ameaçam o progresso e a liberdade dentro e fora do campus”. Ao mesmo tempo, há progresso e ainda esta semana a comunidade lgbti+ e os seus aliados celebram uma vitória: foram descriminalizadas as relações homossexuais pelo Supremo Tribunal.

No campus não se dormiu nessa noite e os estudantes reuniram-se para celebrar a despenalização da homossexualidade. Também festejei e fui com Rohan, 21 anos, vem de Pune e mudou-se para o campus há um mês para estudar literatura francesa. Não esconde ser homossexual, mas diz ter consciência de ainda incomodar muitas pessoas. Para ele este é um bom início mas ainda vê muitos desafios para a comunidade lgbti+ na Índia, nomeadamente dentro das próprias famílias.

Enquanto estudante luso-descendente do Luxemburgo que se tem aproximado da Índia e de várias comunidades ao longo do tempo, ainda é difícil para mim perceber toda a complexidade deste país. Há inúmeras versões da história e cada pessoa que encontro no meu caminho traz-me uma nova perspectiva sobre esta multitude de realidades diferentes. É um pais incrível e incomparável pela sua riqueza humana e cultural, mas também assustador, pelas suas contradições e desigualdades gritantes. Cheguei numa altura da história interessante, a um ano do fim do mandato de um partido que tem apostado em muitas medidas políticas controversas, numa universidade em que essas medidas encontram mais resistência. Espero no fim desta experiência perceber tudo com mais clareza. Uma coisa é certa: este é um período de transição para o país. Como a meio de uma ponte, não se percebe se a margem que se vai atingir é melhor do daquela que se partiu.

Jessica Lopes

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