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David Wagner: "Para o patronato luxemburguês é uma bênção que uma grande parte dos trabalhadores esteja impedida de votar"
Luxemburgo 10 min. 26.09.2018

David Wagner: "Para o patronato luxemburguês é uma bênção que uma grande parte dos trabalhadores esteja impedida de votar"

David Wagner.

David Wagner: "Para o patronato luxemburguês é uma bênção que uma grande parte dos trabalhadores esteja impedida de votar"

David Wagner.
Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 10 min. 26.09.2018

David Wagner: "Para o patronato luxemburguês é uma bênção que uma grande parte dos trabalhadores esteja impedida de votar"

O porta-voz do partido mais à esquerda do parlamento luxemburguês diz que o seu partido quer chegar ao governo para mudar as políticas até agora seguidas.

Nas eleições suecas os estudos afirmam que as preocupações dos eleitores são a saúde e a educação, mas toda a campanha eleitoral pareceu incidir sobre questões de imigração e identidade. Há o perigo de as eleições luxemburguesas seguirem o mesmo figurino?

É sempre um perigo, até porque se repetirá um comportamento que já se passou na Suécia, Áustria e parcialmente em Itália. Em muitos países está a passar-se esta tendência, embora tenhamos outros, como Portugal e Espanha, em que a extrema-direita não cresceu. Aquilo que se chama o “extremo-centro” (o centro-direita e o centro esquerda) e o establishment político sentem-se em perigo com a crise. O sistema económico em que vivemos já não funciona. Verifica-se, neste contexto, que algumas camadas, que estão a perder condições de vida, começam a encarniçar-se contra os imigrantes e refugiados. Em vez de combaterem aqueles que estão no topo e que levaram a esta situação de crise atacam os que nada têm. Por sua vez, os grandes media, quando falam dessas eleições, colocam sempre o foco na subida dos partidos de extrema-direita e esquecem-se que, muitas vezes, há partidos de esquerda que crescem. Quando houve eleições em Portugal, a imprensa internacional nunca dizia que o Bloco de Esquerda e o PCP eram muito fortes; na Grécia falava-se da Aurora Dourada, no momento em que o Syriza, uma coligação de extrema-esquerda, se prontificava para ganhar as eleições.

Mas há extrema-esquerda no poder na Grécia?

[Risos] Essa é uma outra conversa. Eu falo naquela época. Há ainda esquerda radical na Grécia, mas não são obrigatoriamente os mesmos.

Como vê a nova tentativa da esquerda radical alemã, com o movimento “De Pé”, que parece recuperar ideias sobre a imigração que são de extrema-direita?

Acho que se apresenta esse movimento de uma forma deturpada, mas, por outro lado, não estou de acordo com algumas das suas posições. Apesar de ter claro que não apoia as posições da extrema-direita [sobre a imigração], copia as posições de toda a gente que está nos governos da Europa. É preciso dizer que algumas preocupações desse movimento são justas: é necessário organizar o acolhimento dos refugiados e dar condições a essas pessoas. Além disso, o sujeito central da intervenção desse movimentos são as questões sociais. Mas quando dizem que é preciso gastar o dinheiro com os pobres na Alemanha em vez de o gastar nos refugiados, é preciso referir que o dinheiro gasto com os refugiados não é muito para a Alemanha, que tem uma enorme capacidade financeira, e que os pobres na Alemanha já existiam antes da chegada dos refugiados e nada foi feito em relação a eles. A esquerda nunca poderá ganhar recuperando os temas da direita, como a segurança e a imigração. As pessoas de esquerda não votam nisso e, se há setores que eram de esquerda para quem isso passa a ser a preocupação central, então essa gente vai votar nos partidos originais, de extrema-direita, que levantaram essas questões.

É jornalista de profissão. Se fizesse um ’lead’ sobre uma peça informativa sobre as eleições, o que diria?

O Luxemburgo tem um grande problema: meios financeiros importantes que estão dependentes de uma praça financeira, cuja classe política é subserviente em relação a ela e que vai desaparecer mais tarde ou mais cedo. O que implica ter um plano para quebrar essa dependência. Acresce que, neste momento, apesar desses meios financeiros importantes, há muitas dificuldades de financiamento ao nível dos serviços públicos. A educação não está suficientemente desenvolvida, da mesma forma que há problemas nas estruturas de saúde pública. Também vivemos sob a ilusão de que tudo está bem, mas há um grande número de trabalhadores pobres no Luxemburgo. São gente que trabalha com o salário mínimo, muitos deles são imigrantes. É preciso colocar a questão da distribuição do rendimento para dar uma vida condigna a todas as pessoas.

Mas como é possível colocar essa necessidade se a maioria das pessoas que estão nessa situação são estrangeiros e não têm direitos políticos?

Para o patronato luxemburguês é uma bênção que uma grande parte dos trabalhadores esteja impedida de votar.

Tiveram um referendo, mas a grande maioria das pessoas votaram não.

Era previsível. Mas é preciso dizer que não temos 80% de racismo neste país, seria insuportável. O problema é que as pessoas têm o sentimento, se calhar justificado, de que estão a ser excluídas da democracia: vão votar e as coisas não mudam. É a consequência política das receitas liberais dos últimos 30 anos.

Nesse caso, os eleitores não deviam ter problema em dar o voto aos estrangeiros, já que nada muda.

Roman Hilgert, [chefe de redação] do Land, escreveu, de uma forma irónica, que como o parlamentarismo está morto e não funciona, não era de estranhar que parte da elite estivesse pronta a dar o poder de o eleger aos estrangeiros. Mas nós não desistimos de dar acesso à decisão democrática a toda a gente.

O déi Lénk tem a ambição de exercer o poder?

Sim.

Normalmente diz-se que os partidos de extrema-esquerda pretendem ser apenas partidos de protesto e se chegam ao poder transformam-se em Syriza.

[Risos] Sobre o Syriza havia muito que falar. Por um lado, acusam-nos de não querer o poder e por outro lado dizem que queremos governar em ditadura. É preciso que se decidam: queremos o poder absoluto ou queremos ser apenas um partido de protesto?

Aceitariam ir para o governo com os socialistas e os verdes?

Em teoria é possível, mas na prática, com os números existentes, não me parece crível. Era preciso que todos ganhassem muitos deputados a 14 de outubro, o que não me parece que vá suceder. Iremos provavelmente reforçar-nos, mas é também provável que os socialistas percam lugares e os verdes mantenham os eleitos. Mas não é só uma questão aritmética, é também uma questão programática. Aquilo que dizemos é que não podemos participar num governo que não rompa com as lógicas liberais de governo. Se é para fazer de Syriza não estamos disponíveis. Não serve de nada governar se é para fazer a mesma coisa.

O déi Lénk revela que 80% dos arrendatários são estrangeiros, logo não votam, e que a maiorias dos proprietários é luxemburguesa. Como é possível mudar a legislação que favorece os proprietários com esse desequilíbrio político? Contam com a santidade das pessoas?

Não, a política não é uma questão de moral. Com boas políticas, pelo contrário, mais gente pode estar predisposta a comportar-se corretamente. O que é importante é que o déi Lénk não seja apenas um partido eleitoral, mas uma grande força política que organize uma parte importante da população, incluindo aquela que não pode votar. Os imigrantes fazem parte da sociedade e podem contribuir para que ela evolua de uma determinada maneira. Há coisas que éramos os únicos a defender e que fazem o seu caminho: até os socialistas falam agora na necessidade de reduzir o tempo da jornada de trabalho para 38 horas, os liberais defendem agora a gratuitidade dos transportes públicos. Ironicamente, quando apresentei no parlamento moções a defender essa gratuitidade, eles votaram contra. Não é grave. É uma maneira de fazer política que acho incoerente, mas faz parte dos seus pequenos jogos. Mesmo em relação à habitação sempre falámos de reforçar a construção pública e da necessidade de expropriar aqueles que especulam com terrenos, um termo aqui muito complicado, porque as pessoas julgam que se trata de tirar o terreno a uma avozinha, quando aquilo de que se trata é de combater os grandes especuladores. Mesmo esse tipo de medidas já parece ter algum acordo até do CSV.

No vosso programa defende-se a “desfinanceirização” do Luxemburgo. Isso não é arriscado, dada a dependência do país em relação a esse setor?

Diz-se muitas vezes que o Luxemburgo deve a sua riqueza e bem-estar ao setor financeiro. É preciso não esquecer que, se a maioria da população vive bem, é sobretudo porque temos um sistema de redistribuição social que é muito eficaz, e isso não foi a praça financeira que o criou, foram os sindicatos com as suas lutas. O problema é que o setor financeiro é o lóbi mais poderoso que faz pressão para a descida dos direitos sociais dos assalariados. Há até projetos de lei que são escritos diretamente pelos gabinetes de advogados desse setor. Fazem pressão para baixar a carga fiscal das grandes empresas e, ao mesmo tempo, como o Estado deve continuar a financiar-se, obrigam-no a buscar parte desses rendimentos junto de quem trabalha. É um setor que não tem relação estável com o Luxemburgo: são grandes capitalistas que hoje podem estar aqui como na próxima semana irem para Frankfurt, Londres, Paris ou Nova Iorque. A saída das atividades especulativas é uma questão de tempo. Por isso, temos um conjunto de medidas no nosso programa que sabemos que vão ser difíceis de conseguir mas são necessárias.

O que diria aos eleitores provenientes da imigração como razão para votarem no déi Lénk?

A maior parte dos imigrantes são trabalhadores. Nós defendemos o aumento do salário mínimo, os direitos dos trabalhadores e uma política de habitação que baixe significativamente os custos de alojamento. Isto são medidas que interessam a todos os trabalhadores, aos luxemburgueses e aos imigrantes.

Disse numa entrevista que gostaria de escrever romances de ficção científica, de preferência distopias, um género que projeta no futuro uma crítica do presente. Quais são os cenários de distopia para o Luxemburgo em 2060?

Quando era jornalista cheguei a fazer uma coisa dessas, escrevi em 2010 um artigo sobre o que iria suceder em 2020. Mas devo dizer que me enganei em quase tudo [risos]. Para 2060, há vários cenários, mas é preciso sublinhar que o Luxemburgo não é uma ilha. A Humanidade inteira arrisca-se a acabar numa sociedade que de democrática só tem o nome. Em que se tem o direito de dizer o que se pensa mas isso não tem consequência, porque as coisas já estão todas decididas por quem de facto manda.

Isso é hoje ou em 2060?

Está já em marcha. Já estamos a caminho de democracias em que há a ilusão de as pessoas poderem decidir, mas não há margem para isso. O poder já não está concentrado nos Estados mas em empresas multinacionais. Existirá, além disso, uma massa maioritária de proletários que usam ferramentas inteligentes em teletrabalho mas caminham para o empobrecimento material e intelectual.

E qual é o antídoto?

É preciso sair do sistema capitalista. É a única solução. Há cada vez mais gente que toma consciência. Essa tomada de consciência é cada vez mais urgente, até devido às alterações climáticas e a catástrofes ambientais que estão ligadas a isso. Há muitos cientistas e gente que se politiza, percebendo que, com este sistema, não vamos a lado nenhum. Nada está completamente perdido, mas aproximam-se momentos muito difíceis.

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