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David Angel. “Se os imigrantes querem o direito de voto têm que lutar por ele”
Luxemburgo 5 8 min. 30.12.2020

David Angel. “Se os imigrantes querem o direito de voto têm que lutar por ele”

David Angel. “Se os imigrantes querem o direito de voto têm que lutar por ele”

Foto: António Pires
Luxemburgo 5 8 min. 30.12.2020

David Angel. “Se os imigrantes querem o direito de voto têm que lutar por ele”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Fez o seu primeiro discurso contra a guerra do Iraque. Foi jornalista. É sindicalista na OGBL, num setor em que o patronato está a romper as convenções coletivas. Acredita que só a mobilização dos trabalhadores pode impedir que a crise multiplique as desigualdades.

David Angel nasceu no Luxemburgo, a mãe é catalã e o pai do Grão-Ducado. Na sala em que trabalha tem uma placa com o nome do seu tio-avô, sindicalista na Catalunha, o seu grande exemplo. “Era operário qualificado, sempre sindicalista, foi secretário sindical e até à sua morte estava encarregue dos reformados no seu sindicato. Todas as manhãs ia a pé ao sindicato e dizia sempre que no dia em que não fosse ao sindicato era porque estava morto, o que de facto aconteceu. Só faltou a esse compromisso porque deixou de viver."

Vem de uma família muito politizada. “A minha mãe é de uma família catalã, com parte dos parentes na Andaluzia, mas que foram sempre muito engajados e comunistas. Meu pai não vem de uma família de comunistas mas é muito politizado. Em casa, nos almoços de família está-se sempre a discutir política.” A família e as primeiras leituras levaram-no à militância. “Quando eu tinha 11 anos li uma biografia do Che que me marcou muito. E depois entrei em contacto com um grupo que, já não existe, que se chamava Jeunesse pour la paix et la justice, um grupo que não era ligado a nenhum partido político mas que era muito ativista e tinha sido criado na época da guerra no Afeganistão e da invasão do Iraque. A minha entrada como ativista foi mesmo durante os protestos durante a guerra do Iraque. Foi aí que eu participei nas minhas primeiras ações e manifestações. O meu primeiro discurso foi feito durante uma greve estudantil no dia em que se deu a invasão do Iraque.”

Estudou história em França, Nanci e em Hamburgo na Alemanha.

Sempre se interessou muito pelo o mundo do trabalho e as suas lutas. “Lembro-me muito novo de ir, com outros ativistas com uma bandeira vermelha, para a frente de uma fábrica que estava em luta para não fechar.”

Pertence à claque antifa do FC Metz e tem a paixão do futebol desde muito cedo. “Desde pequeno que fui fã do Barça. Sempre tive cultura de futebol. Mas bastante ligado à política, porque o Barça teve um papel na luta contra o franquismo, e mesmo quando o catalão foi proibido pela ditadura, podia-se falar no estádio que aparecia como uma espécie de zona libertada.”

Um dos desafios de sempre e também no próximo ano, no Luxemburgo, é a questão linguística. Qual a relação que tem com a língua da sua mãe. “Falo catalão, não muito bem porque não tenho a oportunidade de praticar muito. Falamos em casa luxemburguês , porque o meu pai é luxemburguês”. “Eu penso em línguas diferentes. Nasci no Luxemburgo, mas vivo em França, a minha companheira e a minha filha são francesas. Aqui no trabalho falo maioritariamente luxemburguês.”

A situação linguística, com muita gente a falar várias línguas, é muito diferente aqui no Luxemburgo? “Sim, embora não para todo o mundo. Um luxemburguês que vive com a sua família numa zona em que todos são luxemburgueses e que trabalha na Função Pública, se calhar praticamente só fala luxemburguês.

O papel de língua luxemburguesa é de ser um instrumento de identidade? Serve como língua de emancipação ou de menorização dos muitos imigrantes que não a falam?

   Defendo que o multilinguismo é que se tornou um instrumento de classe.   

“Penso que a situação política-linguística ao Luxemburgo é uma questão de classe. A leitura que se faz normalmente é a que afirma que o papel identitário da língua luxemburguesa serve para distinguir os nacionais do imigrantes, fazendo uma espécie de barreira contra os estrangeiros, que em geral fazem parte das classes populares. Eu penso que isso é mais complicado e vai para além disso: defendo que o multilinguismo é que se tornou um instrumento de classe. É um mecanismo para que as classes favorecidas e as elites dirigentes se distingam das classes populares. Aqueles que são multilinguistas são gente com uma bagagem e um capital cultural, fizeram estudos, quando nas classes populares tem-se os transfronteiriços franceses que apenas falam francês; os trabalhadores da construção civil portuguesa que quase só falam português com um pouco de francês, mas temos também os trabalhadores luxemburgueses ou pequeno funcionário que falam só o luxemburguês. E toda essa gente tem um problema com esta situação absolutamente confusa das línguas. Nesse contexto, o multilinguismo serve para erigir uma barreira de classe e distinguir as elites das classes populares.”

Mas o luxemburguês não é um obstáculo para a plena participação cidadã dos imigrantes, que embora as leis estejam redigidas em francês, todos os debates dos parlamentares que as aprovam sejam em luxemburguês?

“É um obstáculo, não por causa da língua, devido à falta de clareza. Não dizem quando se chega ao país que se tem de aprender o luxemburguês. Fazem as pessoas aprender o francês que te permite ser entendido por todos. O problema é a falta de clareza. Aquilo que permite ao Luxemburguês aceder socialmente é dominar várias línguas.”

Depois dos estudos trabalhou como jornalista. Embora durante os estudos tenha tido pequenos trabalhos, como em supermercados. “Foi apenas por sorte que fui para o jornalismo. Sempre adorei escrever e fui trabalhar como jornalista.” Trabalhou no Woxx durante cinco anos. “Quando foi fundado,em 1988, era o jornal dos verdes, tinha outro nome: GréngeSpoun . Depois à medida que o partido verde ganharam as posições pragmáticas houve uma progressiva rutura entre o partido e o jornal. E não sei em que ano mudaram de nome, para marcar essa rutura. O jornal foi-se aproximando do déj Lénk. Até pelo papel de David Wagner na redação. Wagner tinha sido secretário-geral da juventudes socialistas saiu com uma série de gente dos socialistas e fundou, aquele organização que eu militei, Jeunesse pour la paix et la justice. O núcleo central do grupo tinha cerca de 15 pessoas, evoluiu, começaram a ler autores marxistas , anarquistas, etc... e foram para várias direções: há gente aqui na OGBL, há jornalistas, como Bernard Thomas, e em outros sítios. No Luxemburgo, em cada geração há uma greve estudantil, há sempre um grupo que sai dessa movimentação que continua a militar, e depois, quando tem 18, 19 anos, vão estudar para o estrangeiro e acabam por dar espaço no Grão-Ducado para outros ativistas.”

Saiu do Woxx por necessidade económica, mas também para conseguir fazer o seu caminho. “Não tinha planos de vida, foi sempre um pouco a sorte que me ditou o caminho. Mas, depois de alguns anos, tinha impressão de não avançar, tanto do ponto de vista económico como de trabalho. O Woxx tem um modelo interessante, mas toda a gente ganha o mesmo salário baixo, pouco importa as funções ou a antiguidade. E depois eu escrevia muito sobre os movimentos sociais e operário e tinha a vontade de fazer coisas e não ser só espetador. Fui ainda para o Tageblatt, conhecia várias pessoas dos sindicatos, entrevistei na altura o antigo presidente da OGBL que me marcou muito. E foi uma saída lógica ter vindo para aqui à OGBL.

Vindo dos movimentos sociais mais inorgânicos, não sentiu um choque? “Os sindicatos são outra coisa em relação aos movimentos inorgânicos. Mas o que me incomodava nesses movimentos era a ausência de estrutura e organização. O que aprecio muito aqui é haver meios para trabalhar. Não está tudo feito, mas há um instrumento muito potente que se pode trabalhar.”

O ano de 2021 vai ser um ano de crise que ameaça romper o modelo social no Luxemburgo? “Em muitos setores há muito que esse modelo está desfeito. Eu trabalho nos setores do comércio e da alimentação que são nos setores menos bem pagos do país, com as limpezas. São os setores menos bem pagos e com piores condições de trabalho no Luxemburgo. Aqui as condições são piores que em França e na Bélgica. Não se trata apenas de gerir um consenso social, é preciso conseguir melhores condições”, defende.

A crise, em 2021, vai mudar e agravar tudo? “Só consigo falar pelos meus setores, mas sim. Vemos isso, temos o caso da H&M , uma multinacional que neste momento se recusa a cumprir a convenção coletiva que assinou, não pagando o prémio de fim do ano. Para mim, esse é o género de coisas que se vai multiplicar. A concertação social e a paz social funcionam quando há dinheiro a distribuir, mas quando na crise as margens de lucro se estreitam isso rompe-se e entra-se numa verdadeira confrontação social. Depois aquilo que conta é a relação de forças. E é preciso dizer que é difícil conseguir uma relação de forças favorável aos trabalhadores num pequeno país perante uma multinacional como a H&M, Zara, etc. Por isso temos de agir a nível setorial. É preciso conseguir mais mobilização e organização num setor tradicionalmente com menor organização em que a maioria dos trabalhadores são mulheres e há muitos transfronteiriços. A chaves do sucesso é essa mobilização e não apenas a fé no consenso social.”

Como vê a luta pelos direitos dos imigrantes em 2021? “A situação política é totalmente diferente dos outros países, temos uma população em que metade nem tem direito de voto. Os sindicatos são o único local no Luxemburgo que toda a gente tem poder de participar, como os imigrantes e os transfronteiriços. O único parlamento que têm o direito de voto é a Chambre des Salariés.”

Isso pode ser alterado? “As mulheres obtiveram o direito de voto porque se organizaram e conquistaram-no. Os operários a mesma coisa. O erro do referendo, em 2015, foi pensar que isso funcionaria de cima para baixo e tombar do céu. É preciso que os estrangeiros se organizam se querem ter o direito de voto têm de se bater. Os que se aproveitam desta situação não vão abdicar voluntariamente do monopólio do poder”, alerta.

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