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Daniel da Mota, candidato pelo ADR: "Se o meu partido fosse racista, eu não me candidatava"
Daniel da Mota é candidato às eleições legislativas pelo ADR, o partido de direita radical, conhecido pelas posições nacionalistas e por votar contra mais direitos para os estrangeiros.

Daniel da Mota, candidato pelo ADR: "Se o meu partido fosse racista, eu não me candidatava"

Foto: Guy Wolff
Daniel da Mota é candidato às eleições legislativas pelo ADR, o partido de direita radical, conhecido pelas posições nacionalistas e por votar contra mais direitos para os estrangeiros.
Luxemburgo 1 13 min. 15.06.2018

Daniel da Mota, candidato pelo ADR: "Se o meu partido fosse racista, eu não me candidatava"

O homem que marcou um golo do Luxemburgo contra a seleção de Cristiano Ronaldo, em 2012, é candidato às legislativas pelo ADR. O partido nacionalista é conhecido pelas posições contra os direitos dos estrangeiros, mas o jogador de futebol defende que "não é racista". Nesta grande entrevista ao Contacto, este filho de imigrantes portugueses explica as razões que o levaram a filiar-se no ADR.

Contacto: Em 2012, marcou um golo contra Portugal que ficou famoso e que foi aplaudido por portugueses e luxemburgueses. O que é que sentiu nesse momento?

Daniel da Mota: Não estava à espera de marcar. Um dia antes o Contacto tinha-me feito essa pergunta: se tivesse  oportunidade de marcar, se marcava ou não, e eu disse logo que sim. Ao marcar, o estádio todo levantou-se e tive um arrepio. Não estava à espera que todo o estádio se levantasse para festejar comigo, foi um sentimento fantástico. Se calhar achavam que Portugal é que tinha marcado, e não o Luxemburgo [risos].

E aí, sentiu-se mais luxemburguês ou português?

Nem pensei nisso. Senti que estava a representar o país onde estou. Nem sequer tive o sentimento de que estava a marcar um golo contra as minhas origens. Foi um momento de alegria, sobretudo por estar a ganhar 1-0 contra uma seleção enorme.

O facto é que foi aplaudido por portugueses que estavam ali para apoiar Portugal, e aplaudiram um golo contra a sua própria seleção. Isso não mostra que o vêem como um símbolo de integração, por ser filho de imigrantes portugueses?

Para mim as pessoas que aplaudiram o golo partilharam a felicidade comigo, e nesse momento até os adeptos portugueses se sentiram luxemburgueses. Isso também mostra que os portugueses que estão aqui no Luxemburgo se integraram bem no país e também se sentem um bocadinho luxemburgueses, mesmo se não são luxemburgueses no papel. Acho que nesse momento esqueceram-se de ser portugueses ou luxemburgueses.    

É candidato às próximas eleições legislativas pelo ADR. É filiado no partido?

Sou, sim.

Desde quando?

Membro só sou desde que sou candidato. 

E quando é que o ADR o convidou?

Em janeiro, fevereiro. 

E como é que alguém de origem portuguesa se revê em algumas posições políticas xenófobas de um partido como o ADR?

Muitos vêem o ADR como um partido de racismo, que não é. A ideia deles é que os estrangeiros que vêm para o país se integrem bem, dando a possibilidade aos filhos de ter melhor educação, melhores diplomas, do que os seus pais. Se fosse um partido racista, eu não fazia parte deste partido. A minha ideia e a ideia do partido é ajudar os estrangeiros a integrarem-se bem aqui no Luxemburgo, dando-lhes as mesmas possibilidades que os luxemburgueses têm.

O ADR tem tido posições políticas que vão no sentido de excluir direitos dos estrangeiros. Foram contra o direito de voto dos estrangeiros e a possibilidade de serem candidatos nas eleições comunais, apesar de agora começarem a ter candidatos estrangeiros nas listas. São contra a dupla nacionalidade e são também contra o ensino da língua materna nas escolas, incluindo o português. O Daniel da Mota concorda com estas posições?

Em Portugal, e nos outros países, tem de se ser português para votar nas eleições nacionais. Aqui não é ser contra os estrangeiros, para guardar o voto [para os luxemburgueses], é mais para manter a nacionalidade luxemburguesa e a língua materna luxemburguesa. Para mim são pontos importantes para te integrares bem no país onde estás a viver, a trabalhar e a ganhar o teu dinheiro. Eu não sou contra a dupla nacionalidade - que tenhas uma, duas, três ou quatro nacionalidades, para mim vai dar ao mesmo -, mas já que estás num país que te dá de comer, dá-te trabalho, dá-te tudo, o mínimo é integrar-se nesse país e dar qualquer coisa de volta a esse país.

Quem tem a dupla nacionalidade também é luxemburguês. Ou acha que se é menos luxemburguês com a dupla nacionalidade?

Não, isso não. Eu sou luxemburguês de papel mas português de sangue e de origens. Nunca as vou negar, e onde possa ajudar os estrangeiros, eu vou sempre ajudar. Se agora o partido, de hoje para amanhã, decidir que é um partido contra os estrangeiros, eu deixo de me candidatar.

Mas o partido em que está filiado votou duas vezes contra a lei que permite a dupla nacionalidade, e defende que para ser luxemburguês tem de se abdicar da nacionalidade de origem. 

Isso é mais para quem tem filhos aqui, portugueses ou italianos, e se viverem aqui, penso que cinco anos, os filhos têm direito a pedir a nacionalidade luxemburguesa aos 18 anos. 

O seu partido votou contra essa possibilidade, que faz parte de uma lei proposta pelo ministro da Justiça, Félix Braz. Se o seu partido tivesse levado a sua avante, isso não era possível: as crianças nasciam no Luxemburgo e iam continuar a não ter a nacionalidade luxemburguesa, a não ser que a pedissem ao fim de uns quantos anos, porque eles votaram contra essa lei.

Sim, sim, eu sei disso. Ainda hoje tive uma conversa com o partido... Para mim, aquilo que eles querem mesmo é mais que os filhos dos estrangeiros tenham a mesma possibilidade que um residente luxemburguês.

Em relação ao ensino de português nas escolas: teve aulas de língua portuguesa aqui no Luxemburgo?

Tive, na escola primária, do primeiro ao sexto ano, em Ettelbruck. Era à parte, aos sábados... E depois no liceu era fora do horário escolar luxemburguês.

E achou útil?

É sempre útil aprender a língua materna, aprender a história portuguesa. Depois, depende da educação que se tem em casa. Há pais que dizem que não precisam, outros forçam os filhos a aprender português. O meu português não é assim muito correto, o que é normal, porque no dia a dia é mais luxemburguês. Mas acho que é necessário não esquecer as origens.

É mais uma coisa em que não está de acordo com o seu partido, então? O ADR é contra o ensino da língua materna nas escolas.

Nas escolas, para mim, é o luxemburguês que tem de ser ensinado. Eu estudei português à parte. Em Ettelbruck tinha a escolha entre a língua materna ou a religião, e já ias um bocadinho contra a religião. Nós, foi à parte. Estamos a falar dos portugueses, mas o Luxemburgo tem não sei quantas nacionalidades, e o sistema escolar não permite ter tantas aulas para cada um, ou tantos professores para dar aulas a cada um na sua língua.

O ADR também é contra a possibilidade de um estrangeiro assumir o cargo de burgomestre.

Houve um português que foi eleito em Bettendorf [risos].

E parece-lhe bem que um estrangeiro possa candidatar-se nas eleições locais?

Eu estou no Luxemburgo e quero representar o Luxemburgo : tens de ter a nacionalidade luxemburguesa, o que é normal.

Mesmo nas autárquicas?

Isso...

A lei permite-o.

Sim, sim, isso ainda é diferente, porque nessas eleições estás a representar a tua cidade, ou a tua aldeia. Mas estou a falar destas eleições [legislativas]: estás a representar o teu país, e é mais fácil que tenhas a nacionalidade luxemburguesa, é totalmente normal. No futebol, por exemplo, estou a representar a seleção do Luxemburgo e não posso ter a nacionalidade portuguesa. Noutros países, também tens de ter a nacionalidade desse país.

Foto: Guy Wolff

Não receia ser manipulado pelo partido para angariar votos junto dos eleitores de origem portuguesa – os portugueses não podem votar nestas eleições –, por ser muito popular?

Não sei responder se é essa a intenção deles ou não. Até agora, todas as ideias de que falámos, para mim, foram claras. Se entretanto houver ideias que são racistas, eu de hoje para amanhã acabo com a minha candidatura. O meu interesse é ajudar a população a ter uma vida melhor em todos os setores, e se puder ajudar o partido a evoluir nesse sentido, tudo bem. Se for contra as minhas ideias, eu saio e continuo a minha vida.

Tem ideia do que seria o país no plano económico e social sem estrangeiros?

Sem estrangeiros, o Luxemburgo ia abaixo, isso toda a gente sabe [risos].

Então não acha que o Luxemburgo tem demasiados estrangeiros, como defendeu o ADR num debate na semana passada?

Demasiados? Ufa, é certo que tem muitos estrangeiros, e vai sempre ter. Haverá sempre estrangeiros que vêm para o Luxemburgo para ter uma vida melhor. Nunca se pode dizer que tem demasiados. Eles têm medo que a nacionalidade luxemburguesa desapareça, é mais isso. Há 100 mil portugueses, fora pessoas como eu, que têm nacionalidade luxemburguesa, se não ainda seria mais.

E por que é que isso é ameaçador para o seu partido? Na semana passada um português com dupla nacionalidade, Marco Godinho, foi nomeado para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza, e o Daniel da Mota também é uma referência no futebol nacional. Isto não é enriquecedor para o país? De onde é que vem esse medo de que o Luxemburgo desapareça?

Acho que não é só o ADR que tem medo disso, nos outros partidos também têm, só que não querem dizer. Para mim é normal que num país que tem tantos estrangeiros, tenham medo que a nacionalidade deles desapareça, ou mesmo a língua materna deles, porque não há muitos a falar corretamente luxemburguês. Eu falo, mas não sei escrever...

Isso ninguém sabe.

[risos] Cada um escreve como fala. Mas para mim é o medo de todos os partidos.

Não é isso que tem sido a prática dos outros partidos. Por exemplo, no referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, só houve dois partidos que se opuseram, o ADR e o CSV.

Sim, sim. É complicado de explicar. Como disse, todos os partidos com que falei têm medo que o luxemburguês desapareça daqui a 30, 50 anos.

E, no entanto, há estudos que dizem precisamente o contrário : graças aos estrangeiros, e nomeadamente aos portugueses, o luxemburguês é cada vez mais falado.

Sim, porque há muitos estrangeiros que querem integrarse bem aqui no país e esforçamse por aprender a língua luxemburguesa. Claro que, por causa do trabalho, não dá sempre para aprender, como é o caso dos meus pais.

Os seus pais não falam luxemburguês?

Não. Entendem, mas não falam. Mas agora, dependendo do setor, já tens a possibilidade de aprender luxemburguês durante o trabalho [”congé linguistique”, ou licença para aprendizagem de línguas]. Isso já é um ponto que nós, no partido, queremos ajudar a progredir.

De onde vêm os seus pais?

Os meus pais vêm de Celorico de Basto. Primeiro veio o meu pai, e só depois de ter estado cá um ou dois anos e de ter um trabalho fixo é que veio a minha mãe. Eles vieram para cá para ter uma vida melhor, e agora têm uma vida boa, graças ao esforço que fizeram estes anos todos. Nós nascemos todos cá, somos três rapazes e uma rapariga, e eles deram-nos uma vida melhor. Para mim, é o caso de todos os estrangeiros. Há alguns casos em que se aproveitam do sistema, mas isso há em todo o lado.

Os seus pais não falam luxemburguês, como a maioria dos imigrantes da primeira geração. Isso tem sido uma nota dominante no seu partido: apontar o dedo a quem não fala luxemburguês.

Não diria isso. Para mim, o normal é uma pessoa vir para aqui, sendo português ou não, e aprender a língua.

As línguas. São três.

Sim, e os portugueses normalmente aprendem francês. Mas o essencial é que aprendas a língua materna do país. Se eu for viver para a Grécia, também tenho de falar grego.

Mas a Grécia, tal como Portugal, só tem uma língua. Uma das coisas em que o ADR insiste é nessas equivalências, que não são verdadeiras. No Luxemburgo não há uma situação de imersão: as pessoas não ouvem constantemente falar luxemburguês, e uma pessoa que trabalhe, por exemplo, na construção, está num ambiente com muitos portugueses. Não foi esse o caso dos seus pais?

Sim, sim, eu não digo o contrário. É por isso que eu digo: é mais para a segunda geração, para lhes dar melhores condições, a nível de línguas e de educação. Não vais exigir a uma pessoa que chega ao Luxemburgo com 30 ou 40 anos que aprenda corretamente o luxemburguês, isso já é mais complicado.

Há um deputado do seu partido, Fernand Kartheiser, que em 2014 questionou o ministro da Educação por causa de um anúncio para uma associação que pedia candidatos que falassem português, além das três línguas oficiais do país, e fez um escândalo sobre isso [ler notícia]. Se viesse a ser eleito, e visse um anúncio de emprego que dissesse “falar português é uma vantagem”, também ia questioná-lo no Parlamento?

Eu ainda não estou nesse caso.

Mas pode vir a ser eleito. Acha mal que se possa pedir a língua portuguesa para um emprego?

Depende sempre dos empregos. Quanto mais línguas tiveres, melhor é. Mas também já vi muitos anúncios em que a língua luxemburguesa é exigida e todas as línguas suplementares são uma vantagem.

Portanto, não concorda com o deputado Fernand Kartheiser, do seu partido?

Ó, não concordo... Tenho de ouvir isso tudo em pormenor, não posso dar opiniões agora. Mas um português que vem para cá normalmente fala português, francês e às vezes inglês, e depois depende de como quer integrar-se no país e de se quer um trabalho ou não, e onde trabalha. Quando uma pessoa trabalha numa padaria, está sempre em contacto com as pessoas, e há muitas pessoas que vão à padaria e os empregados não falam luxemburguês. É mais isso. Mas agora não quero dar a minha opinião. Eu ainda não estou em debate e ainda vamos ter ’workshops’ com o partido.

Imagina como seria a vida da sua família se os princípios que o ADR defende estivessem em maioria?

Não, não pensei nisso. Mas, como eu já disse, a maior parte das pessoas tem a ideia que é um partido racista, e se fosse assim, eu não estaria lá.

O ADR, tal como a Frente Nacional em França, está sempre a tentar desmentir essa acusação. A FN também diz que não é contra os estrangeiros, e tem até candidatos estrangeiros. Mas têm associações suspeitas. O ADR tem outro candidato, Fred Keup, que liderou a campanha no referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, com uma página no Facebook chamada Nee2015 (Não2015). Essa página converteu-se em Wee2050 (Caminho2050), e tem muitos comentários de pessoas associadas a movimentos de extrema-direita na Alemanha. Sente-se confortável por ser candidato ao lado de Fred Keup, considerado um populista?

Eu estou a entrar neste mundo, e... Nas próximas semanas vamos ter as nossas ’workshops’, sobre o que a gente vai apresentar e defender, mas estar-me a comparar com outros candidatos do ADR... Não queria compararme agora.

O que é mudaria se pudesse melhorar a vida dos estrangeiros?

Há muitas coisas que podes mudar. Não vou agora dizer ’isto ou isto’, porque tenho de falar primeiro com o partido. Não vou agora dizer qualquer coisa sem saber se vou poder apresentá-la nestas eleições.

Paula Telo Alves e Álvaro Cruz


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