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Cristovão Marinheiro. A beleza do mundo está na ordem de uma biblioteca
Luxemburgo 4 min. 01.01.2021

Cristovão Marinheiro. A beleza do mundo está na ordem de uma biblioteca

Cristovão Marinheiro. A beleza do mundo está na ordem de uma biblioteca

Foto: António Pires
Luxemburgo 4 min. 01.01.2021

Cristovão Marinheiro. A beleza do mundo está na ordem de uma biblioteca

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Os livros são um universo. Cristovão Marinheiro lembra-nos que o passado pode dar-nos pistas para afrontar o futuro. Os livros não são manuais de instruções mas podem dar-nos a atitude certa para lidar com 2021.

Não se considera lusodescendente. “Sou português. Nasci no Luxemburgo, mas não me considero lusodescendente porque tenho os direitos de cidadania portuguesa que utilizo. O que se chama lusodescendente é, muitas vezes, uma pessoa que é português por procuração, mas eu sou português de parte inteira.”

Nasceu na cidade do Luxemburgo, os seus pais eram originários dos arredores da Figueira da Foz. É também luxemburguês. Afirma que é um equilíbrio pacífico mas que há sempre uma tensão. “É uma relação tensa, por exemplo, quando os meus filhos não querem falar comigo em português e preferem falar o alemão.” Eles não se sentem portugueses? “Eu sou estrangeirado, eles já são estrangeiros. Para eles, toda a língua é um esforço. Não veem a riqueza patrimonial de preservarem e usarem a língua dos seus antepassados. Têm ido a Portugal. Mas isso não atenua ainda o esforço”.

Para Cristovão, a integração também pressupôs um esforço linguístico. O alemão era difícil, mas a geografia conspirou a seu favor. Na aldeia em que cresceu só havia duas famílias portuguesas e a imersão linguística foi total. Teve também a ajuda de uma senhora idosa que o apoiava nos trabalhos de casa.

“Nunca me senti discriminado nessa aldeia, os meus pais foram, mas eu não. Éramos católicos, íamos à missa e havia uma comunhão de valores, como éramos umas crianças descansadas não fazíamos desacatos e éramos tomados como exemplos. De modo que foi uma bela infância, embora com o sofrimento da imigração. Foi no liceu é que eu senti que havia uma certa discriminação.”

Apesar disso sempre foi incentivado para ir para o ensino clássico.

“Fiz os estudos cá, depois num certo momento decidi fazer línguas, depois descobri a filosofia, como os autores mais interessantes, naquele momento para mim eram alemães, Kant, Schopenhauer e Adorno. Fui estudar para a Alemanha o que me permitiu conciliar dois interesses: a filosofia e a musicologia. Fui para Frankfurt. No início, foi o Adorno que o levou a essa escolha.

Durante o estudo descobre que Schopenhauer tem um grande respeito pelo Francisco Suárez, um pensador jesuíta, e começou a ler escolástica tardia. “Depois vou para Coimbra estudar isso. Sou convidado pelo Santiago Carvalho a trabalhar sobre a física dos conimbricenses, começo a especializar-me na escola de Coimbra e os jesuítas de Coimbra. Faço o doutoramento que me dá a possibilidade de vir trabalhar para a Biblioteca Nacional do Luxemburgo, porque a maior parte do fundo da biblioteca é jesuíta e eu conheço uma série de autores que normalmente as pessoas não conhecem.”

Foto: António Pires

O acervo de passado pode-nos permitir encarar 2021? “Não sou profeta, isso é bastante difícil, mas acho que há diferentes conceitos na história que nos permitem estar mais preparados para os problemas futuros. É como agarrar uns binóculos, permite-nos ver mais além, mas não nos diz o que lá vai estar. Apenas estamos mais capazes de ver e depois de o compreender e moldar as instituições pare afrontar os problemas”.

Não acredita nas ruturas, acredita mais nas continuidades?

“Sou uma pessoas das continuidades, as ruturas são para mim sempre mais perigosas. Há uma imagam que Marguerite Yourcenar dá na sua biografia fictícia de Adriano, nas “Memórias de Adriano” com que me identifico, ele antes da morte diz: ’É possível que a cidade do Vaticano venha a ser desses monoteístas cristãos (o que no momento dele isso era impensável), mas isso não faz mal. Eles vão destruir as estátuas que nós fizemos, mas se eles quiserem algum dia construir um império vão ser obrigados a reconstruir as as nossas estátuas e serão obrigados a compreender o passado para continuar.’ Ora sabendo que o Direito Românico se torna Direito Canónico, percebemos aí a continuidade. É isso que devemos procurar, guardar o melhor.”

Não acha que este tipo de modelo económico, demasiado intensivo e industrial e com o lucro como primeira e quase única prioridade , precisa de ser substituído e isso em si é uma rutura?

“Há uma necessidade de uma rutura, mas precisamos de um sistema económico sustentável, e neste momento é este que existe, agora como chegar a um modelo económico sem este tipo de exploração industrial? Não sei.”

Considera-se uma pessoa conservadora. Do Adorno para conservador, não há uma mudança? “Não. Adorno, que viveu o Maio de 68, mas quando vê uma certa deriva, e vê as jovens a despirem-se nas aulas, não acompanha esse tipo de progresso. Houve um musicólogo, em Frankfurt, que tinha vivido nessa época, que me disse: tens de imaginar que o Adorno escutava música clássica e nós escutávamos Rolling Stones, naturalmente que isso era um choque para ele. E num certo momento disse que não estava disposto a continuar a seguir este tipo de movimentos e colocaram-lhe dois estudantes espadaúdos à porta para lhe mostrar que não estavam de acordo com a sua ’deserção’, ele aí notou que havia violência e isso fez-lhe medo. É por isso que, para mim, ganha-se quando as mudanças não são grandes ruturas em que a violência e o medo surjam”.

“A minha biblioteca em casa tem os pré-socráticos e depois tem uma ordem histórica. O melhor da humanidade é isso. É preciso que as gerações futuras compreendam a beleza do mundo e compreendam os grandes pensamentos e é sobre isso que temos que construir.”

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