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Creches. Vinte minutos de português por dia, não sabe o bem que lhe fazia
Luxemburgo 3 min. 02.10.2018 Do nosso arquivo online

Creches. Vinte minutos de português por dia, não sabe o bem que lhe fazia

Rute Tomás assina uma tese de doutoramento sobre uma experiência pioneira para combater o insucesso escolar das crianças portuguesas.

Creches. Vinte minutos de português por dia, não sabe o bem que lhe fazia

Rute Tomás assina uma tese de doutoramento sobre uma experiência pioneira para combater o insucesso escolar das crianças portuguesas.
Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 3 min. 02.10.2018 Do nosso arquivo online

Creches. Vinte minutos de português por dia, não sabe o bem que lhe fazia

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Um estudo pioneiro no Luxemburgo indica que as crianças portuguesas precisam de reforçar a língua materna para aprenderem luxemburguês e terem sucesso escolar. Uma intervenção que pode ser feita nas creches, durante vinte a trinta minutos por dia.

O problema não é novo, mas a solução pode ser revolucionária. Já se sabia que um bom conhecimento da língua materna era importante para aprender outros idiomas e garantir o sucesso escolar das crianças portuguesas, mas esta é a primeira vez que foram testadas formas de reforçar a língua portuguesa na escola. E os resultados são muito satisfatórios, consideram os investigadores da Universidade do Luxemburgo.

O estudo pioneiro foi anunciado em 2014, mas os primeiros resultados só foram agora conhecidos. O projeto, da responsabilidade da investigadora Pascale Engel de Abreu, baseia-se num programa utilizado no Reino Unido, que recorreu a jogos infantis para estimular a linguagem oral no pré-escolar, contribuindo mais tarde para facilitar a aprendizagem da escrita no ensino primário.

No Luxemburgo, o projeto acompanhou 186 crianças portuguesas, com idades entre os quatro e os seis anos, em 84 turmas do pré-escolar. A maioria eram de meios sócio-económicos desfavorecidos.

No início do projeto, o nível de português das crianças foi testado pelos investigadores e comparado com os seus pares em Portugal. Os investigadores concluíram que as crianças no Luxemburgo tinham “uma performance muito mais baixa” na língua materna, ainda antes de chegarem ao pré-escolar, explicou ao contacto Rute Tomás, que concluiu na sexta-feira uma tese de doutoramento em que apresentou os primeiros resultados.

Durante dois anos, a equipa da Universidade do Luxemburgo realizou atividades lúdicas em língua portuguesa, quatro vezes por semana, durante vinte a 30 minutos, com metade das crianças (93). As restantes receberam apoio em atividades ligadas à Matemática. A intervenção em português era simples, recorrendo a jogos, imagens e histórias. O objetivo era verificar se estes estímulos reforçavam a língua materna e, com ela, a aprendizagem do luxemburguês. Os resultados, que ainda vão ser publicados numa revista da especialidade, “são muito positivos”, disse Rute Tomás. “Tivemos melhor performance com todo o grupo que teve a intervenção em português”.

A ideia deste método, que os investigadores esperam que possa vir a ser aplicado no Grão-Ducado, veio de Pascale Engel de Abreu, que trabalha há anos para combater o insucesso escolar das crianças que falam português. “Este tipo de intervenções faz-se em várias escolas, mesmo com crianças monolingues, noutros países, no pré-escolar, e não interfere com as atividades do dia-a-dia. É possível pô-la em prática com poucos recursos”, defende a luxemburguesa, que é casada com um brasileiro e fala fluentemente português. Os resultados podem ser inquantificáveis. “Está mais do que provado que a linguagem é a base do sucesso escolar. As crianças que têm dificuldades logo na pré-primária estão condicionadas, estamos cansados de saber isso”, acrescenta Rute Tomás.

Para Pascale Engel, a intervenção nas creches também pode evitar que as crianças portuguesas percam a língua materna, o que seria “trágico”, considera. “O ideal seria crianças que falam bem alemão, francês e luxemburguês Mas e o português, a primeira língua? Sabemos que é importante para aprender outras línguas, e depois, no Luxemburgo, às vezes parece que esquecemos a importância da língua portuguesa no mundo. É um recurso enorme falar essa língua, e perdê-la é uma enorme perda”.

Do júri das provas de doutoramento veio outra ideia: escolas de imersão bilingue, em que os luxemburgueses aprendam português e os portugueses luxemburguês, como já acontece nos Estados Unidos e Canadá com crianças que falam espanhol e inglês (ver caixa). “Seria uma ideia muito interessante no Luxemburgo”, defendeu Pascale Engel.

Paula Telo Alves


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